sábado, 1 de novembro de 2008

A MORTE E SEUS DISFARCES (*)







A morte tem esse dom de deixar-nos petrificados, por dentro e por fora, assim através da saudade, faz seu trabalho com menos demora. E leva mais um, e leva mais dois e leva mais três... e sob vários disfarces, como o do guri orfão de um conto que li, carente de afeto, jamais se contenta, e, como o gato sem dono, deste mesmo conto, vai procurando pelas ruas, driblando o abandono até encontrar um feliz / infeliz caminhante, e, com seu ronronar meigo, sedutor dele vai se aproximando, se enroscando entre as suas pernas, trançando entre elas...

(*) A MORTE E SEUS DISFARCES é baseado no texto de Cláudio B. Carlos; aqui abaixo transcrito, por inteiro. Publicado no site http//:www.simplicissimo.com.br Edição 254 -27 -11- 07

COMO GATO SEM DONO



NÃO SABIA da morte nem de seus significados. Até gostava da palavra e encantava-me a triste elegância ou a elegante tristeza das mulheres de negro, chorosas nos velórios. De certo, só que era alguma coisa de muito grave. Mas era tão distante de mim, que correndo pelos campos com os guaipecas, ou comendo furtivas guabirobas entre um brincar e outro, era impossível imaginá-la ou sabê-la. CHEGOU-ME SILENTE como um passar de flanela em tampo de vidro, e com ares de sorro levou-me o amigo deitado em palavra de cerejeira. Também gostava desta – caixão – talvez por não saber que nela pudesse caber o gigante que carregou-me às costas um dia. Ali, no centro da sala, como num passe de mágica, em frente ao féretro me branquearam os cabelos, como se tivesse dormido à geada. Petrifiquei-me por dentro e entendi que assim como a saudade, que também é palavra bonita, a morte, em um dos significados que traz como disfarce que escolhe à toa em um leque de opções, é guri que fica sem pai, como gato sem dono, assim sem pernas pra se enroscar.


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