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sábado, 16 de janeiro de 2010

MÓNOLOGO "A VIDA É SONHO"



Foto da peça A Vida é Sonho/Texto: Calderón de la Barca/Adaptação e Direção: Edson Bueno
http://aldicelopes.blogspot.com/2008/11/vida-sonho.html

por Calderón de la Barca



"Ai de mim, ai, pobre de mim!
Aqui estou, ó Deus, para entender que crime cometi contra Vós.
Mas, se nasci, eu já entendo o crime que cometi.
Aí está motivo suficiente para Vossa justiça, Vosso rigor, porque o crime maior do homem é ter nascido.
Para apurar meus cuidados, só queria saber que outros crimes cometi contra Vós além do crime de nascer. Não nasceram outros também?
Pois, se os outros nasceram, que privilégios tiveram que eu jamais gozei?
Nasce uma ave e, embelezada por seus ricos enfeites, não passa de flor de plumas, ramalhete alado quando veloz cortando salões aéreos, recusa piedade ao ninho que abandona em paz.
E eu, tendo mais instinto, tenho menos liberdade?
Nasce uma fera e, com a pele respingada de belas manchas, que lembram estrelas.
Logo, atrevida e feroz, a necessidade humana lhe ensina a crueldade, monstro de seu labirinto.
E eu, tendo mais alma, tenho menos liberdade?
Nasce um peixe, aborto de ovas e Iodo e, feito um barco de escamas sobre as ondas, ele gira, gira por toda parte, exibindo a imensa habilidade que lhe dá um coração frio.
E eu, tendo mais escolha, tenho menos liberdade?
Nasce um riacho, serpente prateada, que dentre flores surge de repente e de repente, entre flores se esconde onde músico celebra a piedade das flores que lhe dão um campo aberto à sua fuga.
E eu, tendo mais vida, tenho menos liberdade?
Assim, assim chegando a esta paixão, um vulcão qual o Etna quisera arrancar do peito, pedaços do coração.
Que lei, justiça ou razão pôde recusar aos homens privilégio tão suave, exceção tão única que Deus deu a um cristal, a um peixe, a uma fera e a uma ave?"



***



Texto retirado do filme Tempos de Paz, filme brasileiro baseado em teatro, parte do monólogo espanhol, A Vida é Sonho, de Calderón de la Barca, página 39, fala de Segismundo para Rosaura.






7 comentários:

Maria Auxiliadora de Oliveira Amapola disse...

A paixão é mesmo assim...
Se ela nos pega de jeito
Escraviza o nosso peito
Parecendo punição.

Anônimo disse...

Hola Virginia!! Este autor lo estudié en la secundaria y después seguí leyendo su obra. Este fragmento es precioso. El film no lo vi.
Besosssss

Maria Auxiliadora de Oliveira Amapola disse...

Caríssima Virgínia.
Agora eu tenho um blog de histórias infantis que é: amapola-historiasinfantis.blogspot.com

Maria Auxiliadora de Oliveira Amapola disse...

Se a paixão nos pega de jeito
Escraviza o nosso peito
Parecendo punição.

(A diferença entre o homem e os outros animais, é a razão e a paixão.
Só que pagamos um preço tão alto por isso...)

Paulus disse...

Um texto meravilhoso. É a primeira vez que o lego em portugues. (perdao pelo crime que faço contra a sua língua. Axo que lo falo muito melhor que nao lhe escribo).

Eu gosto muito do monólogo de Segismundo. Impressiona-me o subjetivismo extremo que tem, ainda nos tempos de Calderón...

Um abraço.

Anônimo disse...

Thank you! I've been looking for this everywhere. I've been trying to learn it in Portuguese, eversince I heard it in Tempos De Paz. I tried google translate, but it didn't do.

Nanda disse...

No meu entendimento o texto não tem nada de romantico e não fala de paixão. Não assisti a peça, porem levando o texto ao contexto do filme ele fala do homem, que independente de época, condição social, status, formação academica ou qualquer outra posição é escravo, tem menos liberdade que qualquer passarinho, animal, flor. O carrasco chorou por entender sua condição de escravo que cumpria ordens sem questionar e ao final foi descartado por seus patronos mandantes, o ator chorou por apesar de saber o que era certo fazer, se prostou aos horrores da guerra. Assim como todos nós que somos obrigados a seguir regras absurdas do estado, da sociedade, obdecer padrões de beleza, aceitar calados as guerras, a opressão, a má educação, as distorções de valores. Feliz é o pouco racional que "acha" que é liberto, porque se compreende que vive em uma gaiola, podado, cerceado de todos os lados enlouqueceria.

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