sexta-feira, 20 de junho de 2008

TAMBATAJÁ [1]


Amasuru, índio da tribo Macuxi, além de grande guerreiro, era belo e inteligente, pois os deuses o haviam agraciado com todas as graças que pudessem ser concedidas a um mortal. Mas um dia, enredado pelas artimanhas de Rudá, o deus do amor, o guerreiro apaixonou-se perdidamente por Jaciara, a filha do pajé.
Realmente, em todo Imenso Vale Verde não havia beleza igual. Cabelos longos, negros e brilhantes, emolduravam um rosto que de tão rosado parecia besuntado de urucum
[1].
Para felicidade de Amasuru, Jaciara também o amava e diante desse fato, foi acertado o casamento.
Depois de casados, marido e mulher viviam felizes, devotados que eram um ao outro.
O tempo passou e tudo ia bem até que o guerreiro precisou se ausentar. Uma sangrenta batalha o aguardava. Amasuru, que não queria saber de matanças desde que conhecera o amor, chorou bastante. Mas, por questões de honra, sendo ele o mais bravo e o mais forte, precisava ir.
Pegando as armas de guerra, subiu na ygar
[2] juntando-se aos outros, rapidamente desaparecendo nas curvas do rio.
Jaciara lamentava-se noite e dia. Perdeu o rosado do rosto e caiu doente. O que seria dela se Amasuru não voltasse?
No clamor da batalha distante, o guerreiro lutou com a força do desespero, matando muitos, pois queria, o quanto antes, voltar para casa.
Numa noite de lua cheia, o povo da aldeia Macuxi, ouviu ao longe o canto do inybi-á
[3]. Eles voltaram, mas Jaciara, doente como estava não pôde levantar-se. Amasuru, ao procurar sua amada e não encontrá-la em meio à gente, acorreu rapidamente à sua oca. Lá estava ela, ainda deitada e ardendo em febre. Seu pai, o velho pajé, desistira de suas pajelanças e procurava acalmar os delírios da filha.
Preparou-se uma festa, onde Amasuru seria o maior homenageado. Não compareceu, o que apenas lhe importava era ficar ao lado de Jaciara.
Naquela mesma noite, pela madrugada, Jaciara melhorou e ao contemplar o amado, as cores e o sorriso lhe voltaram, e durante algum tempo, o casal tornou a ser feliz. Para não mais deixá-la só, enquanto se recuperava, Amasuru teceu uma tipóia, onde a colocou, amarrando-a as costas, levando-a assim para todos os lugares.
Mas o contentamento teve a duração do tépido calor da manhã.
Certa feita, Amasuru, sempre carregando a tipóia, resolveu dar um passeio num lugar bonito, cheio de beija-flores, que só ele conhecia. Pelo caminho foi conversando com Jaciara, enquanto ia recolhendo água, flores e alguns frutos. Porém, ao chegarem no dito lugar e ao desamarrar a tipóia, o jovem índio constatou que Jaciara estava morrendo. Só teve tempo de retirá-la e ampará-la nos seus braços.
Tomado pela dor carregou seu corpo, embrenhando-se por dentro da floresta. Parou à beira de um riacho, onde, com suas próprias mãos, cavou uma sepultura. Depois, baixando o corpo da esposa, deitou-se ao seu lado, lá permanecendo até o fim.
Grossas chuvas despencaram, empurrando a terra que, aos poucos, foi cedendo e cobrindo os amantes. Amasuru olhou uma última vez para o céu. Um raio iluminou a escuridão, e o coração do jovem guerreiro se aquietou. Tupã havia aceitado seu sacrifício.
No retorno da lua cheia, em cima da sepultura, brotou um pé de planta, de folhas triangulares, de cor verde escuro; trazendo em seu verso uma outra folha de menor tamanho. É o tambatajá, a qual os índios e os caboclos da região atribuem poderes místicos.
Nas casas em que há amor, a planta cresce viçosa. Se na folha grande não existir a pequena é sinal de que não há amor, e se acaso apresenta mais de uma folhinha, então é porque há infidelidade entre o casal.

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[
1] urucum: fruto do urucunzeiro, em que, da polpa, se extrai um corante vermelho.
[2] ygar: canoa
[3] inibi-yá: espécie de cornetim

Do livro MORONETÁ-Crõnicas Manauaras, Virgínia Allan, Editora Valer
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