domingo, 6 de abril de 2008

CHAMADO ATENDIDO


A ninguém nada direi...
Silêncio!

CHAMADO ATENDIDO

Foi assim que aconteceu.
Numa bela tarde de sol, D. Morte dava sua costumeira volta ao mundo, quando subitamente ouviu alguém chamá-la das profundezas de seu desespero. Ficou um pouco atrapalhada. Além de detestar esses chamados fora de hora, (este sujeito não era único descontente da vida), havia resolvido naquele dia não atender a nenhum suicida. Por causa deles negligenciara as prioridades e D. Morte, sendo politicamente correta, pensava em obedecer rigidamente o esquema de trabalho estabelecido pelo Grande Senhor desde o princípio dos tempos.
Assim, tapou os ouvidos e seguiu um pouco emburrada o seu caminho. Mas tal esforço não lhe caia bem, pois D. Morte sofria de alguma espécie de transtorno que a impedia de deixar qualquer assunto inacabado e depois o chamado se fazia tão insistente que apesar de sua decisão, não resistiu à compulsão de dar ao menos uma espiada no infeliz, que num momento de pura insanidade, desejava encontrá-la urgentemente.
Finalmente, chegou ao local determinado e percebeu que precisava cumprir a tarefa para a qual fora designada. Era isso que dela esperava O Grande Senhor de todas as vontades. D. Morte soube, ali, naquele instante, que não cabia a ela, e, diga-se de passagem, a mais ninguém; nem ao dito celerado, movido a desespero, a decisão final de viver ou de morrer. Somente Ele possuía tal poder e a decisão já havia sido tomada.
D. Morte, sempre pronta a fazer o seu trabalho, acolheu então em seus braços o pobre desesperado.
Lá fora fazia uma bela tarde de sol.
O jovem suicida deixou mulher e duas filhas. Para elas, a tarde tornou-se cinza.




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