quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A INENARRÁVEL HISTÓRIA DO CAVALEIRO LEONARDO CABEÇA DE DRAGÃO, Uma aventura medieval




CAVALEIRO LEONARDO E UMA INTRIGANTE
AVENTURA ALÉM DO VALE DISTANTE

I

O ogro de pés tortos e cabelos pegajosos


Leonardo, convicto devoto de São Jorge e destemido cavaleiro do exército de Carlos Magno, rei dos Francos e imperador do Ocidente, meteu-se em inesperada aventura. Devido a uma forte nevasca, perdera-se de sua tropa quando da volta de uma das Cruzadas a fim de libertar a cidade sagrada de Jerusalém.

Seguindo sua intuição, o cavaleiro seguiu para o Norte, na companhia do vento; do sol e da chuva e após muito cavalgar e passar por desertos e montanhas, avistou ao longe uma alongada depressão; e, que, se não se enganava a sua visão e o seu coração, com certeza seria um vale suspenso.

Chegou um pouco mais perto e pode perceber que não se enganara. Dali mesmo de onde estava podia ver um vale grandioso. Esporeou o cavalo para ir mais depressa. Depois de tantos dias perdido, seria bom encontrar um lugar de descanso. Todavia, apesar do cansaço e da pressa em chegar, não escapara ao jovem cavaleiro, a estranha beleza do lugar. Tudo ali lembrava um quadro muito bem pintado; uma fina, porém excêntrica, obra de arte, executada com perfeição por um irascível mestre-pintor.

O céu apresentava uma forte tonalidade azul-esverdeada, enquanto a natureza explodia em delirantes efeitos de cor. Porém, mesmo encantado com a beleza do lugar, logo a noite viria e ele não queria ser surpreendido pela escuridão; além do quê estava com fome, com sede e bastante cansado. Queria, o quanto antes, encontrar um local seguro de descanso. Haveria uma aldeia, um castelo por dentro do vale, certamente, mas era tão extenso e não encontraria nada, apesar do esforço, antes do cair da noite.

O sol já se punha. Leonardo viu-se obrigado a desmontar e parar ali mesmo. Tirou o elmo e o escudo, desembainhou a espada e colocou-os juntos às outras armas presas à sela de Borak, o Brilhante, que, resfolegando, bateu com uma das patas no chão, numa espécie de queixa.

Leonardo, solidário, acariciou-lhe a cabeça e as orelhas lhe dizendo baixinho: “É amigo... fomos surpreendidos com a súbita chegada da noite e agora o único jeito é esperarmos aqui mesmo pelo amanhecer. Mas, a lua, lá do alto, está de vigília, nos guardando, nada há de acontecer. Vamos comer; beber e descansar que o tempo depressa passará. Amanhã será um novo dia...”

Assim o jovem pegou o pequeno farnel que continha uma garrafinha dourada com água do rio Jordão (segundo as crenças, excelente elixir revigorante, que fazia milagres) algumas frutas recolhidas ao longo do caminho e também carne defumada; queijo e alguns pães, já apresentando em parte uma boa camada de mofo. Sentou-se no chão e após arrumá-los sob um pano, de forma desajeitada, dividiu com Borak a refeição.

Sondou por instantes a erma escuridão; nada... Nenhum barulho. De repente um rumor, de asas e eis que uma velha e feia coruja veio pousar no galho de uma árvore muito alta, próxima a Borak. O cavalo não se importou e ela tampouco. Ficou ali, quieta, à vontade num espaço que era seu por direito. Afinal, eram eles os intrusos.

Leonardo ficou intrigado com aquela visita inesperada?! Nem tanto assim, mas havia muitas outras árvores... Por que então pousar ali, tão perto deles? Observou-a por uns momentos, mas desistiu assim que ela lhe devolveu o olhar com a mesma intensidade. Perturbou-se. A curiosidade não era um privilégio apenas dos humanos.

Quando se preparava para deitar-se num amontoado de folhas que lhe serviria de leito, a coruja piou e tal o fez por mais duas vezes. Borak farejou o ar e pôs-se a relinchar. Algo, mas, algo ruim, muito ruim estava perto de acontecer.

Leonardo levantou-se e pegando o escudo, puxou da bainha a espada Claralua, segurando-a com as duas mãos, e atento ao barulho ensurdecedor que se aproximava vindo das profundezas da floresta, largou a espada e optou pelo “chucho”, a lança menor, talvez mais apropriada para a ocasião; pois fosse o que fosse, bicho, monstro ou assombração, ao passar por ele, não escaparia ileso.

Continua...

    
Postar um comentário