Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

O PARAÍSO DA CANÇÃO


Do livro Histórias da Tradição Sufi; Edições Dervish


Ahangar era um poderoso forjador de espadas, que vivia em um dos vales ao oeste do Afeganistão.

Em tempo de paz, fazia arados de ferro, ferrava animais, mas, sobretudo, além disso, o que mais realmente gostava de fazer, era cantar. E como cantava Ahangar! Suas canções eram conhecidas por nomes diferentes em várias partes da Ásia Central e eram muito apreciadas por todos os habitantes dos vales. Vinham eles dos bosques de nogueiras gigantes, das montanhas nevadas do Indu-Kushu, de Qatagham, Badakshan, Khanabad, Kunar, Herat ou Paghman somente para ouvir suas canções, mas, principalmente para ouvir a canção das canções: a canção do Vale do Paraíso, que tinha o poder de fascinar a quem quer que a escutasse. A melodia era estranha, e contava uma história mais estranha ainda, tão estranha que as pessoas sentiam que conheciam o remoto Vale do Paraíso sobre o qual cantava o forjador.

Quando não estava de bom-humor e lhe pediam que a cantasse, negava-se veementemente a fazê-lo. Às vezes lhe perguntavam se o vale realmente existia, e, Ahangar só dizia: "O vale da canção é tão real quanto a realidade pode ser".

No que, então, retrucavam: "Como podes saber? Já estiveste lá?".

Mas, tanto para Ahangar como para quem a escutava, o vale da canção era real, tão real quanto podia ser a realidade.

Aisha, uma jovem do lugar, amada por Ahangar, duvidava da existência deste vale e o mesmo acontecia a Hasan, pretensioso e temido esgrimista, que jurava que, um dia, se casaria com Aisha e, desse modo, não pedia um oportunidade de rir e debochar do forjador.

Certa vez, quando todos do povoado estavam sentados, em silêncio, ao redor de Ahangar, depois dele ter cantado a sua história, Hasan assim falou: "Se acreditas que esse vale é tão real e fica, como dizes, nas montanhas longínquas de Sangan, onde nasceu a neblina azul, por que não tratas de o encontrá-lo?".

"Sei apenas que isso não seria correto". Respondeu Ahangar.

"Tu sabes o que te convêm saber, mas não sabes o que não queres saber!" Disse Hasan, em alto e bom som. "Agora, amigo..." continuou o esgrimista "desafio-te. Desejas Aisha, mas ela não confia em ti. Ela não crê na existência desse vale absurdo. Jamais poderão casar-se, pois quando falta a confiança entre marido e mulher, a felicidade torna-se impossível e daí advêm todos os tipos de desgraças".

"Esperas, então, que eu vá em busca do vale?"

"Sim" Disse Hasan e também todos os presentes.

"Se eu for e voltar a salvo Aisha concordará em se casar comigo?"

"Sim" foi a resposta murmurada de Aisha.

Ahangar pegou umas amoras secas e um pedaço de pão também seco, e correu em direção às montanhas distantes onde nascia a nascia a neblina azul.

Continua...

Domingo, 12 de Julho de 2009

UM RAIO DE SOL NUM JARDIM...


Uma orquídea crescia no tronco da árvore mais alta de um jardim... Um jardim sombrio, um tanto estranho, de pouco encanto... Em meio à profusão de folhas, frutos, flores, sementes e raízes espalhadas por todo o chão, certamente não se perceberia a beleza de sua presença, se não fosse a presteza de um raio de sol brincalhão que, certa vez, na graça de um dia incomum, em que o astro-rei, luzia poderoso, soberano em todo o seu esplendor, caíra, perdido, por entre as pétalas macias da bela flor, lá adormecendo, em puro sossego.

Na manhã seguinte, em vez do sol, veio a chuva... E o raiozinho, assim tão bruscamente despertado, fugiu assustado, desaparecendo, num instante por detrás das cinzentas e carregadas nuvens... mas, na pressa, eis que sacudiu de si um halo de luz, que, magicamente, se estendeu sobre o jardim sombrio; halo de límpida e dourada luz, que a violência da chuva não ousou levar.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA















Picasso - Mulher de Costas



LIDIA


Dona Lídia era a calma em pessoa e, por demais católica, temente a Deus, a exemplo de São Francisco, resignava-se diante das situações que não conseguia mudar, o que equivale a dizer uma vida atribulada, seis filhos e um marido insensível. Mas, não havia nesse mundo nada que a abalasse, D. Lídia em vez de Lídia, devia chamar-se “Amélia, a mulher de verdade” que nem a canção do Ataulfo Alves e letra de Mário Lago... marido chegava bêbado, xingando Deus e o mundo, lá estava ela, a postos, pronta a tirar-lhe a roupa, as meias, os sapatos e ainda colocá-lo na cama, limpa e arrumada, ao mesmo tempo, balbuciando uma oração, a pedir perdão por ele, seu tosco marido, por citar o Seu Santo Nome em vão... Se as crianças aprontavam, Dona Lídia sorria ou fingia-se de brava a impor respeito... O marido, mau-humorado até a unha do dedão do pé, que detestava ser perturbado, levantava do seu sossego, brigava, e até metia a peia nas coitadinhas... mas ela, Dona Lidia, não... não brigava com ele... nem com as crianças, nem com ninguém! Esperava com paciência a tempestade dos humores passar... não se intrometia nos castigos impostos aos filhos, há não ser ser em última instância.

Aos domingos, nunca faltava à missa e quando voltava para casa, comungada de alma lavada, e livre dos pecados, absolvidos na confissão, estava pronta para qualquer situação. Era inconcebível para quem estava do lado de fora da vida de Dona Lídia, compreender tanta resignação / mortificação. Mulher bonita ainda, de cabelos negríssimos custava-se a entender porque agüentava aquela vida. Ela sorria, brincava, cantava, mas de uma coisa todos tinham certeza; ela não era feliz... não poderia ou então não sabia o que era felicidade... E o que vem a ser essa tal felicidade? De uma forma ou de outra, fato é que essa mulher que se dizia feliz, apaixonada por seu marido, sua casa e seus filhos, resignada, católica praticante, temente a Deus e submissa à Sua vontade, adoeceu gravemente e nenhum médico conseguiu fazer um diagnóstico correto. Sofria de uma doença degenerativa que a fazia arrastar-se, dependendo da caridade dos filhos ou dos vizinhos para poder se alimentar... O marido já nem se dava ao trabalho, agora mais do que nunca, não parava em casa, e, nem assim, acreditem ou não, se ouviu ela o maldizer, ou levantar a voz para reclamar como injusta sua difícil situação. . . Foi-se D. Lidia, foi-se o marido, foi-se uma das filhas, que, matou-se num domingo de sol... foi-se o tempo desta história? Dona Lídia morreu jovem, se foi mártir, santa, acomodada, condicionada, feliz ou infeliz, eu não o sei dizer e ouso pensar que talvez nem a própria Dona Lídia o soubesse... De-lhe o céu a desejada recompensa, seja ele o seu mais justo e fiel juiz.


Terça-feira, 23 de Junho de 2009

SEMA MES

Eros e Psiquê



Nicolas Sagrav




Dança a luz
Dança
Levando o passado
Cansa
Velhas ironias
Os mesmos temores

Vem verde e macio
Alcança
Alem dos meus sonhos
Criança
Teimo em teimar
Em
ser o que sempre sorri

Mas termina a noite
E me vejo sozinho
Novamente sem ar

O horizonte se fecha
E a luz rarefeita
Vem me espreitar

Mas termina a noite
E eu novamente
A te esperar

Numa noite vazia
Num sorriso sem cor
Um céu sem luar



Domingo, 21 de Junho de 2009

O CAVALEIRO NEGRO PARTE FINAL

Leite de Leoa parte final

O Cavaleiro Negro; que trazia a cabeça o manto de sua majestade em forma de turbante; no dedo, o anel de rubi e nas costas, a espada real, desmontou e aproximou-se da cama.

“Eis aqui o leite de leoa da ´Terra do Não Ser´”.

“Porém, cavaleiro, chegaste tarde demais”. Disseram todos a uma só voz.

“Meus genros, aqui presentes” disse o rei, “já trouxeram o leite, mas, que na verdade, não me fez bem algum”.

Disse Ibn Haidar: “O leite que trouxeram não vos fez bem porque me foi roubado, uma vez que fui eu que o consegui e, portanto, por causa disso, todas as virtudes especiais que possuía se evaporaram já que não se pode obter benefícios de algo conseguido mediante o roubo. Aqui, ó rei, está o terceiro frasco. Toma um pouco”.

Assim que o rei acabou de sorver o leite, ergueu-se do leito, completamente curado.

“De onde vens cavaleiro...? Quem és...? E por quê tens me ajudado?”.

Disse então, o misterioso guerreiro: “As três perguntas, são, na realidade, apenas uma; desse modo, a resposta dada a qualquer uma delas, responderá as outras”.

O rei não compreendeu, pareceu mesmo estar bastante confuso.

“Muito bem”, continuou Ibn Haidar, “Eu sou o homem que vive no estábulo, o que significa que sou teu genro e é por isso que te ajudo”.

E foi dessa maneira que o misterioso “Cavaleiro Negro do Céu” deu-se enfim a conhecer, e com o passar do tempo, veio a herdar a coroa real, quando o rei foi levado, na plenitude do tempo; para a sua mais longa viagem.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

O CAVALEIRO NEGRO PARTE IV


Leite de Leoa Parte III


Durante meses, nada de maior importância aconteceu na vida de Ibn Haidar até o rei adoecer... aí, foi como se sobre o mundo descesse um pesado véu de escuridão.

Em todo o reino, as pessoas iam pelas ruas, tristes e chorosas, como se já estivessem de luto.

Os animais guardaram silêncio; as árvores murcharam e, inclusive o sol, parecia fraquejar. Nenhum doutor, em toda a face da terra, pode descobrir o que afligia o soberano, até que o mais sábio dentre eles, o doutor entre os doutores, assim se pronunciou: “A enfermidade do rei só poderá ser curada com uma dose do leite de leoa trazido da ‘Terra do Não Ser’”.

Imediatamente, os dois genros, do rei se ofereceram de bom grado para a missão e saíram cavalgando do palácio, plenamente decididos a conquistarem a glória de salvar ao seu Senhor e Mestre.

Depois de muitos dias, chegaram a uma encruzilhada aonde se sentava um homem sábio.

O caminho dividia-se em três direções e os dois jovens valentes foram incapazes de se decidirem por qual deles seguir. Explicaram-se ao homem sábio que lhes disse o seguinte: “Estes três caminhos possuem nome. O primeiro se chama ‘O Caminho Daqueles que agem como Nós, o Vinculo de Sangue’; O segundo Caminho é ‘O Caminho Daqueles que pensam e agem como Nós, o Vinculo de Decisão’; e o terceiro caminho é ‘O Caminho da Verdade’”.

O primeiro genro do rei disse: “Tomarei o Caminho de Sangue”, posto que, por causa do parentesco com sua Majestade é que estou aqui”. E em seguida, esporeando o cavalo seguiu o seu destino através do ‘Caminho de Sangue’.

O segundo genro do rei disse: “Tomarei o ‘Caminho da Decisão’, posto que ser decidido faz parte de meu caráter”. E então, esporeando o cavalo, partiu pelo ‘Caminho da Decisão’.

Não demorou muito, o primeiro jovem chegou diante de um homem que se encontrava a entrada de uma cidade e perguntou que lugar era aquele em que viera parar.

“Vieste parar na entrada da ‘Terra do Não Ser’, respondeu o homem “mas daqui não podes passar até que tenhas jogado comigo uma partida de xadrez”.

Assim, os dois se sentaram e jogaram, e o jovem genro do rei, perdeu. Perdeu seu cavalo; a armadura; o dinheiro e finalmente, a liberdade. O homem o fez então entrar na cidade e o vendeu como escravo a um comerciante de carne assada e lá ele ficou por muito tempo.

Ao segundo genro do rei aconteceu à mesma coisa, sendo este, entretanto, vendido como escravo a um confeiteiro.

Após alguns meses, sem qualquer sinal de retorno dos dois jovens cavaleiros, Ibn Haidar sentiu que a pedra esquentava em seu bolso e fazendo como sempre quando isto acontecia, viu surgir a sua frente a égua negra: “Enfim, é chegada a hora... Sobe em mim”.

A égua o levou pelos mesmos caminhos que os dois homens haviam percorrido antes, até que chegaram ao lugar onde se sentava o homem sábio e o cavaleiro negro contou-lhe a sua missão.

O homem ouviu, tal como ouvira os dois outros viajantes, e também lhe deu a opção de escolher entre os três caminhos e Ibn Haidar disse imediatamente: “Escolho o ‘Caminho da Verdade’”.

Antes, porém que desaparecesse caminho adentro foi advertido pelo sábio: “Escolhestes corretamente. Continua o teu caminho, mas, assim que chegares ao jogador de xadrez; em vez de sentar-te e jogar com ele, desafia-o para um combate”.

Ibn Haidar seguiu seu caminho e quando encontrou o jogador de xadrez à porta de entrada da cidade e este pediu-lhe que jogasse com ele uma partida, o cavaleiro negro desembainhou sua espada e gritou seu grito de guerra: “Pela verdade e não por enganos. Enfrenta a realidade, não batalhas de mentiras. Contempla diante de ti “o filho do leão”

O jogador de xadrez acabou por render-se sem luta e contou a Ibn Haidar o que havia se passado aos outros dois seus cunhados.

O homem conduziu a Ibn Haidar pela cidade e mostrou-lhe aonde mantinham presas as leoas e o jovem Cavaleiro Negro, depois de burlar aos guardas e domar as feras; encheu três frascos de leite, pondo dois deles em cada um dos lados do alforje, enquanto o terceiro o guardou debaixo de seu turbante, por precaução contra qualquer perda ou dano, que os frascos, por via das dúvidas, pudessem vir a sofrer. Foi então ao mestre confeiteiro e ao vendedor de carne assada e pagou pela liberdade dos cunhados que, por causa de sua vestimenta de cavaleiro, não o reconheceram. Nessa noite, entretanto, ambos, que sabiam que o estranho cavaleiro havia conseguido o leite das leoas, roubaram-lhe dois dos frascos e fugiram da cidade encobertos pelo manto protetor das sombras.

Ibn Haidar deu-lhes tempo para que alcançassem o palácio e só então, montou a égua mágica, que mais rápida que uma flecha, o levou aos aposentos do rei enfermo aonde se encontravam reunidos os doutores, os cortesãos, assim como os dois jovens genros do rei que muito se admiraram em vê-lo ali.


Continua...

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

O CAVALEIRO NEGRO PARTE III



Os guerreiros regressaram a capital do reino, contando a todos os feitos do “Negro Cavaleiro do Céu”, que tão corajosamente os havia salvado e o rei, por sua vez, com o olhar distante, apenas repetia, de vez em quando: “Ah, se eu tivesse um genro como esse...”

Todavia, Ibn Haidar, ainda que fosse esposo de uma princesa, continuou sendo objeto de curiosidade; tratado como uma nulidade e constantemente alvo de zombarias e brincadeiras mal intencionadas.

Alguns meses se passaram e, um dia, enquanto o jovem estava sentado no estábulo, novamente sentiu em seu bolso a pedra esquentar, de modo que a retirou, e, sem esquecer de pensar na pequena moeda, a esfregou em sua mão direita. De pronto, a égua azeviche surgiu a sua frente: “Sobe em meu dorso. Temos um trabalho a fazer”.

A égua azeviche conduziu-o ao palácio real entrando por janela que ficava sempre aberta; justo a tempo de Ibn Haidar pegar e matar a uma serpente que estava a ponto de picar o soberano.

Nesse momento, o rei despertou e viu o que tinha acontecido, mas, mesmo na escuridão, sem poder distinguir as feições de quem o havia salvado, tirou de seu dedo um valiosíssimo anel e lhe entregou, dizendo: “Quem quer que sejas, devo-te a vida. Este anel é um presente para ti”.

Ibn Haidar pegou o anel e a égua, voando, levou-o de volta ao estábulo.

Durante vários meses, sua vida continuou a mesma, até que a pedra o chamou, fazendo a égua aparecer a sua frente: “Põe a roupa e o turbante que estão em meu alforje” disse-lhe ela, “porque temos um trabalho a fazer”.

O animal, desta vez, o conduziu a sala do trono, aonde um homem acabava de ser condenado à morte. O carrasco já havia estendido seu tapete de pele para recolher o sangue e, de espada levantada, somente esperava a um sinal real. Mas, tudo e todos se quedaram paralisados ante a visão da égua azeviche trazendo em seu dorso, “O Negro Cavaleiro do Céu”.

Ibn Haidar esperou por uns momentos e súbito, começa um tumulto na sala do trono com a chegada de um homem que trazia consigo provas de que o condenado era, na verdade, inocente. Não houve uma só pessoa em toda a corte que não quedasse mudo de tanto espanto, e o rei então, disse a misteriosa aparição: “Bênçãos recaiam sobre aquele que interveio a favor da justiça! Toma... eis minha espada... um presente para ti”.

Sem dizer nada, Ibn Haidar recebeu a espada e a égua elevou-se nos ares, de regresso ao estábulo.


Continua...