terça-feira, 5 de janeiro de 2010

FAITHFULLY





Veio bater-me a porta
Cabisbaixa, sorrateira,
E não era velha, nem moça

Era bonita ao seu modo de ser
Num gesto cálido, sem nada dizer,
pegou-me nos braços e fez-me um afago

Depois, afastando-me um pouco
Olhou-me com olhos doces, de bondade
Uma mistura fatal de fadiga e irrealidade
Olhos de quem adormeceu, mas, não sonhou

Não a reconhecera de pronto
Porém, seu vestido preto acinzentado,
Salpicado de manchas roxas e marrons, dissera-me que já a tinha visto, que, claro, jamais a poderia ter esquecido, pois presente estava em algum momento

Quase sempre, vinha no vento ou no canto dos pássaros
e deixava-se ficar por um longo tempo, observando
a paisagem do alto dos prédios ou mesmo por cima dos galhos
das árvores ou ainda por sobre as campas do cemitério

Claro, não poderia jamais tê-la esquecido
pois, presente estava em algum momento
Fosse na paz, no sossego de um domingo, fosse num dia
de tumultuosa, ruidosa alegria

Era tão discreta, silenciosa, que sempre achavam que havia ido embora
Entretanto, cedo ou tarde alguém a via de relance e ao procurá-la no salão da alma, cujo  corredor conduz direto ao coração, seu lugar preferido, é que reparavam no que dizia o letreiro, tão antigo, pendurado à porta:

“A Saudade, às vezes vai lá fora, sai mas volta, nunca vai embora. A Saudade é senhora. Ela ainda mora aqui.”
Postar um comentário