Inicio da tarde... neste período de tempo há certa dificuldade para mim em conciliar meus pensamentos, não importa se faz chuva ou sol... lembro-me de outros inícios de tarde em que a alegria não demorava a chegar: um banho morno no chuveiro do pátio, entre canteiros de rosas e pássaros ou ainda um mergulho na piscina de plástico, brinquedo armado, pronto, sempre a esperar... o pé de acerola, carregadinho de frutos apetitosos e avermelhados... a sombra se estendendo, a crescer no quintal... o vento, ora forte, ora fraco passa, trazendo histórias em suas asas... a roupa a secar no varal... início de mais uma tarde de amor... o pequeno portão de ferro, quebrado, range quando o abrem... sinal de que voltou...correria, sorrisos, gritos de crianças, saudades, beijos e braços... o suor a escorrer pela face bonita e jovem, tristeza a se esconder no olhar... verdades atrozes... na vez, chuva grossa a bater no telhado de folhas de amianto, um sossego esparramado no aconchego do quarto, na cama quente entre lençóis perfumados, segurança, apenas um instante, nos braços calorosos de uma esposa-amante... a morte e a dor aguardam, inquietas, ao lado de fora ... dia seguinte, céu límpido, de um azul estonteante; o sol brilha tanto que ofusca a visão... o sol é belo, a vida é bela, mas, nada se pode ver devido ao clarão... a alma cega... a mesa posta, manhã ou tarde, café para quatro... a alegria está de volta... acordes altos de um contrabaixo... um bebê a chorar... uma canção de ninar... linda visão do futuro... eternamente... juntos... um doce entardecer... assim deveria ser... não há lágrimas que desbotem essas ternas lembranças... quadro familiar pintado por um deus esquecido, mas, invejoso do amor perfeito que, por breves instantes, por descuido, baixou à terra e, rebelde, desatinado, ao céu não mais desejou retornar...
Um corvo, um cobre
Se quiser jogar um cobre a um corvo pobre, será muito bem vindo: chave pix: virginiallan@hotmail.com
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sexta-feira, 27 de junho de 2008
quinta-feira, 26 de junho de 2008
UM
O homem, sentado à beira do barranco, em sossego, pita um cigarro de palha.
Seus pensamentos acompanham o rio que lá embaixo passa, ligeiro e certo, rumo ao seu destino.
Homem e rio se confundem, unidos na mesma solidão; solidários como velhos amigos que se reencontram depois de um longo tempo.
***
No verão,
partiremos rumo ao sol.
Minha sombra e eu.
***
Fim de noite...!
Perdem-se no ar
as cinzas de junho.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
EM BUSCA DO SOL
Lá vão eles, remando em suas canoas, deslizando suavemente pelo rio, varando a madrugada.
Eles, quem são eles?
Eles, quem são eles?
São os índios Tupeba, que todos os dias, saem bem cedinho em busca do sol.
O sol que foge todas as tardes, deixando a noite cair, por isso, é preciso partir e outra vez trazê-lo de volta.
Quase perto do encontro das águas, encontram também o sol.
Feliz encontro!
Feliz encontro!
Mais tarde as trevas virão, cobrindo tudo, e, novamente, eles sairão remando em suas canoas, deslizando suavemente pelo rio, varando a madrugada.
Talvez, para sempre, fosse assim.
Mas, ele veio, o homem de cabelos amarelos, o filho do sol.
Um dia, desceu do céu, trazendo consigo um estranho mensageiro; que batendo suas longas asas, cantava para chamar o dia.
E, desde então, os índios Tupeba não saíram mais tão cedo, remando em suas canoas, deslizando suavemente pelo rio, varando a madrugada...
Mas, ele veio, o homem de cabelos amarelos, o filho do sol.
Um dia, desceu do céu, trazendo consigo um estranho mensageiro; que batendo suas longas asas, cantava para chamar o dia.
E, desde então, os índios Tupeba não saíram mais tão cedo, remando em suas canoas, deslizando suavemente pelo rio, varando a madrugada...
Agora, ficavam muito descansados; deitados em suas redes, esperando ouvir a ave cantar.
terça-feira, 24 de junho de 2008
ENCANTAMENTO
Para Márcia
Que os peixes nunca te deixem esquecer.
Ela pensava enquanto pescava. De uns tempos pra cá, as coisas andavam esquisitas. Lembranças que não eram suas se sucediam em sua mente como cenas de um filme antigo, não conseguia livrar-se delas por mais que tentasse. Saíra para pescar justamente para ver se podia, ao menos, entendê-las.
Era montar quebra-cabeças. Uma aragem fria sacode-lhe os castanhos e compridos cabelos, encrespando também as negras águas do rio, e de repente, ela sente medo. Uma escuridão, vinda não se sabe de onde, envolve tudo, como se uma noite sem lua despencasse do céu em plena tarde.
Pronto! Fim da pescaria. Não há mais peixes, não há mais pássaros não há mais sol; iria embora. Mas como? Pergunta-se. Com todo esse pretume jamais acertaria o caminho. Teria de esperar! Encolhe-se na posição fetal, assim é que ela sempre ficava quando se sentia insegura. Devagar, fecha os olhos e novamente as lembranças retornam.
Primeiro é a vastidão da floresta, com índios correndo nus por todos os lados. Livres, tomando banho nos rios. São muitos: crianças, todos crianças, curumins e cunhantãs. Grandes nações dizimadas, escravizadas, enfraquecidas, absorvidas pela ''civilização'' do homem branco, quase nada restando, a não ser os nomes, bonitos e poéticos: Baré, Uapés, Tarumã, Tupeba, Manáo... Manaú... Manaus, ''mãe dos deuses'' e deuses é o que eles pensavam ser, os poderosos senhores da floresta. Quando eles, os invasores, aqui chegaram abriram na mata, uma ferida mortal. Bem no coração verde da floresta, o branco, o homem branco, ergueu uma aldeia, logo depois, uma vila e finalmente uma cidade. Uma cidade que foi, que vai, crescendo desordenadamente, com ruas tortuosas e esburacadas; ruas que rasgam a selva fazendo-a gritar de dor. Ruas que vão tomando o lugar dos igarapés, sempre cheias de animais que por ela transitam livremente; ruas de nomes curiosos: travessa da estrela, travessa do sol, travessa da lua, travessa das gaivotas. As casas surgem em variados estilos arquitetônicos, mistura de raças e culturas. Olhos tristes de longe vigiam os acontecimentos e não gostam nada do que vêem. Luzes brilham, mas não são os olhos da cobra-grande, é a luz elétrica que mexe com a cidade. Mais uma invenção do homem. Para ele já não basta a luz do sol, da lua, das estrelas ou dos românticos lampiões. Invenção do homem, do homem...
Uma magnífica construção eleva-se do chão. Elegante, majestosa, e é dentro dela que eles realizam os seus sonhos. É no teatro mágico, fabuloso, como fabulosa é a cidade idealizada para ser a ''Paris das Selvas'', Paris dos sonhos; sonho amazônico de grandeza de um louco? De um visionário ou de um simples ''Pensador?''1 Talvez todos eles juntos, reunidos no espírito empreendedor de um único homem. Sonhos! Não dizem que tudo é sonho? A realidade é sonho e agora tudo passou. O sonho virou pesadelo, a fábula acabou como uma história mal contada. Ela não é mais a “Paris das Selvas”; não é mais a Paris dos sonhos, ela ganhou feios contornos de modernidade.
A cobra-grande não desperta mais, provocando tremores e temores, abalando a fantasia popular com sua imensa e poderosa cauda. O boto namorador já não dança nos bailes em dias de festa, somente Anhangá passeia debaixo deste sol, cada vez mais moreno, cada vez mais feliz. Os bons espíritos da floresta perderam seu lar e tiveram de se adaptar a nova realidade. Andam pelas ruas esquecidos de si, acreditando que são como uma gente qualquer. Esquecer e serem esquecidos.
Por fim ela compreende que as lembranças sempre foram suas, lembranças de quem sempre habitou este mundo verde desde os tempos sem memória. No mesmo instante dissipa-se a escuridão, então, se levanta e despindo-se da pele humana que vestira por muito tempo, mergulha na água de volta para casa. Os peixes ensinaram-lhe o caminho de retorno. Parte, deixando atrás de si um rastro de prata nas águas escuras do rio, enquanto se acendem as luzes, na cidade cada vez mais distante.
***
1 Pensador: Assim era chamado o então governador Eduardo Gonçalves Ribeiro.
domingo, 22 de junho de 2008
FESTA DO BOI BUMBÁ OU PAVULAGEM
A leste do Amazonas, precisamente a 325 Km de Manaus, se encontra, sob a benção de Nossa Senhora do Carmo, a padroeira, o município de Parintins, a ilha do folclore, assim conhecida por abrigar durante os dias 28,29 e 30 de junho a maior festa folclórica do estado, quiçá, do país. Perdendo apenas para o carnaval, a festa do boi-bumbá, é também conhecida por pavulagem, que no dizer do caboclo da região, significa gabar-se, contar vantagem.
A “ilha Tupinambarana” (falsos tupis) outro nome pelo qual Parintins é chamada, situa-se à margem direita do rio Amazonas e é formada por uma população de espírito moderno e empreendedor, vibrante, que detêm nos bois Garantido (vermelho) e Caprichoso (azul), as suas maiores paixões. Divididas em torcidas, nos dias de festa, a rivalidade chega ao extremo de se pintar a casa ou só se vestir com roupas da cor do boi de sua preferência.
A festa de boi-bumbá veio do Maranhão, que lá era chamada por bumba-meu-boi, com os primeiros imigrantes que aqui na Amazônia vieram se instalar, tomando desde então, devido à miscigenação existente na região, características próprias. Mas, apesar de afluírem para a “ilha dos falsos tupis” grandes levas de turistas não é só em Parintins que se respira folclore ou brinca-se de boi-bumbá, em Manaus, ainda é viva e forte a tradição desta dança dramática preservada com muito carinho no seio das comunidades e nos bairros. A morte e a ressurreição do boi são os pontos altos dessa festa magnífica, encenada nas profundezas da Floresta Amazônica, é o canto do branco, do negro e do índio misturados aos cantos dos encantados, dos pássaros e outros bichos, pedindo passagem para que o mundo ouça a sua mensagem e que, ao volver o olhar para esse mítico “paraiso/inferno verde”, pense que é preciso e possível a preservação, é possivel um futuro promissor, "garantido" e "caprichoso", duradouro, para nós, para todos.
A “ilha Tupinambarana” (falsos tupis) outro nome pelo qual Parintins é chamada, situa-se à margem direita do rio Amazonas e é formada por uma população de espírito moderno e empreendedor, vibrante, que detêm nos bois Garantido (vermelho) e Caprichoso (azul), as suas maiores paixões. Divididas em torcidas, nos dias de festa, a rivalidade chega ao extremo de se pintar a casa ou só se vestir com roupas da cor do boi de sua preferência.
A festa de boi-bumbá veio do Maranhão, que lá era chamada por bumba-meu-boi, com os primeiros imigrantes que aqui na Amazônia vieram se instalar, tomando desde então, devido à miscigenação existente na região, características próprias. Mas, apesar de afluírem para a “ilha dos falsos tupis” grandes levas de turistas não é só em Parintins que se respira folclore ou brinca-se de boi-bumbá, em Manaus, ainda é viva e forte a tradição desta dança dramática preservada com muito carinho no seio das comunidades e nos bairros. A morte e a ressurreição do boi são os pontos altos dessa festa magnífica, encenada nas profundezas da Floresta Amazônica, é o canto do branco, do negro e do índio misturados aos cantos dos encantados, dos pássaros e outros bichos, pedindo passagem para que o mundo ouça a sua mensagem e que, ao volver o olhar para esse mítico “paraiso/inferno verde”, pense que é preciso e possível a preservação, é possivel um futuro promissor, "garantido" e "caprichoso", duradouro, para nós, para todos.
sábado, 21 de junho de 2008
AURORA [1]
“Ai, que dia mais quente!”. Assim dizia o menino consigo enquanto tirava a camisa.
Ele caminhava às margens de um riacho em que crianças nadavam aproveitando o calor da manhã. A água, limpa e fria, era um convite tentador.
Dali de onde estava podia ver as casas em construções, imitando os velhos estilos europeus. Eram bonitas. Algumas possuíam janelões, com sacadas cobertas de flores.
O menino tem uns dez anos de idade. É inteligente e imaginativo; observa as coisas com muita atenção, tirando por fim suas próprias conclusões. Ele está sempre aprendendo.
Naquele dia não foi à escola e seguiu em direção ao riacho. Estava quase pulando n'água, quando, de repente, o barulho de uma porta fê-lo olhar para os lados da casa mais bonita, e de pé, na sacada, viu uma linda menina; linda de um jeito que nunca vira na vida.
Trazia nas mãos um jarro com o qual pôs-se a regar as flores e ao se inclinar, os longos e finos cabelos cobriram, como um véu, o seu delicado rosto. Era a própria deusa Aurora, radiante, perante as portas do alvorecer.
O menino, não podendo mais suportar o calor, refugiou-se à sombra de um muro, porém, na verdade, a visão inesperada afetara-o mais que o sol abrasador. Ele queimava por dentro. Em seu coração sentiu uma sede que nunca, nada poderia aplacar e sentiu também uma imensa felicidade. Uma leve brisa soprou, espalhando um suave perfume que ele, atordoado, não soube dizer se vinha dela ou das flores que regava. Devagar fechou os olhos e saboreou a doçura da descoberta do primeiro amor.
***Inspirado em Saadi de Shiraz, El Jardín de las Rosas; Décimo quinto cuento
Ele caminhava às margens de um riacho em que crianças nadavam aproveitando o calor da manhã. A água, limpa e fria, era um convite tentador.
Dali de onde estava podia ver as casas em construções, imitando os velhos estilos europeus. Eram bonitas. Algumas possuíam janelões, com sacadas cobertas de flores.
O menino tem uns dez anos de idade. É inteligente e imaginativo; observa as coisas com muita atenção, tirando por fim suas próprias conclusões. Ele está sempre aprendendo.
Naquele dia não foi à escola e seguiu em direção ao riacho. Estava quase pulando n'água, quando, de repente, o barulho de uma porta fê-lo olhar para os lados da casa mais bonita, e de pé, na sacada, viu uma linda menina; linda de um jeito que nunca vira na vida.
Trazia nas mãos um jarro com o qual pôs-se a regar as flores e ao se inclinar, os longos e finos cabelos cobriram, como um véu, o seu delicado rosto. Era a própria deusa Aurora, radiante, perante as portas do alvorecer.
O menino, não podendo mais suportar o calor, refugiou-se à sombra de um muro, porém, na verdade, a visão inesperada afetara-o mais que o sol abrasador. Ele queimava por dentro. Em seu coração sentiu uma sede que nunca, nada poderia aplacar e sentiu também uma imensa felicidade. Uma leve brisa soprou, espalhando um suave perfume que ele, atordoado, não soube dizer se vinha dela ou das flores que regava. Devagar fechou os olhos e saboreou a doçura da descoberta do primeiro amor.
***Inspirado em Saadi de Shiraz, El Jardín de las Rosas; Décimo quinto cuento
sexta-feira, 20 de junho de 2008
TAMBATAJÁ [1]
Amasuru, índio da tribo Macuxi, além de grande guerreiro, era belo e inteligente, pois os deuses o haviam agraciado com todas as graças que pudessem ser concedidas a um mortal. Mas um dia, enredado pelas artimanhas de Rudá, o deus do amor, o guerreiro apaixonou-se perdidamente por Jaciara, a filha do pajé.
Realmente, em todo Imenso Vale Verde não havia beleza igual. Cabelos longos, negros e brilhantes, emolduravam um rosto que de tão rosado parecia besuntado de urucum [1].
Para felicidade de Amasuru, Jaciara também o amava e diante desse fato, foi acertado o casamento.
Depois de casados, marido e mulher viviam felizes, devotados que eram um ao outro.
O tempo passou e tudo ia bem até que o guerreiro precisou se ausentar. Uma sangrenta batalha o aguardava. Amasuru, que não queria saber de matanças desde que conhecera o amor, chorou bastante. Mas, por questões de honra, sendo ele o mais bravo e o mais forte, precisava ir.
Pegando as armas de guerra, subiu na ygar [2] juntando-se aos outros, rapidamente desaparecendo nas curvas do rio.
Jaciara lamentava-se noite e dia. Perdeu o rosado do rosto e caiu doente. O que seria dela se Amasuru não voltasse?
No clamor da batalha distante, o guerreiro lutou com a força do desespero, matando muitos, pois queria, o quanto antes, voltar para casa.
Numa noite de lua cheia, o povo da aldeia Macuxi, ouviu ao longe o canto do inybi-á [3]. Eles voltaram, mas Jaciara, doente como estava não pôde levantar-se. Amasuru, ao procurar sua amada e não encontrá-la em meio à gente, acorreu rapidamente à sua oca. Lá estava ela, ainda deitada e ardendo em febre. Seu pai, o velho pajé, desistira de suas pajelanças e procurava acalmar os delírios da filha.
Preparou-se uma festa, onde Amasuru seria o maior homenageado. Não compareceu, o que apenas lhe importava era ficar ao lado de Jaciara.
Naquela mesma noite, pela madrugada, Jaciara melhorou e ao contemplar o amado, as cores e o sorriso lhe voltaram, e durante algum tempo, o casal tornou a ser feliz. Para não mais deixá-la só, enquanto se recuperava, Amasuru teceu uma tipóia, onde a colocou, amarrando-a as costas, levando-a assim para todos os lugares.
Mas o contentamento teve a duração do tépido calor da manhã.
Certa feita, Amasuru, sempre carregando a tipóia, resolveu dar um passeio num lugar bonito, cheio de beija-flores, que só ele conhecia. Pelo caminho foi conversando com Jaciara, enquanto ia recolhendo água, flores e alguns frutos. Porém, ao chegarem no dito lugar e ao desamarrar a tipóia, o jovem índio constatou que Jaciara estava morrendo. Só teve tempo de retirá-la e ampará-la nos seus braços.
Tomado pela dor carregou seu corpo, embrenhando-se por dentro da floresta. Parou à beira de um riacho, onde, com suas próprias mãos, cavou uma sepultura. Depois, baixando o corpo da esposa, deitou-se ao seu lado, lá permanecendo até o fim.
Grossas chuvas despencaram, empurrando a terra que, aos poucos, foi cedendo e cobrindo os amantes. Amasuru olhou uma última vez para o céu. Um raio iluminou a escuridão, e o coração do jovem guerreiro se aquietou. Tupã havia aceitado seu sacrifício.
No retorno da lua cheia, em cima da sepultura, brotou um pé de planta, de folhas triangulares, de cor verde escuro; trazendo em seu verso uma outra folha de menor tamanho. É o tambatajá, a qual os índios e os caboclos da região atribuem poderes místicos.
Nas casas em que há amor, a planta cresce viçosa. Se na folha grande não existir a pequena é sinal de que não há amor, e se acaso apresenta mais de uma folhinha, então é porque há infidelidade entre o casal.
*********
[1] urucum: fruto do urucunzeiro, em que, da polpa, se extrai um corante vermelho.
[2] ygar: canoa
[3] inibi-yá: espécie de cornetim
Realmente, em todo Imenso Vale Verde não havia beleza igual. Cabelos longos, negros e brilhantes, emolduravam um rosto que de tão rosado parecia besuntado de urucum [1].
Para felicidade de Amasuru, Jaciara também o amava e diante desse fato, foi acertado o casamento.
Depois de casados, marido e mulher viviam felizes, devotados que eram um ao outro.
O tempo passou e tudo ia bem até que o guerreiro precisou se ausentar. Uma sangrenta batalha o aguardava. Amasuru, que não queria saber de matanças desde que conhecera o amor, chorou bastante. Mas, por questões de honra, sendo ele o mais bravo e o mais forte, precisava ir.
Pegando as armas de guerra, subiu na ygar [2] juntando-se aos outros, rapidamente desaparecendo nas curvas do rio.
Jaciara lamentava-se noite e dia. Perdeu o rosado do rosto e caiu doente. O que seria dela se Amasuru não voltasse?
No clamor da batalha distante, o guerreiro lutou com a força do desespero, matando muitos, pois queria, o quanto antes, voltar para casa.
Numa noite de lua cheia, o povo da aldeia Macuxi, ouviu ao longe o canto do inybi-á [3]. Eles voltaram, mas Jaciara, doente como estava não pôde levantar-se. Amasuru, ao procurar sua amada e não encontrá-la em meio à gente, acorreu rapidamente à sua oca. Lá estava ela, ainda deitada e ardendo em febre. Seu pai, o velho pajé, desistira de suas pajelanças e procurava acalmar os delírios da filha.
Preparou-se uma festa, onde Amasuru seria o maior homenageado. Não compareceu, o que apenas lhe importava era ficar ao lado de Jaciara.
Naquela mesma noite, pela madrugada, Jaciara melhorou e ao contemplar o amado, as cores e o sorriso lhe voltaram, e durante algum tempo, o casal tornou a ser feliz. Para não mais deixá-la só, enquanto se recuperava, Amasuru teceu uma tipóia, onde a colocou, amarrando-a as costas, levando-a assim para todos os lugares.
Mas o contentamento teve a duração do tépido calor da manhã.
Certa feita, Amasuru, sempre carregando a tipóia, resolveu dar um passeio num lugar bonito, cheio de beija-flores, que só ele conhecia. Pelo caminho foi conversando com Jaciara, enquanto ia recolhendo água, flores e alguns frutos. Porém, ao chegarem no dito lugar e ao desamarrar a tipóia, o jovem índio constatou que Jaciara estava morrendo. Só teve tempo de retirá-la e ampará-la nos seus braços.
Tomado pela dor carregou seu corpo, embrenhando-se por dentro da floresta. Parou à beira de um riacho, onde, com suas próprias mãos, cavou uma sepultura. Depois, baixando o corpo da esposa, deitou-se ao seu lado, lá permanecendo até o fim.
Grossas chuvas despencaram, empurrando a terra que, aos poucos, foi cedendo e cobrindo os amantes. Amasuru olhou uma última vez para o céu. Um raio iluminou a escuridão, e o coração do jovem guerreiro se aquietou. Tupã havia aceitado seu sacrifício.
No retorno da lua cheia, em cima da sepultura, brotou um pé de planta, de folhas triangulares, de cor verde escuro; trazendo em seu verso uma outra folha de menor tamanho. É o tambatajá, a qual os índios e os caboclos da região atribuem poderes místicos.
Nas casas em que há amor, a planta cresce viçosa. Se na folha grande não existir a pequena é sinal de que não há amor, e se acaso apresenta mais de uma folhinha, então é porque há infidelidade entre o casal.
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[1] urucum: fruto do urucunzeiro, em que, da polpa, se extrai um corante vermelho.
[2] ygar: canoa
[3] inibi-yá: espécie de cornetim
Do livro MORONETÁ-Crõnicas Manauaras, Virgínia Allan, Editora Valer
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