segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A INENARRÁVEL HISTÓRIA DO CAVALEIRO LEONARDO CABEÇA DE DRAGÃO, Uma aventura medieval - PARTE I



Sob a luz da lua, Leonardo viu surgir a sua frente um enorme e negro javali, que, furioso, corria em sua direção. Prontamente, por instinto, antes que aquela fera se achegasse mais, ele jogou a lança que, certeira, foi direto ao coração. O javali caiu morto aos seus pés e um silêncio mortal se abateu sobre a escuridão da floresta. Alguma coisa lhe dizia que aquilo ainda não havia terminado.


Retirou o “chucho” e abaixou-se para examinar o pobre animal. Ficou muito entristecido e nem se apercebeu que, no galho da árvore mais alta, ao lado de Borak, a feia coruja tomava as feições de um homem velho, de pequena estatura, de barbas brancas e longas. Vestia-se com um manto azul, ondulante, cingido à cintura por uma grossa faixa amarela e sobre a cabeça, um chapéu, em forma de cone, enfeitado por um vistoso penacho.

Ainda sentado no galho da árvore, o homenzinho certificou-se, após examinar o escudo e a espada, de ter encontrado aquele que tanto procurara, mas, o javali morto seria uma perigosa fonte de problema... Será que o jovem cavaleiro estava mesmo preparado? Bem, só havia uma forma de saber: enfrentar o quanto antes, aquilo que haveria de vir.

Decidido, o homenzinho pulou do galho, passou tranqüilamente por Borak e aproximou-se do atônito cavaleiro: “Vejo que a tua surpresa é maior que a tua ignorância.”  
                     
Leonardo virou-se para ver quem lhe falava: “De onde viestes; homenzinho inconveniente. Não era de meu desejo que as coisas fossem assim. Nunca matei nada desnecessariamente em toda minha vida e de repente, sem quê nem pra quê, me surge esse javali furioso. Agi por instinto de defesa e não por maldade. Deves levar em conta o fato de que se defender de uma ameaça é um direito que cabe a todos.”

“Calma, cavaleiro... não estou lhe julgando. Sim, certamente, defender-se é um direito comum a todos, seja lá homem ou bicho”. Disse o homenzinho. “O javali também te considerou uma ameaça uma vez que invadistes a floresta sem a devida permissão... ele estava apenas se defendendo.” 

“Fui atacado por primeiro e depois sempre há um perdedor”. Rebateu Leonardo. “Em minha ‘ignorância’ não sabia que a floresta tinha um dono! A quem, deveria eu pedir permissão?”

“Não estás a cobrar consciência a um animal?! Estás?! A floresta não tem um dono, mas sim um guardião. Um ogro gigantesco e mal-humorado de corpo peludo e cabelos desgrenhados, olhos vesgos, dentes tortos e verdes. Têm os pés voltados pra trás para enganar e perseguir a quem vem aqui somente para destruir.”

“Já disse que não vim para destruir. Sou Leonardo, um cavaleiro; um cavaleiro da paz a serviço do imperador Carlos Magno. Perdi-me, não sei onde estou, mas sei para onde vou.”

“Sei quem és; de onde vens e para onde vais... mas, o ogro talvez não o saiba e dessa forma não te deixe sair. Por causa dele muitos já se perderam no Vale. Mataste a sua principal criatura, pois, como guardião da floresta é em cima deste javali que ele costuma percorrê-la. Agora o javali está morto e ele não tardará a cobrar vingança. Apesar de todas as evidências, se passares pelo ogro saberei, com certeza, que será a ti a quem devo servir de guia.”
     
Antes que o homenzinho acabasse de falar, o ar impregnou-se de um cheiro nauseante, como de corpos em decomposição. Um grito aterrador; sobrenatural, que parecia vir de toda parte e ao mesmo tempo, de parte alguma, assustou e espantou para longe a vida escondida que por ventura, ainda dormisse por ali.

O homenzinho olhou ao redor e outra vez sob a forma de coruja, voltou rapidamente para o galho, no alto da árvore. Borak, dilatou as narinas e nervosamente relinchou, levantando, vezes repetidas, as patas dianteiras que ao descerem batiam com violência no chão. Leonardo permaneceu perto do animal morto, mas saiu da posição vulnerável em que se encontrava e ficou de pé, com o escudo pendente ao pescoço e a pequena lança bem segura em sua mão.

Foi aí então, que das sombras, uma figura medonha saiu e parou diante dele. A lua, que teimava em lançar seus raios de prata através das frestas que abria na neblina, iluminando a copa das árvores, permitiu ao cavaleiro ter da impressionante criatura uma detalhada visão: o monstro era como tal e qual lhe havia descrito o mago: alto, como a mais alta das árvores; o corpo coberto de pêlos e uma vasta e comprida cabeleira, hirta e vermelha. Os olhos, dois poços de negra escuridão e a bocarra mostrava dentes tortos, pontiagudos e cheios de limo. Pés e mãos, totalmente voltados para trás. Assim que viu o javali, morto, perto do jovem Leonardo, o ogro continuou a emitir seus gritos lancinantes, cada vez mais altos, quase insuportáveis de se ouvirem. Num encontro tão inesperado como este, no coração de uma floresta desconhecida; cheia de fantásticos terrores, o sangue congelaria nas veias de qualquer um, mas não nas veias do bravo e gentil cavaleiro, que se manteve firme encarando o monstro.

“Pelo ato vil de matar o que não vais comer”, vociferou o ogro “daqui dessa floreta não sairás. Pouco me importa de onde vens ou para onde vais; pouco me importa quem sejas tu ou saber o que fazes aqui. Desta noite em diante serás meu prisioneiro; subirei em tuas costas e, de ti e de teu cavalo, farei montaria”.

Leonardo nem pestanejou, estava confiante, pois dentro de si, no fundo de seu coração, ressoava uma voz doce, calma e gentil, assim a coragem não lhe faltou e ele não vacilou quando respondeu ao ser apavorante: “É meu dever seguir adiante. Se algum mal eu cometi, foi por defesa e não por premeditação. A única culpa que, talvez, me caiba, seja a culpa da ignorância, uma vez que agi como um descuidado ao penetrar a floresta sem pedir licença. Mas, agora que tudo está consumado e não posso voltar atrás, nada, nem tu; irás me deter. Nem eu, nem meu cavalo te serviremos de montaria e nem aqui, hoje ou para sempre, me manterás prisioneiro. Mato-te; e com a mesma lança com que matei o teu javali.”

“E existirá; desgraçado, eu te pergunto algo neste mundo que seja mais abominável que a ignorância?” Replicou o ogro. “O ignorante perde a si mesmo e também aos outros.”

“Concordo contigo, mas esta tolice que cometi talvez já estivesse predestinada a acontecer. Não detenho todo o conhecimento, entretanto, possuo saber o bastante para me defender, além do quê tenho as minhas armas. Por isso te digo, sai da minha frente.”

“Falas com arrogância”. Disse o ogro, pondo-se a alguns metros de distância. “Pois saibas, ó tolo cavaleiro... que, daqui; não hás de passar...”

Borak e a velha coruja se mexeram, ansiosos, mas não saíram do lugar e Leonardo, vendo-se ameaçado pelo ogro, não encontrando mais qualquer outra solução, agachou-se; preparou-se e com mão firme, atirou a lança em sua direção. Entretanto, a lança ricocheteou em seu peito, mas não o penetrou; nem mesmo sequer o feriu de raspão, pois sua pele era dura como uma carapaça. Em vez disso, o monstro, antes que a lança fosse ao chão, com um simples sopro, a fez desviar-se e subir, indo prender-se ao seu cabelo que de tão sebento, era por demais pegajoso.

Continua...
Postar um comentário