terça-feira, 17 de maio de 2011

A INENARRÁVEL HISTÓRIA DO CAVALEIRO LEONARDO CABEÇA DE DRAGÃO, Uma aventura medieval Parte VI





Memé, o dragão

O jovem cavaleiro, por sua vez, tremeu, nunca vira algo tão poderosamente assustador. Este sim valia por mil dragões. Não seria nada fácil matá-lo; só com uma de suas sete cabeças o dragão poderia engoli-lo num abrir e fechar de olhos; por isso era preciso cuidado para que o monstro não o visse, deveria, antes de tudo, acertá-lo no coração.

Puxou Claralua da bainha, mas quando estava perto o bastante para o ataque, percebeu quão bela era a pele do dragão; cheia de riscos e imagens que contavam antigas histórias e os segredos de um tesouro fabuloso; hipnotizado, fechou e abriu os olhos, a fim de quebrar o encanto, porém, o tormento continuou e sua mente, atordoada, não conseguia mais pensar, foi então que ouviu uma voz, uma voz suave de mulher, que até parecia vir de dentro dele, entretanto, ele não sabia, era Seele, a filha do rei que falava, a voz vinha de um lugar que no momento não podia ver, porém percebeu que era perto demais.

“Rápido”, disse ela “eu irei cantar para o dragão e assim que ele adormecer use a espada e corte-lhe a cabeça negra. Não conseguirás matá-lo num confronto, mesmo que o golpeies no coração. O dragão já possui o coração ferido e pouco adiantará o golpe certeiro de tua espada, a solução é decepar as sete cabeças agora, neste momento em que formam uma só. Assim que o dragão adormecer deverás então, decepar-lhe as cabeças, retirando de cada uma delas as draconitas, pedras mágicas, cuja alvura natural e perfeita é motivo de ambição entre os homens.”

“Ouça o que digo, não hesite... acabe com isso de uma vez.”
                          
Tão pronto a princesa começou a cantar, o horroroso dragão ficou a escutar, pois sua voz era tão linda, densa e extremamente consoladora... tão cheia de promessas, tão profunda e misteriosa... havia chegado a hora, agora ele podia adormecer... O monstro fechou os olhos e foi mansamente baixando as horrendas cabeças; Memé, o diabólico dragão, finalmente, adormeceu; dormiu pela primeira e última vez... A canção subiu pelas paredes, chegando ao alto da torre da Garça aonde os sábios e alguns outros, eram mantidos prisioneiros. A voz da cantora encheu aquele ambiente sombrio de luz; então, as correntes foram partidas e as portas das celas escancaradas.

A jovem parou de cantar, mas a lembrança da canção inesquecível continuou a ecoar por toda cidade, penetrando nas profundezas do vale onde até o ogro de pés tortos e cabelos pegajosos a ouviu e pela primeira vez sorriu, e Leonardo desembainhou a espada. Sem perda de tempo, cortou as sete cabeças em uma retirando delas as sete pedras que imediatamente guardou dentro de uma pequena bolsa que trazia a cintura. Arrancou-lhe também o couro com os estranhos desenhos, que de tão belos quase o enfeitiçara, uma parte dele serviria como sua manta de cela, a ser usada em momentos apropriados, pois assim aquele que estivesse doente, sofrendo de algum transtorno da mente ou do coração e a notasse, poderia recuperar a saúde e a razão, pois era mágica e hipnotizante e ao mesmo tempo, por isso mesmo, não poderia ser vista por qualquer um. Como manta de seu cavalo serviria a ambos os propósitos, estaria à mão sem ser realmente notada por quem não estivesse extremamente necessitado, senão o resultado seria inverso.

Com coração ferido da fera que ainda palpitava entre as suas mãos, mas o cavaleiro sabia que precisava destruí-lo, e, apertando-o, espremeu-o feito um fruto maduro até que não lhe restasse mais uma só gota de sangue.

Das gotas caídas ao chão do coração ferido, brotaram flores e frutos; borboletas e pássaros... Feito isso, o cavaleiro envolveu o coração ressequido em um pedaço da própria pele do dragão e guardou-o consigo quem sabe um dia viesse a precisar e lançou o que sobrou do couro lustroso e colorido no vasto deserto salgado onde antes havia estado o mar. No mesmo instante, um mar esbravejante, sibilante, jogando longe as ondas verde-azuladas repleto de peixes e algas e de tudo o mais que num mar podia existir, voltou a surgir.

O sangue do dragão, vermelho, quente e borbulhante, jorrou do seu corpo decapitado, penetrando todos os recantos esquecidos, tornando novamente fecundas as terras estéreis. A vida explodiu das sete cabeças em mil cores e formas.

Aí foi que Leonardo viu a pobre Seele, aprisionada numa rocha, agora desfeita em pó perto do fosso; era ela a dádiva do dragão, a noiva do monstro das profundezas marinhas; sujeitara-se a isso para manter a salvo o povo e o reino de seu pai enlouquecido.  Encantou-se com sua grande beleza e enfim entendeu o seu sonho e qual era o real desejo de seu coração.

Continua...

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