quarta-feira, 16 de março de 2011

A INENARRÁVEL HISTÓRIA DO CAVALEIRO LEONARDO CABEÇA DE DRAGÃO, Uma aventura medieval Parte IV




A caminho de Olímpia, a cidade esquecida


O resto do caminho foi percorrido em silêncio.  Leonardo nada quis falar, mas ia sobressaltado, pois coisas terríveis surgiam a sua frente. O Vale era um lugar que, a cada instante, passava-se por cem provações; somente um instante que, infelizmente, pareciam longos e penosos anos. Lembrou-se que, anos atrás havia abandonado tudo atrás de um sonho impossível, agora sofria; seu coração atormentado boiava num charco de sangue, porém ele sentia que estava a salvo da perdição. Fechou os olhos e procurou se desligar de tudo o que existia para ver brilhar a luz. Ainda que houvesse mil outros vales a atravessar, ele o faria movido por um amor brotado nos sonhos. Seria louco? Sim, louco de amor. Era consumido por um fogo interior; um fogo invisível.

Um sacolejo de Borak fez Leonardo abrir os olhos e ele pode ver que realmente, a beleza, que tanto lhe chamara a atenção à entrada do vale, era cada vez mais rara. Os pássaros haviam deixado de cantar e apenas uma estranha desolação, disfarçada pela neblina, continuava a assombrar o longo percurso. Percebeu que não pararam para descansar ou sequer se alimentar, pois a pressa e a preocupação haviam tomado lugar.

Borak tomou água num riacho que encontraram quase seco e sem vestígios de qualquer vegetação à sua margem. Curiosamente, um menino, usando uma bateia, continuava a lavar a areia, procurando entre os cascalhos do riacho, pepitas de ouro. Ao seu redor, montículos de terra não paravam de surgir e assim entretido, mesmo ouvindo passos, o pequeno, a cabeça, não levantou, mas, antes que se fossem, Leonardo retirou de seu próprio pulso um precioso bracelete e o ofertou ao menino.

“Menino, toma esta pulseira. Ela é tão valiosa que daria para alimentar o mundo inteiro. Ela só já bastaria por toda a tua vida. Pára de escavar a terra. Compra um reino e torna-te rei.”  

Porém, o menino, sem mesmo sequer olhar para Leonardo ou mesmo para a preciosa pulseira, lhe disse: “Já sou um rei; filho de rei, mas não abandonarei o meu oficio enquanto viver. Foi escavando a terra que ganhei tão rico bracelete; foi escavando a terra que me tornei senhor de mim, portanto, é meu dever dele me ocupar até o fim de meus dias. O riacho logo tornará a se encher. Segue tu o teu caminho e deixa-me em paz.”

O homenzinho sorriu, mas Leonardo não se abalou. Deixou o menino pegado em seu oficio e seguiram adiante.  
            
“Veja jovem cavaleiro, é quase finda a nossa jornada. Já está amanhecendo, como te disse que aconteceria. Eis a cortina de fogo que protege a cidade. Não devemos temê-la e sim, ultrapassá-la; agiremos como a mariposa, que dança ao redor das chamas antes de perder-se nela...”

“Não precisas arriscar-te comigo. Toma a forma de coruja e voa daqui.”

“A tarefa compete a ti, porém, sou teu guia nesta viagem e não te abandonarei. Não saio de tua garupa, atravesso contigo a cortina de fogo.”

Leonardo preparou-se para pular e num abrir e fechar de olhos, tudo aconteceu.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A INENARRÁVEL HISTÓRIA DO CAVALEIRO LEONARDO CABEÇA DE DRAGÃO, Uma aventura medieval Parte III


 


O mago

 A coruja voou do galho até a garupa de Borak, e tomou a forma do homem velho. “Devemos ir”. Disse ele. “Se formos agora, talvez, cheguemos à Olímpia antes do dia clarear. A cidade está em polvorosa..."

“Onde é Olímpia e por que estaria em polvorosa? Por quê?!” Quis saber Leonardo, que após pegar seus pertences, estava também pronto para montar e partir, retomando o caminho que os conduziria para fora  ou mais adentro da floresta?!

“Tão logo saberás. Espera só um instante...” De repente, o homenzinho soltou três longos e fortes espirros, que por pouco não o fizeram cair do cavalo. “Atchiiimm... atchiiimm... atchiimm... por aqui tem dente-de-leão... minha alergia voltou a me importunar... Bem, a história é a seguinte: Nosso rei é um homem justo; altivo e generoso e também um mago poderoso, mas como deves saber; nem tudo se resolve com magia e ele, de uns tempos para cá, na verdade, desde a morte da rainha parece ter enlouquecido. Mergulhou num estado de profunda melancolia. Deseja desesperadamente encontrar a cura para o seu mal, entretanto, apesar de seus esforços, nada, até agora, adiantou.” 

“Mas, por que o rei não consegue aceitar a morte da rainha? Ele deve saber que não podemos viver para sempre. Somos folhas ao vento”

“Sim... ele sabe disso e talvez até tivesse aceitado a morte de sua consorte se ela tivesse ocorrido de forma natural... é muito triste pensar que alguém desistiu de tudo... de viver; de amar... deixando aos que ficam a imaginar os motivos; as razões, que levaram a este ser querido agir assim? E ele, não diferente de qualquer um nesta situação, se culpa constantemente, perguntando-se que tipo de gente ele é que não conseguiu nem sequer proteger a amada esposa de seu coração, se lá no fundo de si mesmo estava certo de que esse tipo de desgraça poderia suceder.”

“Estás a me dizer que a rainha procurou seu próprio fim...?”  
    
“Estou. Mas, o rei comete um grave erro ao se culpar, já que a sobrevivência do reino e do povo, assim como de sua jovem filha está em suas mãos. Infelizmente, algumas pessoas parecem mesmo ”predestinadas” a um triste fado que nada, nenhum amor, nenhuma magia ou sabedoria é capaz de desfazer, há não ser por elas mesmas, mas dificilmente conseguem encontrar uma saída, uma solução.”

“Predestinação”, disse Leonardo “oras, é o desconhecimento dos fatos. O que somos? Seres complexos que qualquer descuido pode danificar. A mente se perde, o corpo se desgasta; o medo nos acorrenta... e quem pode saber ao certo o que se passa dentro de cada um?”

“Bom, meu rapaz” continuou o homenzinho, “verdade é que desde jovem a rainha sofria de uma instabilidade nervosa que só fez piorar com o passar dos anos. O rei pensou que o seu amor a poderia curar e proteger; ele ousou pensar que tanto amor seria suficiente ah... o amor humano... quão pretensioso ele é, quantos desatinos em seu nome os faz cometer. Os homens chamam de amor este encanto, este apego, muitas vezes perigoso, que se tem por coisas, por lugares... e principalmente, por pessoas... Um dia, ela levantou-se e sem nada dizer a ninguém subiu a torre mais alta do castelo e de lá, atirou-se ao mar. O rei, que muito a amava, ficou tão transtornado que não mais voltou a ser o que era antes. O medo, o cansaço e a solidão apossaram-se de seu coração. Eu, apesar de todos estes anos dedicados ao estudo da natureza humana não consigo entender esta estranha escuridão que se abate sobre tantos. Certas pessoas só conseguem ir até um determinado ponto, depois disso são como alguns instrumentos, cujas cordas, se forem muito ajustadas ou pressionadas, acabam por se arrebentar. Será isto uma distorção da vontade ou uma demonstração de incapacidade causada por alguma espécie de doença interior?”

“Seja doença ou não, fazemos aquilo que podemos fazer; caminhamos até onde agüentam nossos pés.” Disse Leonardo, que apesar de sua resposta, deixou visível sua insatisfação, pois tampouco ele conseguia entender a força negra que espreitava escondida, dentro de cada coração e então, sem fazer mais perguntas, deixou que o homenzinho continuasse a falar.

“Tens razão. Fazemos aquilo que podemos. Deixemos de devaneios filosóficos e voltemos a nossa história. Às vezes, quando se sente um pouco menos melancólico, o rei passeia pelo reino, mas, na maior parte do tempo, está tão irado que desconta no povo e na filha a “injustiça” que lhe recaiu sobre os ombros; ele está cego e só. Os sábios do reino; meus companheiros e membros do conselho, na tentativa de contornar a situação, procuram um modo de lhe aliviar a dor, já que somente ele pode curar a si mesmo. Entretanto, o rei e o senescal, que tem se valido desta difícil situação, acusou-nos de negligência e conspiração e mandou-nos prender na mesma torre da qual a rainha havia se lançado, a Torre da Garça, e então, através de sua arte, convocou Memé, o grande dragão do mar, que possui sete cabeças para guardar as portas do castelo; deu-nos um ultimato: se, até a meia-noite do dia de seu aniversário, que será daqui a três dias, não encontrarmos uma solução para o seu mal, ele nos matará e destruirá toda a cidade e para isso basta que o dragão balance a cauda e cuspa fogo pelas ventas. A maldade deste monstro é indescritível. Ele já matou quase toda espécie de vida que se espalhava pelo vale; quanto mais perto chegarmos da cidade, mais isto será notado. A beleza morreu e até há poucos dias não havia nada que pudéssemos fazer ou alguém a quem recorrer. Mesmo o mar já não tem peixes; o povo está faminto e desiludido. Seele, a princesa e herdeira do trono, não sabe o que fazer e teme ser dada ao monstro como dádiva também, coisa bem passível de suceder  se o rei não mostrar compaixão para com todos, mas seu coração empedernido não deixa entrar a luz! Logo, todos, sem exceção, viraremos comida do monstro e o rei selará dessa forma seu próprio destino; destino atroz... Graças a minha habilidade em disfarces, habilidade esta desconhecida por grande parte do povo, capaz de enganar até o rei; consegui escapar e procurar ajuda, pois, como dizem, a ‘esperança é a última a morrer’ embora eu particularmente pense que a esperança é um sentimento extremamente desesperador. Exatamente, há um mês, a bola de cristal, mostrou-nos a chegada de um jovem cavaleiro que nos libertará do terror ao matar o dragão eu fui o escolhido para conferir a veracidade do fato, que, se, uma vez comprovado; devo servir-lhe de guia e apontar-lhe a direção...”

“E por acaso este jovem cavaleiro”...

“Sim. ‘Por acaso’, se existe acaso, tu és este jovem cavaleiro, apesar de todos os sinais já o terem indicado, somente após teres enfrentado o ogro é que obtive a plena confirmação.”

“Pobre de mim... um único cavaleiro para um monstro que possui sete cabeças... como darei cabo de tal tarefa, que mais me parece uma tremenda consumição?! Devo ter feito algo de muito errado para tamanho castigo; certamente estou a ser punido!”
  
“Não encare como uma punição” disse o mago “mas sim como uma preparação para feitos maiores e mais responsáveis.”


Continua...