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domingo, 23 de julho de 2023

DA NECESSIDADE À BRUTALIDADE

O ser humano é o maior predador da terra, claro, também é o grande articulador de causas maravilhosas e boas ideias. Mas, se depender da parte do ser humano predador, iremos pro fim sem direito a recomeço. A barbárie humana é chocante. Nos países da Ásia, a culinária exótica atrai todo tipo de gente, em busca de experiências sensoriais. Lá é comum, o comércio de carne de gatos, cachorros, morcegos gigantes e etc. 


Vi um filme outro dia na Netflix, FOME DE SUCESSO, que se passa na Tailândia, sobre uma moça que almeja chegar ao patamar de "chef", reconhecida em todo o país. Ela obtêm uma chance, porém, passa por tão poucas e boas, que o fim é uma volta ao começo. Esse filme, fixa bem nas filmagens, o rosto de quem come, as contrações, as caras e bocas que fazem, ao sentir o sabor de um prato novo. Cada banquete contratado, é uma espécie de competição entre os "chefs" concorrentes e, quanto ao telespectador, observar a comilança, enche a alma de agonia, quer dizer, ao menos a minha. Achei um pavor. Mesmo com as melhores, maquiagens e roupas, não passavam de animais, reis do topo da cadeia alimentar, se deliciando com os exageros preparados para o repasto noturno. 

Meu sonho é parar de comer carne. Como bem menos hoje em dia, observar um churrasco já me causa enjoo. Depois da pandemia, meu paladar deu uma surtada, graças ao Covid, e meu apetite tornou-se de certa forma, caprichoso, portanto, o comer em demasia, dá-me uma sensação de que estou fazendo algo errado e assim como penso isso de mim, penso dos outros. O exagero no comer, causa-me dissabor.

Em países da Ásia em que é permitido o consumo de carnes de cães e gatos, já se acena a possibilidade, como acontece na Coreia do Sul, de acabarem com a prática. Na China, o escandaloso e grotesco Festival de Yuli, é combatido como algo ilegal pelo governo e pelas Ongs, onde ativistas da causa animal, chegam a ter até embates fisicos, para resgaterem animais que são roubados de seus donos, para serem abatidos a olhos vistos. Realmente um Festival de covardias e maldades. 


Na Indonésia, baixaram uma lei, em que fica proibida a venda de carne de cães e gatos para consumo, graças a Deus, mas, longe de mim, parecer ou ser hipócrita, é muito estranho se comer um ser que se trata muitas vezes, como amigo, companheiro, filho ou irmão. Sim.. eu sei.. as vaquinhas, ovelhas, vitelos, porquinhos e cordeiros, galos, galinhas, pombos e grande variedade de peixes e frutos do mar, do qual nos alimentamos, também não possuem o direito a nossa simpatia? Sim, possuem, por isso que penso que o ideal seria viver de luz, quem sabe assim o ser humano entraria em outra esfera de evolução, em outra espiral e deixaria de lado ao menos a malfadada brutalidade.  

A verdade é que vamos a passos lentos, mas temos conseguido ampliar a consciência em relação aos animais. Tem quem não entenda, que a interação, o convívio com os anjos de 4 patas ou duas asas, nos proporcionam bem-estar e proteção. Estamos aqui, para dividirmos a terra, nosso lar, também com eles e não só nos alimentarmos de sua fragilidade e inocência. Hoje, que percebo tão em voga, o canibalismo entre humanos, assusta-me a ideia de que sem mais nem menos, possamos virar a caça, a comida de um predador nas sombras, sempre à espreita.



sábado, 22 de julho de 2023

FOTOPINTURA: TÉCNICA FRANCESA, JEITINHO BRASILEIRO

 

Fotopintura: Minha mãe, aos 26 anos, 
imagem restaurada pelo artista, ilustrador 
Jean Okada.


A fotopintura é uma técnica francesa surgida em 1863, que consistia em usar a base fotográfica em baixo contraste, e assim reproduzia a imagem numa tela, claro, tudo feito a mão. O pai da invenção foi o fotógrafo francês André Adolphe Eugene Desderi, uma figura bastante popular de sua época. Essa técnica se espalhou pelo Brasil, principalmente pelo Nordeste brasileiro, tornando-se um meio de eternizar imagens de pessoas queridas e até de famílias inteiras. Tenho raízes nordestinas, por conta de pai e mãe, portanto ao menos um quadro desses tínhamos que ter. Um tempo atrás, algum familiar pegou o retrato e havia sobrado apenas umas cópias fotografadas através do vidro da moldura e minha mãe tinha muita vontade, de ela fosse restaurada mas ninguém deu jeito, até encontramos Jean Okada e o resultado é este… simplesmente maravilhoso; a imagem de minha mãe eternizada sem precisar de Inteligência Artificial. Tudo feito no velho esquema: mão, programa de computador e um hábil desenhista.


AQUECIMENTO GLOBAL, RESFRIAMENTO MORAL

Olá, como vai? Aceita um pouquinho de calor neste novo amanhecer?!



Estudos dizem que aquecimento global está encolhendo o cérebro humano ou seja a humanidade está emburrecendo. Daqui a pouco, a inteligência que já é rara entre nós, praticamente deixará de existir.



TICO E TECO, UMA FÁBULA 

Tico e Teco viviam em guerra, a atrapalharem-se mutuamente pelo uso do espaço que deveria ser comunitário. Mexe aqui, enterra ali, desenterra alá, corre pra acolá. Era assim todos os dias, todas as estações. Nem percebiam as mudanças que se sucediam após cada batalha descabida pela posse do pequeno espaço e como também isso impactava a vida de todos ao redor.

Bom, enfim, um dia, após uma violenta tempestade verão, com a luz do sol inclemente a passear, sobre tudo perceberam o caos que haviam provocado. Não era apenas o efeito da natureza naquilo tudo, havia na verdade, a ação de suas patinhas sujas de esquilos briguentos, preguiçosos e relapsos, que de tanto mexer onde deviam e não deviam, em nome do desgaste, da mesquinharia e da ambição, encontraram o jardim desabitado, com a grama ressecada, pequenas árvores tombadas, o riacho poluído, cheio de galhos, folhas e outros detritos… e, para coroar o desacerto final, todas as sementes de nozes que tantas vezes cairam em abundância das altivas nogueiras, encontravam-se jogadas, alienadas, e completamente encolhidas e ressecadas. 

Tico e Teco entreolharam-se espantados e em vez de unirem-se para a reconstrução, entraram em nova discussão a saber quem era o culpado do quê, mas, desta vez, deu curto-circuito e a raiva era tanta, que ambos caíram duros no chão. O vento veio, passou por cima deles, assobiou e se foi.










 




SÓ, MAS NÃO DESACOMPANHADA

Com o aumento da violência, especialmente contra os mais vulneráveis, tem sido difícil ficar pelas ruas até mais tarde, e foi pensando nisso, que a Eletromidia, desenvolveu esse projeto gentil e extremamente genial.



sexta-feira, 21 de julho de 2023

TONY BENNETT

 


Tony Bennett


Tony Bennett, pra mim, tem gosto de infância e sessão da tarde, do tempo em que era feliz, com meu pai e avós ainda vivos, tios jovens e mãe pragmática. Tem gosto de aconchego, casa arrumada e merenda da tarde. Dias ensolarados, tardes calmas e noites venturosas. Tony Bennett tem gosto de passado, presente e futuro,tudo junto, tem gosto de um outono sem percalços, sobre o qual ninguém fala ou sequer pensa, mas que um dia vem, com toda certeza.. Tony Bennett, seu nome é SER-EN-IDADE. Descanse em paz.   

Lovecraft

Muita leitura de Lovecraft, dá nisso. Para mim, o mundo anda muito Lovecraftiano.

 

NOVOS/VELHOS CONCEITOS SOBRE ARTE


Nos últimos anos, tenho tentado me expressar além da escrita, pois faz tempo que tenho me sentido aprisionada diante de todas as (im) possibilidades apresentadas. Tinha até ficado feliz com os resultados, que aplicativos e plataformas de NFTs poderiam proporcionar, ampliando a visão de mundo e conceito sobre arte. Como cidadã brasileira, um país que sofreu um grave retrocesso com um desgoverno proporcionado por um palhaço metido a ditador, sofri, como tantos outros de nós, ao ver nossa cultura, submergida em um mar de lama, porquê, imagine, se tínhamos um desgoverno, que não se preocupava com o mínimo, como iria querer que o povo se expressasse através da arte? A verdade é que não só em nosso país, mas, no mundo todo, sinto abrirem-se e se manifestarem, novas tendências e necessidades de pessoas que buscam um caminho individual e coĺetivo ao mesmo tempo e eu estou entre elas. As ferramentas estão aí, ao nosso dispor, mas é preciso saber onde procurá-las. Não encontrei muitas, infelizmente, nessa busca quase insana justamente para manter-me sã. Nada mais libertador do que a gente pensar, criar, inovar e sobretudo, poder compartilhar o conhecimento, contudo, tenho achado bastante difícil me organizar nessa desorganização.

 


NAVEGAR É PRECISO, VIVER NEM SEMPRE



https://youtu.be/dco5i_pzNns


Eu penso muito sobre a morte e sobre a vida, mas penso muito mais em como a morte muitas vezes chega assim, de surpresa, sem fazer alarde, sem se fazer anunciar. A morte está sempre ao nosso lado, todo dia, mas preferimos não pensar nela e seguimos assim pelo mundo meio que desatento de tudo. Os perigos estão sempre à espreita, contudo, se formos mergulhar assim, de cabeça, em pensamentos mórbidos, deixamos de viver. Existe um ditado dos povos originários americanos, que diz: "Hoje é um bom dia para morrer" e posso acrescentar ou um bom dia para viver; e como diz também o cantor Gilberto Gil: "Se a morte faz parte da vida e se vale a pena viver, então, morrer vale a pena" e como cereja do bolo, a frase de um poema de Fernando Pessoa: "Navegar é preciso, viver não é preciso". Talvez, foi pensando assim, que quatro Nigerianos entraram furtivamente no pequeno compartimento que compõem a hélice de um navio, e desse modo lançaram-se ao mar, sem equipamento, praticamente sem água e sem comida. À noite era fria de rachar e de dia, era um calor desgraçado. Os quatro refugiados resistiram entre 11 e 14 dias, e foram resgatados quando o navio chegou ao Brasil. Estavam com fome e desidratados, mas felizes por, enfim, pousarem os pés em terra firme e ficaram mais felizes ainda, ao saber que tinham vindo parar em terra brasilis. Uma aventura e tanto, que só quem é capaz de engendrar é quem não tem mais nada a perder.


https://globoplay.globo.com/v/11793908/


Um velejador australiano  por  sua vez e uma cadela chamada Bella, foram resgatados após mais de dois meses à deriva no mar. Cansado, Tim Shaddock, 54 anos, e a cadela, estavam bem de saúde. Tim, estava muito agradecido, mas sentiu-se solitário em alto mar e só não foi terrivelmente atingido pela solidão, porque tinha Bella consigo, uma cadela das ruas do México, que o seguiu até o barco, seguindo com ele mar afora. Animais são anjos de quatro patas, acho que a missão de Bella era cuidar de Tim por todo esse tempo, embora Tim, mesmo grato à Bella, a doou a um de seus resgatadores. Achou melhor não levá-la com ele para a Austrália. Não quero julgar, mas, não sei como ele conseguiu deixá-la para trás, contudo, acho que a missão de Bella em relação a ele, acabou ali, afinal, "viver não é preciso".  


Gustavo e Gabriel, haviam chegado um dia antes à Alagoas, com a família


Duas histórias com finais felizes, que poderiam ter terminado muito mal. A última que contarei a vocês, infelizmente acabou mal. Em Alagoas, em Maragogi, exatamente na costa de corais, na praia de Peroba, um pai, dois filhos e um sobrinho, faziam uma trilha perto da praia, quando uma onda os atingiu, arrastando-os ao mar. O pai dos meninos conseguiu salvar o sobrinho, mas não os dois filhos, que, nas buscas, foram encontrados abraçados. Tinham 11 e 16 anos. As pessoas costumam dizer... ah.. a vida é assim... é... a vida é assim, mas poderia não ser, contudo, só me resta alegrar ou entristecer, com aquilo que chamam de "desígnios de Deus". Como cantava Gal: "É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte". Atento e forte, quase nunca estamos e a morte, e não tememos a morte mais que tudo, acho que a ideia ou a noção do que seja a morte, nos passa desapercebida, como se fossemos, de certa forma inatingíveis, eternos,  maiores que o tempo e contamos com a sorte para tudo... e daquele jeito, só mais um pouquinho e conseguiremos, mas a boa sorte, tem prazo de validade que não condiz com nossa vontade.                



quinta-feira, 20 de julho de 2023

DO CORAÇÃO DA FLORESTA


Faz tempo que não ouço mais falar da transição para a web.3. Confesso! Sim, sou ou era, não sei, uma entusiasta da web.3 e suas tentativas de uma internet mais democrática e descentralizada. Aqui, do coração da Floresta Amazônica, escrevo. Daqui desse “paraíso” ou “inferno” verde, tento me manter numa realidade para além do normal ou virtual. A necessidade de manter a floresta em pé, viva, nos pede medidas urgentes e, por muitas vezes difíceis de se implantar. Hoje, a floresta sofre, assim como todos os povos originários, seus verdadeiros representantes, o resultado do desmatamento e da exploração ilegal do ouro.. Na tarefa de conscientizar, eu escrevo e reescrevo… temos, para nos ajudar, nossos mitos, que assim como a floresta, lutam diariamente em busca de preservação. A cidade onde moro, Manaus, é um dos destinos turísticos mais cobiçados no momento, então, é preciso entender que, quem aqui chegar é mais um a se engajar nessa causa ecológica e humanitária. 

Para além do metaverso, das IA, dos bitcoins, NFTs, temos um mundo material, que se pode tocar e que sem o qual, não haveria o virtual. Mas, enquanto a tecnologia avança, o pensamento se cristaliza ou até recrudesce para o que há de mais negativo. Agora, você deve se perguntar, por que alguém tão preocupada com o meio ambiente, é uma entusiasta de blockchains, tokens, criptomoedas, que, afinal de contas, ainda usa de meios que vão totalmente ao desencontro do que se propõe as questões ecológicas? 

Bom… direi eu que sou uma entusiasta das propostas levantadas pela web.3, que busca formas e maneiras de se adequar ao futuro com todos os problemas que se nos apontam. Acho que, mesmo sendo leiga no assunto, mas não ignorante, uma vez chegados aqui, não temos como retroceder…. o seguir adiante, porém, nos pede mais comprometimento com a realidade do lado de fora do virtual que nos envolve. Percebo a resistência em torno da web.3, porque, eu acredito, que possa ser transformadora para o lado do bem. É tempo de se encontrar soluções e não socá-las embaixo de um tapete, onde só quem tem muito pode pisar. Não quero me alongar, não é esta a minha intenção. Assim como a web.3 procura se manifestar, a tatear ainda no escuro, estou eu, contudo, mesmo não sendo uma expert no assunto, percebo através da névoa, um norte, um porto seguro, além de qualquer contestação. 


quarta-feira, 19 de julho de 2023

ANNABEL LEE

 




Annabel Lee

Edgar Allan Poe

Tradução: Fernando Pessoa.



Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.



DE VOLTA OUTRA VEZ




Apenas um pássaro, procurando onde pousar. Voltei ao meu blog, pois tenho sentido a necessidade de expandir meus textos, sem a regra de ter que me submeter a contagem de linhas. Gosto de falar e dar opinião, então, mesmo que alcance um blog hoje em dia, deixe a desejar, pro meu caso, penso ser melhor. Quem sabe ao conseguir gerar um pouco mais de tráfego para o blog, eu possa gerar alguma receita. Sim, porque, eu gosto mesmo é de escrever. E gostaria de viver disso, porém, isso é algo que não só parece difícil, mas também quase impossível. Quem sabe depois, possa colocar um botão de doação? ou não. Veremos! Já participei de blogs para escritores, mas escritores em geral costumam ser muito egocêntricos, quase incapazes de olhar um companheiro com bons olhos, assim, desisti de várias plataformas e redes sociais, que,  enfim, só servem para dar visibilidade ao que é completamente inútil  Li ontem, sobre  um "mendigo" indiano, que ficou milionário só pedindo esmola. Ele ainda se dedica à mendicância, embora os filhos, já crescidos, peçam para ele sair dessa vida. Eu fico pensando aqui, com meus botões, como conseguem, porque eu escrevo, mas não consigo que me paguem um café nas redes sociais. Hoje em dia é assim. Pedir um pix não é vergonha, já que todos trabalhamos por 24 horas nessas plataformas e redes sociais, contudo, há aqueles que obtêm sucesso nos seus empreendimentos. Infelizmente, não é o meu caso, mas, quem sabe, um dia seja. 

O DIÁRIO EM DESCANSO DE GREGOR SAMSA

 


Imagem de Gregor Samsa, gerada por IA. 


"Quando Gregor Samsa despertou naquela manhã, após uma noite de sono intranquilo", não imaginou que a realidade seria seu pior pesadelo. Sem querer, viera parar num açougue abandonado, mas, não havia alimento ali, apenas nacos de carnes apodrecidas, abandonadas, esquecidas, impróprio para qualquer consumo. Nem mesmo ele, em sua estranha metamorfose, conseguiria degustar qualquer coisa dali por boa vontade. O sangue coalhado, negro e seco, espalhado sobre as mesas e o chão, não o permitiram que mergulhasse em alguma ilusão onírica. Mal porém se ajeitou para dar o fora, foi derrubado por uma multidão de outros insetos esvoaçantes e rasteiros, não tão racionais quanto ele, porém extremamente necessitados de restos mortais para depositarem seus ovos, afim de que pudessem zelar por sua própria subsistência, sobrevivência, permanência. Alguns desses nacos esquecidos, já apresentavam larvas vivas, a se mexer, retorcer dando assim prosseguimento às necessárias etapas do viver. O velho açougue abandonado, tinha cheiro de morte mad estava repleto de vida. Pobre Gregor, captou no ar o cheiro terrível da podridão e ele perdeu os sentidos. Tomara, para seu próprio bem, que esse pesadelo acabe logo. Não demorou, acordou e ainda zonzo, nem sentiu, tampouco percebeu, a multidão barulhenta, decidida, invasiva, passar por sobre ele, por cima dele, empurrando-o, na contramão cada vez mais para longe - e, enfim, por um fio de boa sorte - para mais perto da porta. A saída logo ali..

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

O QUE FAZER COM A ANSIEDADE?

Uma fala de Agha sobre a ocupação do Afeganistão (1995)

  Omar Ali-Shah
 Mestre da Tradição Sufi no Ocidente

                                           Nascimento: 1922, Afeganistão
   Falecimento: 7 de setembro de 2005, Jerez, Espanha

Em 21 de Outubro de 1995, Omar Ali-Shah, mestre da Tradição Sufi no Ocidente, falou em palestra, devidamente transcrita por seus discípulos, o seguinte sobre a ocupação no Afeganistão. Lembrando aqui, que, Agha, morto em 2005, era afegão, de uma linhagem que remonta aos tempos do profeta Mohammed.
***
"Eu quero lhes falar brevemente sobre um assunto, que, eu sei interessa a algumas pessoas. Este tema preocupante para alguns, contêm muita desinformação, já que não existem informações corretas sobre a situação real no Afeganistão. Como todos vocês sabem, este é um assunto que me emociona porque envolve meu país e meu povo.
Atualmente, existe em Kabul um governo provisório. Como resultado de dez anos de ocupação soviética, a estrutura social se quebrou e as pessoas têm voltado à antiga forma de identificação por clãs. Isto porque, antes de 1745, o que hoje conhecemos geograficamente como Afeganistão era uma coleção de principados independentes. Tratava-se de um sistema feudal e se baseava, não em linhas racistas, mas no sistema de clãs e funcionava muito bem.
Como em todas as sociedades, ou inclusive famílias, existiam disputas e atritos entre os diferentes clãs. Em 1745 alguém disse: 'Olhem, (foi provavelmente o Nasrudin da época quem falou) outras pessoas têm reis. Que vocês acham de ter um rei?' Desculpem-me, não foi em 1745; o movimento se iniciou em 1720, porém, somente 25 anos depois, e por consenso, eles decidiram criar um reino e escolher uma pessoa que todo mundo aceitaria como rei. Em consequência, Ahemed Shah Durrani foi nomeado rei e se transformou em rei, mas ninguém tomou conhecimento dele no Afeganistão. Na verdade, ele se transformou em rei e todos o aceitavam como rei e cortesmente ofereciam seus respeitos, entretanto, diziam: 'Vocês conhecem os Paghmanis, ele é um Durrani e todos eles são lixo'.
De qualquer forma, o Afeganistão se consolidou, mas, como resultado da invasão soviética, da destruição e do genocídio que a acompanharam, o povo voltou às suas raízes nos clãs. No começo da invasão soviética, independentemente dos ciúmes e atritos existentes entre os diferentes clãs, a totalidade do país lutou unido contra o inimigo, ou seja, os soviéticos. Logo que as tropas soviéticas se retiraram, como consequência da total destruição da infra-estrutura, as estradas, o sistema de irrigação, sistema de comunicações, sistema de educação, etc, os diferentes clãs, em diferentes lugares do Afeganistão, acharam muito difícil permanecer fisicamente unidos e assim reestabelecer os antigos contatos. Atualmente, a situação se agravou, pelo fato de que os soviéticos, sistematicamente, executaram médicos, advogados, professores, sacerdotes e, em outras palavras, a totalidade da classe média ou classe profissional.
Nesta situação de caos e isolamento, existe um vazio de poder, o qual, inevitavelmente, como diz um ditado afegão 'é preenchido pelo diabo'. Da mesma forma, como todo americano esta imbuído do pensamento e da esperança de um dia poder se transformar em presidentes dos Estados Unidos, cada afegão considera que ele deve se transformar em rei. Nas circunstâncias atuais de total destruição da infra-estrutura e da existência de um vazio de poder, não requereria muitos anos para se obter um consenso e se escolher um líder. No entanto, elementos introduzidos neste vazio, vindos do exterior, exacerbaram os atritos e tensões dentro do país durante os últimos oito ou nove anos. Assim, por exemplo, o atual regime russo, embora derrotado e expulso, exerce sua influência no Afeganistão com o objetivo de proteger as suas semi-independentes repúblicas autônomas da Ásia Central. Eles querem manter o fornecimento de petróleo e os gasodutos instalados, do Afeganistão até então, a chamada União Soviética.
No Ocidente, os Khomeines do regime iraniano tentam ampliar sua influência através da minoria Shia do Afeganistão. Os franceses também exercem sua influência por meio de suas atividades industriais e comerciais; antes da invasão soviética, eles tinham um contrato para extrair e exportar petróleo e gás. Os americanos participam, afim de contrabalançar o potencial russo na região. Sendo que também o Paquistão deseja exercer a sua influência, e eis que na parte Este desse país está sendo armado, treinado e estimulado um grupo de jovens desafortunados afegãos, que tentam então estabelecer um partido denominado Talibã. Por outro lado, a Índia interfere automaticamente, simplesmente por se opor a qualquer coisa que faça o Paquistão ou seja, lamentavelmente, a situação atual é de guerra civil.
Com a cooperação de várias agências e fundações internacionais, nós temos tentado reconstruir, muito lentamente e em escala bem pequena, algumas partes da infraestrutura com o propósito de fornecer maquinaria básica, elementos médicos e alimentação. Nesse período, estas atividades deviam ser mantidas ocultas, secretas, clandestinas, em razão de que os soviéticos, além dos bombardeios cotidianos, destruíam qualquer lugar onde se pretendia estabelecer qualquer coisa que lembrasse a vida normal. Assim sendo, nós concentramos nossos esforços nos campos de refugiados do Paquistão e do Irã.
Gostaria de lhes ilustrar a situação atual com alguns números. Na época anterior à invasão soviética, a população afegã era de 16 milhões. Durante a ocupação soviética, e como resultado das lutas, bombardeios e técnicas de extermínio, perderam-se 1.750.000 pessoas. No final da ocupação soviética, existiam 5 milhões de refugiados no Irã e no Paquistão. Atualmente, existem 3,75 milhões de refugiados, provavelmente a maior e mais significativa população de refugiados no mundo. Não escutamos muito sobre esse tema e ele não tem cobertura pela imprensa porque existe uma atitude do tipo: 'os soviéticos foram embora, há paz na região e, consequentemente, não nos ocuparemos mais do assunto'.
Graças a Deus, não temos visto nos jornais ou na televisão, falo em relação ao Afeganistão, aquelas terríveis e deprimentes imagens de crianças desnutridas e hospitais cheios de vítimas da fome e de pessoas emagrecidas. A razão pela qual não vemos essas reportagens impactantes e muito emocionais dos campos de refugiados afegãos, é porque, novamente, graças a Deus, as pessoas não estão magras ou morrendo de fome. Em primeiro lugar, e isso é muito importante, os afegãos são um povo fisicamente forte. Em segundo lugar, se eles são deslocados de seus lugares de origem, assim que eles encontram algum refúgio, seja uma choupana, uma tenda ou mesmo uma caverna, começam a trabalhar, cultivando batatas em 10 metros quadrados ou criando duas galinhas. É um povo sadio, limpo por natureza e lembrando, não estou fazendo alusão a outros refugiados no mundo, que vivem nas mais dramáticas circunstâncias. Se eles se encontram nessas condições, certamente, não é por vontade própria, mas, como geralmente acontece, é porque são muitas pessoas, restritas a uma área muito pequena e sem possibilidades de trabalhar ou realizar outras atividades.
Os refugiados afegãos se organizam seguindo uma estrutura básica tradicional, na forma de aldeias. Nessas aldeias, tem-se uma pessoa mais velha ou mais experiente que dirá aos outros o que devem fazer e cuidará para que seja feito. Se num determinado acampamento são alojados um número demasiado grande de refugiados, um grupo deles irá embora e começará um novo acampamento em outro lugar. Eles fazem isso de uma forma muito útil, particular e afegã, e informando imediatamente as autoridades. As autoridades do Paquistão, tendo já muitos anos de experiência no trato com afegãos, aceitam assim a nova situação. Desta forma, embora exista dentre eles fome e algumas doenças, incluindo falta de qualquer coisa que chamaríamos conforto, pelo menos conseguiram se organizar em pequenas comunidades controláveis.
É nestes acampamentos específicos do Paquistão, onde temos concentrado esforços e utilizado o dinheiro de vocês. Temos providenciado, elementos para o cuidado com a saúde, tais como drogas, antibióticos e demais medicamentos, juntamente com equipamentos básicos para agricultura, pequenos geradores de eletricidade, bombas e etc, na esperança de que essas pequenas comunidades possam tornar-se autossuficientes. Se assim acontecer, quando algumas das 10 milhões de minas soviéticas tenham sido removidas, eles poderão voltar as suas vilas. Preservando o contexto familiar e a coerência da comunidade, esta simples infraestrutura, poderá, futuramente ser utilizada para criar uma outra nova infraestrutura, ao voltarem aos seus respectivos lugares de origem. Eu não sei quando isto vai acontecer ou o quanto vai demorar. Com certeza, este processo se acelerará e, muito, quando enfim, acabar a interferência externa. Até isto acontecer, nosso objetivo é mantê-los vivos, saudáveis e reforçar a sua fé e crença de que estão indo para casa." (Oberschleissem, Alemanha, 20 a 22 de Outubro de 1995)

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Mulheres afegãs

 


"Ommolbahni Hassani, mais conhecida como Shamsia, é uma grafiteira afegã e professora de escultura na Universidade de Kabul. Ela tem popularizado a arte urbana nas ruas de Kabul. Shamsia expõe a sua arte digital e a sua arte urbana na Índia, Irão, Alemanha, Itália, Suíça e nas missões diplomáticas de Kabul." (Sagarana Patrícia Ribeiro)

Shamsia Hassani -Afghanistan- femme street artiste
Du talent et beaucoup de courage!






























segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O bode expiatório


O bode expiatório de Coach criado por Spielberg

Como uma Cabra marcada para morrer virou metáfora para enganar pobres

O filme “Jurassic Park”, lançado em 1993, foi um fenômeno de bilheteria. Um sucesso estrondoso filmado por Steven Spielperg e que influenciou inúmeros filmes de ficção científica.
Além das influências na cinematografia, o filme também entrou para a cultura pop e passou a influenciar socialmente.
É o caso da cena da cabra, que hoje é usada por coachs de todo o Brasil para falar sobre comodismo e meritocracia.
A cena é a seguinte: Durante o passeio de carros pelo Park, a equipe da instituição coloca uma cabra para atrair o Tiranossauro Rex, a principal atração do dia. Porém, o dinossauro não aparece. Um dos personagens, o paleontólogo Allan Grant, ao ver a frustração das outras pessoas por não terem visto o Rex, diz algo como: "Ele não quer ser alimentado. Ele quer caçar. Não se pode reprimir 65 milhões de anos de instinto selvagem"
Os coachs, atividade que se difundiu amplamente nos últimos anos, usam a pobre cabra e o poderoso dinossauro para dizerem às pessoas: "Comodismo faz mal, não deixem que te deem a cabra, vá buscá-la".
A metáfora, muito cafona e até mesmo desonesta, faz pessoas pobres acreditarem que só vão vencer na vida se matando de trabalhar.
Em uma selva, com comida escassa e muitos perigos, até o Tiranossauro Rex agradeceria um prato de comida em mãos.

Texto - @joelpaviotti

(Nos créditos do filme tá falando cabra. Então chamamos de cabra?

Cachorros e Humanos: o problema na comunicação.

domingo, 15 de agosto de 2021

Nossa Senhora Desatadora dos Nós

 




ORA PRO NOBIS


Há um mar por dentro de mim
que ora calmo, ora violento
vai em ondas quebrar
na praia do meu desalento
Não sofro mais como antes
porém, não sorrio com tanta avidez
Não desperdiço o tempo que necessito
iludindo-me com insatisfeito,
torto viver
Preencho com este mar bravio
o que ainda me resta de vazio
Sinto sede, sinto frio...
Mas, ciente da dor que se foi
que aos poucos, lentamente,
se esvaiu
Sorrio, agora, incerta da certeza mortal
que tudo encerra, do silêncio sepulcral que nos cerca
o cotidiano feito às pressas, cheios de emendas e detalhes que nunca se desfazem
Aonde foram parar as horas?
Enfim, deixarei de lado
meu rosário de lamentos
Ai, minha Nossa Senhora Desatadora dos Nós 
Ora pro nobis!

CALIFADO

 


Com os bárbaros Talibans tomando conta do Afeganistão inteiro de uma vez, hoje invadiram Cabul, está mais que na hora de vcs assistirem a série Califado, na Netflix. Vocês não hão de se arrepender.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

A vingança veio a cavalo

Achei bem-feito! O cavalo sofreu... levou chicotadas e socos. Hipismo assim, pra mim, não é esporte. Nem vou descrever aqui, o quanto sofrem esses animais nas mãos de humanos sem coração. Sim... a vingança veio a cavalo!


Condessa de Barral

Uma mulher extraordinária, do tipo que já não se fazem mais mesmo, infelizmente.

A pequena Luisa e seus pais: 
Domingos Jorge de Barros e 
Maria do Carmo Gouveia Portugal



Luisa Margarida de Barros Portugal
Condessa de Barral
Condessa da Pedra Branca
Marquesa de Monferrat
A Condessa de Barral, já em idade avançada

domingo, 8 de agosto de 2021

Invernos entre Verões

Esse é um dos poemas para meu companheiro de vida, aquele que foi o pai de minhas filhas e também para o meu próprio pai... em honra e homenagem a todos os pais.



INVERNOS ENTRE VERÕES
Sayonara Melo

Tenho vivido tantos invernos
mesmo em meio aos verões que já nem estranho...
Uma saudade de um raio de sol me invade
Um pai leva com cuidado a filha ao colo
Sorriso suave estampado no rosto onde o sol se derrama
em mornas caricias... Fios de cabelos de anjo soltos ao vento
de uma cálida, límpida manhã
Fui feliz assim, um dia, nessa constância de uma vida in - comum
Sopram agora outros ventos
Sussurram agora em meus ouvidos outras doces, monótonas cantigas
E antigas vertigens retornam aos meus dias
Invisíveis tormentos me acalentam os sentimentos
Fogo brando que nunca se apaga...
Revolvo minha alma nessa estranha saudade
de tempos idos, que não mais voltam
Dói-me o peito
Brota a mágoa
Invernos de solidão em meio a verões de silêncios.

Cantilena do Corvo

DEMÔNIOS... OS MEUS, OS SEUS, OS NOSSOS

  Sempre indaguei da vida, se ela presta mesmo, apesar de, lá no fundo de mim, acreditar que sim, “a vida presta”, apesar de tantas barbarid...