segunda-feira, 11 de abril de 2011

A INENARRÁVEL HISTÓRIA DO CAVALEIRO LEONARDO CABEÇA DE DRAGÃO, Uma aventura medieval Parte V




A chegada, o confronto

Em frente aos portões, que pareciam feito de sonhos, o cavaleiro resolveu apear e se aproximar, porém, ao fazer isso, um pouco tonto, por causa da experiência, tropeçou em algo que parecia uma pedra, mas, era um homem que, cabisbaixo, examinava a terra grão por grão.

“Será possível?! Outro escavador de terra?! Estarei eu na cidade dos garimpeiros?! O que procuras, homem. Enlouquecestes?”

"Ah... jovem cavaleiro leve a sério este sujeito”, disse o homenzinho, “pois é mesmo um louco... um louco perdido de amor.”

 Leonardo levantou-se, limpando-se da sujeira e enquanto assim o fazia lembrou-se de si mesmo. Teve pena do “louco” que, com certeza, “não sabia o que estava a fazer.”

 “Ora; ora...” disse o louco, levantando-se também, “se não é o jovem cavaleiro prometido, matador de dragões. Quantos já mataste?! Eu matei sete; sete de uma vez só...”

 “Sete...?! E de uma só vez?!” Disse Leonardo, arregalando os olhos de espanto e incredulidade.

 “Sim... sete...; sete moscas que não me deixavam dormir em paz. Isso faz muito tempo, porque agora eu sou esperto e não durmo mais.”

 O homenzinho sorriu mais uma vez da cara de bobo de Leonardo, que desta vez, mais por orgulho, não se fez de rogado.  “Louco, o que procuras?” indagou.

 “O que procuro? Claro está que não procuro a ti. Procuro a minha estrela no fim do horizonte; procuro a amada de meu coração; minha busca por ela não há de ter fim.” 

 “Que estranha forma de procurar jóia tão preciosa. Será que tal beleza rara se esconderia sob a poeira?”

 O louco, com o olhar perdido; replicou: “Eu a procuro em todos os lugares. Na lua, no céu povoado de estrelas; no vento e na poeira; busco-a no sol; no mar; no principio da tarde e no silêncio da noite. A tudo e a todos, pergunto por ela, pedindo-lhes notícias, na esperança de um dia a encontrar; um dia a hei de encontrar...”

 Ao terminar sua estranha confissão de amor, o louco, de um jeito deveras assustador, pôs-se a perguntar: “Tu não a viste? Nada tens a me dizer? O que procuras? Desejas o verdadeiro significado de tudo ou só tens a pretensão? Pensas que não existe o verdadeiro significado das coisas? Não procuras o que deves procurar, nem de dia; nem de noite. O que é tua amada para ti? Apenas um sonho? Quem é o louco? Tu ou eu? Acho que és tu...Vai, vai cavaleiro, vai matar o teu dragão...mas, antes, de bateres a porta, verifica se ela está realmente fechada.”

 Ora saltitando e sacudindo-se todo; ora rodopiando e rindo como criança, o homem era mesmo um espanto. De repente tornou-se sério e voltou a catar a terra.

 Impressionado, mas pensando sobre tudo o que o “louco” acabara de lhe dizer, Leonardo voltou-se para os portões da cidade; e estes mesmos portões, que pareciam feito dos tecidos com o qual se tecem os sonhos, guardavam uma sombria expectativa. Mal tocou-o e o portão abriu-se e então, no mesmo instante, ouviu-se, como que vinda do alto, uma voz misteriosa que disse:”

Aqui ó estrangeiro, começa tua jornada.
Do lado de fora, deixa a cobiça, a ira e a auto-compaixão,
pois, somente os puros de coração,
a verdade, alcançarão”.

 Mesmo sendo ainda dia, Olímpia estava fria; escura e silenciosa. Não havia risos de crianças; nem mães preocupadas. Silêncio! Um silêncio absoluto e assustador. Apenas isso... Silêncio e neblina... neblina e silêncio Nem o barulho das patas de Borak se conseguia ouvir  pela estrada. Andavam sobre névoa. Nenhum animal; nenhuma pessoa atravessava-lhes o caminho. Enfim, era uma cidade fantasma, pois vez ou outra; espectros horríveis tentavam intimidá-los, porém, bastava que o homenzinho lhes estendesse a mão, para que eles, rapidamente, se desvanecessem.

 Leonardo encarou tais visões como uma espécie de delírio sufocante. Desejou algo para beber, e, puxando do seu farnel tomou uns goles da garrafinha dourada com a água do rio Jordão. Como num passe de mágica, olhou para dentro de seu coração e nele vislumbrou a imensidão e a beleza do universo; era um senhor de segredos, mas almejava conhecer o segredo dos segredos, o maior de todos; o segredo da eterna beleza e perfeição. Atônito, ainda tinha os lábios secos; armado de coragem se fosse necessário, seria capaz de matar mil dragões. Distinguiria ele fidelidade de infidelidade, se ambas se oferecessem para levá-lo ao encontro de seu destino? Não... aliás, receberia as duas, de muito bom grado, pois quando as  portas lhe foram abertas, ele não encontrou nenhuma nem outra e sua paciência nem estava esgotada. Perdido em seu devaneio, quase esqueceu-se de si,  de onde viera e por tudo o que passara; onde estava e o porquê de estar ali.  Foi acordado pela voz do homenzinho.

 “Nossa cidade não era assim... tão escura e sombria; sempre coberta por esta névoa misteriosa que teima em não se desfazer. Antes, era formosa e cheia de vida. As casas, amplas e confortáveis; com sacadas e jardins com todo tipo de flores em que pássaros vinham cantar e descansar. Crianças e velhos, costumavam sentarem-se ao entardecer ao redor daquela fonte ali, onde hoje a água cristalina já não canta mais, para ouvir o contador de histórias. O mercado, cheio de mercadorias raras,  recebia os viajantes que por lá se detinham algum tempo em busca do objeto desejado... e o que são os desejos agora? Nada além de sonhos... recordações.... Saiba cavaleiro, quão pesada é a tarefa que repousa em teus ombros.”

 “Farei o melhor que puder.” Respondeu Leonardo.

 “Acredito. Vem até minha casa. Precisamos descansar. Terás que estar muito bem preparado para enfrentares o dragão.”

 O homenzinho conduziu Leonardo por uma viela estreita, a uma casa graciosa, que de tão irreal, parecia suspensa no ar. Antes de entrarem, porém, guardaram e alimentaram Borak que, assim como eles; precisava de cuidados. O que é um cavaleiro sem o seu cavalo? Instantes depois, Leonardo e o homenzinho entraram na casinha. Poucos móveis e enfeites compunham a mobília, tudo muito limpo e arrumado, como se a casa sempre estivesse à espera de alguém. Na hora de dormir, o homenzinho mostrou a Leonardo um quarto aconchegante, entretanto, ele preferiu o couro gasto e macio de uma velha poltrona da sala que ficava perto da lareira. Assim acomodado perdeu-se em pensamentos. A recordação aqueceu-lhe o coração, fechou os olhos... mas  não adormeceu.

 De manhã, bem cedo, a cidade foi perturbada por violentos tremores. Era o dragão que despertava e faminto, despejava sua fúria pelo ar.

 Leonardo levantou-se e correu a janela, porém, a neblina, mais densa ainda que no dia anterior a sua chegada e nuvens de fumaça, o impediam de ver qualquer coisa que fosse. Apenas de vez em quando, em momentos não muito longos, um clarão de luz, aqui e ali, rasgava a neblina, tornando tudo, nesse meio tempo, impressionantemente nítido... era preciso saber aproveitá-los e se esforçar em memorizar o que fosse possível, pois seriam estes clarões momentâneos e o imprescindível apoio do homenzinho, que o ajudariam a tomar as mais certas e justas decisões.

 “Vamos, cavaleiro, apresse-se” disse o homenzinho. “Nosso tempo se esgota.... O rei passeia em sua carruagem enquanto o dragão cospe fogo.”

 Leonardo respirou profundamente, pôs o elmo à cabeça e foi em busca de Borak e rapidamente o montou. O homenzinho, na forma de coruja, saiu voando à frente, lhe indicando o caminho. O medo e a aflição pairavam no ar.

 Os prédios e as casas, cujos telhados pontudos surgiam acima da neblina, davam à Olímpia um ar sepulcral. Eis que então, entre um e outro clarão, não muito longe, ele avistou uma pequena multidão que se aglomerava numa das esquinas. Era o cortejo real que passava, com o corpo de guarda pedindo passagem, gritando a plenos pulmões: “Abram passagem para o rei; abram passagem...” Os mais afoitos tentavam manifestar-se, porém eram retirados pelos guardas de forma assaz truculenta.

 A carruagem real logo desapareceu atrás dos portões de ferro do palácio; uma sólida construção fortificada, sob uma colina à beira-mar, cujas duas maciças torres com balestreiros guardavam a entrada, entrada esta que era por sua vez, defendida por uma ponte levadiça. Certamente, se os inimigos surgissem seriam rechaçados por seteiras postas de cada lado e também através de buracos feitos no teto, os famigerados buracos da morte.

 Ao redor do fosso, enrodilhado, estava Memé, o maléfico guardião, que com suas sete cabeças e sete pares de olhos, parecia uma planta feia e retorcida que havia crescido demais. As cabeças tinham cores diferentes e fundiam-se umas às outras, formando uma só; uma medonha e negra cabeçorra com olhos de cima abaixo, até à altura do coração. O monstro não deixava nada nem ninguém se aproximar, ai daquele que ao menos ousasse tentar. Leonardo procurava um jeito e procurando ficou até o anoitecer. 

 No alto da fatídica Torre da Garça, onde se encontravam aprisionados os membros do conselho, pousou a coruja à espera de uma tomada de decisão do cavaleiro.    

 O dragão só acalmou a sua fúria, quando foi alimentando e instantes depois jazia imóvel, parecendo dormir, mas Memé jamais dormia e talvez, nada neste mundo seria capaz de fazê-lo dormir. De repente, desconfiado, farejou o ar.

 Um galo cantou, anunciando a meia-noite e a coruja deixou a torre e indicou a Leonardo uma solução. Quando um castelo era atacado, a guarnição contra-atacava saindo para o exterior por uma porta traseira, a chamada porta da traição, surpreendendo o inimigo na retaguarda enquanto estes se ocupavam do portão principal. Assim, a coruja piou três vezes, avisando a Leonardo de sua intenção e ele sem mais perda de tempo, avançou com Borak, cautelosamente, para os fundos do palácio. Com cautela, Leonardo foi se aproximando, andou metade do caminho sob o dorso de Borak e depois achou melhor desmontar e seguir, pé ante pé para perto do monstro. Sem fazer qualquer ruído, Borak, o seguiu. O nobre animal estava ciente da necessidade do silêncio.
  
 Memé pressentiu o perigo e girou de um lado para o outro as sete horrendas cabeças, os olhos varrendo a escuridão com uma luz sobrenatural.

 O monstro soltou fogo pelas narinas e numa incrível agilidade para um corpo tão grande e pesado, ergueu-se sobre as patas traseiras; as cabeçorras quase tocando o céu.

 A coruja revoava nervosa, de um lado para outro; ao longe, o canto de um galo anunciava a meia-noite. 

Continua...