sábado, 5 de dezembro de 2009

A HISTÓRIA DOS DUENDES QUE ROUBARAM O COVEIRO PARTE II


Ora, Gabriel esperava com ansiedade o momento de alcançá-la, por ser, de um modo geral, um lindo sitio, ermo e tenebroso, pelo qual os habitantes da cidade não gostavam de passar senão à luz do dia, e quando brilhava o sol; por conseguinte, não foi pequena a sua indignação quando ouviu uma voz de criança cantar uma alegre canção de Natal, naquele mesmo santuário chamado a Viela dos Caixões desde o tempo da velha abadia e dos monges de cabeça rapada. À medida que Gabriel caminhava, e que a voz se tornava mais próxima, verificou pertencer a um menino, que corria, para unir-se a um dos grupinhos da velha rua e que, não só a fim de sentir-se acompanhado mas também de preparar-se para a ocasião, gritava com toda a força de seus pulmões. Por isso, Gabriel esperou que o menino se aproximasse e, empurrando-o para um canto, deu-lhe com a lanterna umas cinco ou sei vezes na cabeça para ensiná-lo a modular a voz. E quando o menino escapuliu, com as mãos nas têmporas, cantando uma canção muito diversa, Gabriel Grub casquinou, sozinho, alegremente, entrou no cemitério e fechou a porta após si.


Despiu a casaca, pôs no chão a lanterna e, dirigindo-se à cova inacabada, nela trabalhou com gosto por uma hora, mais ou menos. A geada, porém, endurecera a terra, e não era fácil cortá-la nem atirá-la para cima; e, se bem fosse noite de luar, a lua era muito nova e projetava pouca luz sobre a cova, escondida à sombra da igreja. Em qualquer outra ocasião, estes obstáculos teriam entristecido e agastado Gabriel Grub, mas ele, satisfeito por haver interrompido a canção do menino, não deu tino dos pequenos progressos que fazia, e, terminado o trabalho daquela noite, olhou para o fundo da cova com sinistra satisfação, cantarolando, enquanto apanhava as suas coisas.


Quartos bons, baratos, calmos

Pra defunto que nos peça:

Terra fria, uns sete palmos;

Pedra aos pés, pedra à cabeça;

Bom petisco para o bicho;

Relva em cima, barro aos lados:

Quartos feitos a capricho,

E em terrenos consagrados[1]


- Ho! ho! – riu-se Gabriel Grub, ao sentar-se sobre uma lousa lisa, que era o seu assento predileto; e sacou da garrafa de vime. – Um caixão de Natal! Um caixão de Natal. Ho! ho! ho!

- Ho! ho!ho! – repetiu uma voz, bem perto dele.

Gabriel deteve-se, meio assustado, no ato de erguer aos lábios a garrafa de vime; e circunvolveu os olhos. O fundo do túmulo mais antigo que o cercava não estava mais tranqüilo e silencioso do que o cemitério à pálida luz da lua.


Continua...


[1] Tradução de K.D’Avelar (N. do T)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A HISTÓRIA DOS DUENDES QUE ROUBARAM O COVEIRO


Do livro As Aventuras do Sr. Pickwick, de Charles Dickens

Tradução: Otávio Mendes Cajado



Numa velha cidade abacial deste condado, há muito, muito tempo – há tanto tempo que a história deve ser verdadeira, pois nela acreditavam implicitamente os nossos bisavós – havia um tal de Gabriel Grub, que acumulava as funções de coveiro e sacristão. De ser um homem coveiro e viver constantemente cercado dos emblemas da morte, não segue, de maneira alguma, que tenha de ser uma criatura taciturna e melancólica; os agentes funerários são os sujeitos mais alegres do mundo; e eu já tive, de uma feita, a honra de privar com um deles, que era, em sua vida particular, e fora dos seus misteres, o mais engraçado e jovial dos indivíduos, capazes de cantar uma canção báquica, sem o menor tropeço de memória, ou de esvaziar o conteúdo de um bom copázio sem se deter para tomar fôlego. Mas, a despeito de todos esses precedentes, Gabriel Grub, pelo contrário, era um sujeito rabugento, de mau gênio, intratável – um homem taciturno e solitário, que não se dava com ninguém a não ser consigo mesmo e com uma velha garrafa de vime, acomodada num bolso grande do colete – e que olhava para todos os rostos alegres que passavam por ele com tão medonha carranca, maldosa e mal-humorada, que ninguém podia vê-la sem sentir arrepios.


Um pouco antes do crepúsculo, numa véspera de Natal, Gabriel pôs a pá sobre o ombro, acendeu a lanterna e dirigiu-se para o velho cemitério; pois tocava-lhe acabar uma cova para a manhã seguinte e, como estivesse muito abatido, imaginou que o trabalho poderia reanimá-lo, se a ele se metesse incontinenti. Ao seguir o seu caminho, pela velha rua, viu brilhar a alegre claridade dos lares crepitantes, através das janelas antigas, e ouviu risos e gritos de júbilo dos que se haviam reunido à volta deles; observou os ativos aprestos para a festa do dia seguinte, e sentiu muitos aromas saborosos que deles resultavam e se evolavam, em nuvens, pela janela das cozinhas. Tudo isto era fel e absinto para o coração de Gabriel Grub; e quando grupos de crianças saiam aos saltos das casas e, aos saltos, atravessavam as ruas, encontrando-se, antes de baterem à porta fronteira, com meia dúzia de marotinhos de cabelos encaracolados, agrupados em torno deles enquanto subiam para passar a noite em seus folguedos de Natal, Gabriel sorria sinistro, e segurava com mais força o cabo da pá ao pensar no sarampo, na difteria, na tosse comprida e em muitas outras fontes semelhantes de consolação.


Neste feliz estado de espírito, pôs-se a caminhar, retribuindo com um grunhido breve e triste as bem-humoradas saudações dos vizinhos que, de vez em quando, encontrava, até penetrar a escura azinhaga que conduzia ao cemitério.


Continua...


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Eltão Fratuci

Ouvir um tocador de blues é sempre demais para o meu coração...

http://www.myspace.com/eltonfratucci

domingo, 29 de novembro de 2009

O FAVORITO DO REI

Dois marroquinos sentados no campo
(Eugene Delacroix)


Agora que o sol se pôs, não quero namorar a lua. Vesti-me de azul e afrontei o mar. A arrogância rogou-me piedade, mas eu a calquei sob os pés, como São Jorge ao dragão. Um trapo de gente, que pensa ser o que não é; ser inacabado, desavisado, retirante do mundo. Há um não-lugar comum, invisível aos olhos, mas, não tão distante do coração, aonde o falcão favorito do rei costuma fazer seu ninho. De lá, ele sai, ao alvorecer, mal ouve o chamado do soberano, a pousar no seu pulso. O vento dança alegre, ao redor dos gentis companheiros e o medo se esvai, nas asas puras do amor e da liberdade. Sombras vêm e vão sobre esta terra, enquanto uma rosa procura o calor do sol em plena manhã de outono. Por que sempre me entristeço? Mesmo na felicidade sinto esse aperto no peito. Seria bom que uma chuva torrencial, vinda não sei de onde, molhasse o meu rosto, levando as lágrimas, desfazendo as sombras que me assombram, e, assim, me curasse o espírito, ou, então, seria bom que uma nuvem passageira me arrebatasse para outro espaço, outra dimensão. Dói falar e se expor demais. Às vezes a vontade é de calar e tudo abandonar; pois, às vezes, as palavras soam-me completamente inúteis, absurdamente vãs. Há muito escolhi o caminho do silêncio, mas ainda falo demais e por isso peço que me perdoem, uma vez que não desejo o sono de ninguém perturbar com meus discursos desordenados ou minhas estranhas e longas histórias; chegará o tempo em que deixarei de contá-las... Mas, por ora, não nos enganemos e despertemos o quanto antes das suaves, vis e belas mentiras, que, cotidianamente, pomos a nos contar; entendamos nós de uma vez, que, um dia, tudo o que agora nos enche o olhar, desaparecerá como um límpido/terrível/doce sonho. Mas, quando isso acontecer, certamente será primavera e tornaremos a despertar nos braços do amigo/esposo/amante, lá, no não-lugar comum, invisível aos olhos, mas não tão distante do coração e, perplexo, diante deste sol brilhante, perceberemos, finalmente, que éramos nós, tu e eu, os favoritos do rei.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

POUCAS PALAVRAS


por Jack Tequila


O que não se pode deixar acontecer...
Os dias passam devagar, ficam as poucas palavras que ecoam em minha mente, uma afiada adaga a estripar meu coração. Sinto-me desolado, um ente sem si próprio, a existência, de fato, é uma pura piada, morro todos os dias e, mesmo assim, insisto em continuar.

Há dias que prefiro não lutar. Há dias em que quero sangue em minhas mãos. Há dias que amo mais que os outros, mas, ainda não houve um só dia em que não pensasse em você.
Sigo perdido, com a barba mal feita, com o calor em meus ombros, caminho entre uma lágrima ou duas, por Deus nunca me senti tão só, mas não caio em um rompante, nem raios ou trovões, infelizmente... Em pé continuo, como um monumento, uma rocha desafiando a fúria da tempestade, na escuridão me desespero e, como uma criança, no fim do dia, eis que surge um pouco da verdade que mantenho apenas para mim. O que penso ou que deixo de pensar, pequenos sonhos deformados, prefiro vender a alma, prefiro cobrar por litro de sangue desperdiçado, prefiro gastar meus dias sem sentido em busca de um sentido, prefiro me perder por um bom motivo. Ao final, simplesmente, não consigo mudar, porque sei que, no fundo, nada mudou.

A terra sopra sua poeira em minha velha jaqueta jeans e o sereno, como um veneno da madrugada, entorpece meus sentidos, e, ainda assim tenho tempo de cair atirando, mesmo assim...


Há se você soubesse que não morreria por amor, mas morreria por você. Há se você soubesse que não dormiria de tanta paixão, mas descansaria por você. Se saber alguma coisa, mudasse alguma coisa! Mais nada importa, nem um tostão queimado, nem as dores em meu peito, nem meus punhos arranhados, nem meus cigarros queimados, pois sei que tudo isso seria menos doloroso se apenas tivesse você em meus braços.

Se seu perfume não fosse tão forte... Se sua pele não fosse tão macia... Se seus cabelos não fossem tão acolhedores... Se seus olhos não refletissem a tristeza dos meus... Se sua alma não fosse tudo aquilo que sempre quis... Quem sabe então, não poderia continuar em frente, quem sabe deixaria me levar rumo ao mar, sem nada, em busca do nada, quem sabe eu não seria quem sou, quem sabe seria eu sem mim...

Quando minha hora chegar, de tudo que for pensar, de todas as letras que tive que expurgar, bem sei no que pensar, no final sei muito bem em quem pensar.
Poucas palavras são suficientes poucas palavras... E mesmo assim teimo a esperar... Apenas para magoar-me um pouco mais, como pular de um precipício sabendo que não se vai voar, mas mesmo assim por um tempo flutuar.

Hoje, amanhã, ontem, um dia no espaço-tempo, o tempo não cura nada, apenas nos ensina a fingir que não dói.

Fito os postes, olho as poucas estrelas no céu metropolitano, parte de mim o tempo esquecerá, parte de mim você irá deixar para trás, parte de nós será melhor esquecer, queria ter apenas a lembrança da parte daquilo que não vivemos, enquanto já tenho lembranças demais de você, sei que não é suficiente.

Uma carta não escrita, um telefonema não atendido, uma mensagem não enviada, quem sabe então o que seria de nós, sei bem o que foi de mim.

Poucas palavras são suficientes... poucas palavras...



www.jakctequilaescritos.blogspot.com

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

CALMARIA




As sombras do jardim entraram pela casa

A claridade luminosa do dia perdeu-se dentro da escuridão

Perderam-se também minhas ilusões, minhas canções, minhas paixões

Sobra-me agora apenas o tédio de uma longa espera


No começo da noite vou à procura de um refúgio

Estou sempre à procura de um refúgio

E desfruto as caricias do vento, os anseios do mar, tão longe

Mas não há tormentos, não há sonhos


De manhã, sabiá me chama pousado no varal de roupa

Depois voa, atrás de outros céus

Quisera eu também poder voar

Soletrar teu nome com pedaços de nuvem

domingo, 22 de novembro de 2009


Ruínas de uma velha cidade

Onde pairam os espíritos dos mortos

Sobre feias desgastadas sepulturas

Estendem-se ervas daninhas

Eu, único ser vivente dessa cidade fantasma

Procuro dentre os escombros algo que me valha

Algo que me devolva ao que sou

Dorme a essência no mais completo escuro

Aos pés de desajeitado muro da sombria urbe

Dói-me a solitária jornada por caminhos retos e ignorados

O cajado me sustenta

Meu abrigo é meu manto esfarrapado

Meu tesouro a cuia de mendigo

Vou em busca da fonte do jovem “Verdejante”

Lugar inalcançável onde o sol e a lua descansam