sábado, 12 de fevereiro de 2011

A INENARRÁVEL HISTÓRIA DO CAVALEIRO LEONARDO CABEÇA DE DRAGÃO, Uma aventura medieval PARTE II



Leonardo não se surpreendeu ao ver o cavalo se aproximar e depois de colocar o escudo e o elmo para proteger-se, pegou o porrete e após ouvir novas ameaças do ogro, correu para ele, disposto a combatê-lo e a derrotá-lo. Mas, o porrete também ficou preso aos cabelos do monstro e o mesmo se deu, sucessivamente, ao flagelo e a espada. Finalmente, só restava ao cavaleiro montar o cavalo e partir para cima do ogro com a comprida lança de torneio e ele assim o fez. Mas Leonardo, ao posicionar a lança, perdeu o equilíbrio e foi ao chão, sem nada poder fazer para deter a fatal corrida de Borak rumo à perdição. Para o seu crescente furor o cavalo prendeu-se aos cabelos extremamente pegajosos da odiosa criatura e por mais que se debatesse deles, não conseguiu desprender-se.

Leonardo fez um rápido exame de si e de toda aquela situação. Não deixaria levar-se pela ira... Despojado de suas armas, Leonardo percebeu que o único jeito de enfrentar o monstro, seria num combate corpo a corpo e, determinado, lhe disse: “Ogro, ao entrar nesta floresta da qual tu és um fiel guardião deixei de fazer certas considerações; mas, não acho que deva pagar por isso até o fim de meus dias. As armas para serem poderosas ou mortais dependem do braço que as sustém e da mente que as governa; a causa primeira, aquela que não vemos, precede a causa segunda, à que concretiza o fato. Portanto ogro, mais do que em armas confio Naquele que nos criou e nos sustenta, a mim e a ti, e com a força da fé que Nele deposito, hei de te enfrentar com minhas próprias mãos e te reduzirei a um punhado de pó. O vazio da inexistência é o que te restará.”

Então, o cavaleiro sem cavalo; o guerreiro, sem armas, munido apenas com a força da fé e da coragem, avançou para o ogro e soltando um grito lhe aplicou um violento soco com a mão direita, todavia, sua mão prendeu-se aos cabelos do ogro; tentou mais vez, com a mão esquerda, mas sua outra mão prendeu-se aos cabelos do ogro. Em seguida, usou o pé direito e não vendo resultado, usou o pé esquerdo. Por fim, usou a cabeça, mas esta ficou presa ao cabelo pegajoso.

Leonardo reconheceu enfim que caíra em uma armadilha. Suspenso no corpo do monstro, ele, assim como Borak, não podia se soltar, mas, apesar da dificuldade o jovem não ficou amedrontado. Porém, o ogro, por sua vez, pensou: ‘Eis aqui um nobre de alma e coração; ele, ao enfrentar-me dessa forma deu-me provas de que não é um homem comum. Sua fúria tem a clareza da lua e a energia propulsora que emana das profundezas da terra; a sabedoria do dragão. Embora ainda não o saiba, o jovem cavaleiro está fadado à grandeza. Não posso matá-lo, não posso comê-lo; nem a ele, nem a sua montaria, posto que ele, não teme morrer... Por que será?’.

A fim de satisfazer sua curiosidade, o ogro perguntou a Leonardo:

“Jovem cavaleiro, em todo este tempo em que protejo a floresta, jamais me apareceu alguém como tu. Vejo que nem o medo da morte é capaz de deter-te. Responda-me, rapaz, por que, assim como todos os mortais; não a receias, ao vê-la aproximar-se de ti?”

“Ora, ogro, porque deveria eu temê-la? Na vida, apenas a morte é a nossa única certeza. Viver é se preparar para morrer. Agora quanto a ti, monstro, receio que não penses da mesma forma. Se, entretanto, temes a morte dar-te-ei um conselho; evitas me comer, pois, trago dentro de mim uma arma, uma arma bastante indigesta. Saiba ogro, que, em minha barriga há um relâmpago. Se me comeres o relâmpago te será fatal. Ele te fará em pedaços, e, num abrir/fechar do olho, no caso aqui, do teu olho, estarás morto.”

“Neste caso, cavaleiro, morreremos os dois.”

“Sim, ogro, tens razão. Morreremos os dois, mas como eu já te disse o medo da morte não me detêm.”
 
O ogro, ao contrário de Leonardo, tinha pavor da morte e lá consigo, ponderou: “Está muito claro para mim, que meu estômago, jamais, seria capaz de digerir um pedaço sequer deste leão em forma humana, mesmo que ele fosse do tamanho de um caroço de feijão. Melhor será deixá-lo partir.”

O ogro libertou Leonardo e seu cavalo, devolvendo-lhe também as armas. Mal sabia o ogro que pelo simples encontro com o jovem ele próprio fora transformado e ansiando por algo que ainda não sabia definir, pediu a Leonardo que o perdoasse e seguisse em paz a sua jornada.

O ogro voltou às profundezas escuras da floresta sentindo uma estranha paz e o que se soube dele depois é que como guardião, tornou-se um pouco mais paciente, agindo sempre com cuidado quando o assunto eram os seres sob sua tutela e os “buscadores” que se aventuravam a entrar e a sair dali. Eis que aqui o ogro abandona a nossa história pra não mais voltar.

Continuar... 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A INENARRÁVEL HISTÓRIA DO CAVALEIRO LEONARDO CABEÇA DE DRAGÃO, Uma aventura medieval - PARTE I



Sob a luz da lua, Leonardo viu surgir a sua frente um enorme e negro javali, que, furioso, corria em sua direção. Prontamente, por instinto, antes que aquela fera se achegasse mais, ele jogou a lança que, certeira, foi direto ao coração. O javali caiu morto aos seus pés e um silêncio mortal se abateu sobre a escuridão da floresta. Alguma coisa lhe dizia que aquilo ainda não havia terminado.


Retirou o “chucho” e abaixou-se para examinar o pobre animal. Ficou muito entristecido e nem se apercebeu que, no galho da árvore mais alta, ao lado de Borak, a feia coruja tomava as feições de um homem velho, de pequena estatura, de barbas brancas e longas. Vestia-se com um manto azul, ondulante, cingido à cintura por uma grossa faixa amarela e sobre a cabeça, um chapéu, em forma de cone, enfeitado por um vistoso penacho.

Ainda sentado no galho da árvore, o homenzinho certificou-se, após examinar o escudo e a espada, de ter encontrado aquele que tanto procurara, mas, o javali morto seria uma perigosa fonte de problema... Será que o jovem cavaleiro estava mesmo preparado? Bem, só havia uma forma de saber: enfrentar o quanto antes, aquilo que haveria de vir.

Decidido, o homenzinho pulou do galho, passou tranqüilamente por Borak e aproximou-se do atônito cavaleiro: “Vejo que a tua surpresa é maior que a tua ignorância.”  
                     
Leonardo virou-se para ver quem lhe falava: “De onde viestes; homenzinho inconveniente. Não era de meu desejo que as coisas fossem assim. Nunca matei nada desnecessariamente em toda minha vida e de repente, sem quê nem pra quê, me surge esse javali furioso. Agi por instinto de defesa e não por maldade. Deves levar em conta o fato de que se defender de uma ameaça é um direito que cabe a todos.”

“Calma, cavaleiro... não estou lhe julgando. Sim, certamente, defender-se é um direito comum a todos, seja lá homem ou bicho”. Disse o homenzinho. “O javali também te considerou uma ameaça uma vez que invadistes a floresta sem a devida permissão... ele estava apenas se defendendo.” 

“Fui atacado por primeiro e depois sempre há um perdedor”. Rebateu Leonardo. “Em minha ‘ignorância’ não sabia que a floresta tinha um dono! A quem, deveria eu pedir permissão?”

“Não estás a cobrar consciência a um animal?! Estás?! A floresta não tem um dono, mas sim um guardião. Um ogro gigantesco e mal-humorado de corpo peludo e cabelos desgrenhados, olhos vesgos, dentes tortos e verdes. Têm os pés voltados pra trás para enganar e perseguir a quem vem aqui somente para destruir.”

“Já disse que não vim para destruir. Sou Leonardo, um cavaleiro; um cavaleiro da paz a serviço do imperador Carlos Magno. Perdi-me, não sei onde estou, mas sei para onde vou.”

“Sei quem és; de onde vens e para onde vais... mas, o ogro talvez não o saiba e dessa forma não te deixe sair. Por causa dele muitos já se perderam no Vale. Mataste a sua principal criatura, pois, como guardião da floresta é em cima deste javali que ele costuma percorrê-la. Agora o javali está morto e ele não tardará a cobrar vingança. Apesar de todas as evidências, se passares pelo ogro saberei, com certeza, que será a ti a quem devo servir de guia.”
     
Antes que o homenzinho acabasse de falar, o ar impregnou-se de um cheiro nauseante, como de corpos em decomposição. Um grito aterrador; sobrenatural, que parecia vir de toda parte e ao mesmo tempo, de parte alguma, assustou e espantou para longe a vida escondida que por ventura, ainda dormisse por ali.

O homenzinho olhou ao redor e outra vez sob a forma de coruja, voltou rapidamente para o galho, no alto da árvore. Borak, dilatou as narinas e nervosamente relinchou, levantando, vezes repetidas, as patas dianteiras que ao descerem batiam com violência no chão. Leonardo permaneceu perto do animal morto, mas saiu da posição vulnerável em que se encontrava e ficou de pé, com o escudo pendente ao pescoço e a pequena lança bem segura em sua mão.

Foi aí então, que das sombras, uma figura medonha saiu e parou diante dele. A lua, que teimava em lançar seus raios de prata através das frestas que abria na neblina, iluminando a copa das árvores, permitiu ao cavaleiro ter da impressionante criatura uma detalhada visão: o monstro era como tal e qual lhe havia descrito o mago: alto, como a mais alta das árvores; o corpo coberto de pêlos e uma vasta e comprida cabeleira, hirta e vermelha. Os olhos, dois poços de negra escuridão e a bocarra mostrava dentes tortos, pontiagudos e cheios de limo. Pés e mãos, totalmente voltados para trás. Assim que viu o javali, morto, perto do jovem Leonardo, o ogro continuou a emitir seus gritos lancinantes, cada vez mais altos, quase insuportáveis de se ouvirem. Num encontro tão inesperado como este, no coração de uma floresta desconhecida; cheia de fantásticos terrores, o sangue congelaria nas veias de qualquer um, mas não nas veias do bravo e gentil cavaleiro, que se manteve firme encarando o monstro.

“Pelo ato vil de matar o que não vais comer”, vociferou o ogro “daqui dessa floreta não sairás. Pouco me importa de onde vens ou para onde vais; pouco me importa quem sejas tu ou saber o que fazes aqui. Desta noite em diante serás meu prisioneiro; subirei em tuas costas e, de ti e de teu cavalo, farei montaria”.

Leonardo nem pestanejou, estava confiante, pois dentro de si, no fundo de seu coração, ressoava uma voz doce, calma e gentil, assim a coragem não lhe faltou e ele não vacilou quando respondeu ao ser apavorante: “É meu dever seguir adiante. Se algum mal eu cometi, foi por defesa e não por premeditação. A única culpa que, talvez, me caiba, seja a culpa da ignorância, uma vez que agi como um descuidado ao penetrar a floresta sem pedir licença. Mas, agora que tudo está consumado e não posso voltar atrás, nada, nem tu; irás me deter. Nem eu, nem meu cavalo te serviremos de montaria e nem aqui, hoje ou para sempre, me manterás prisioneiro. Mato-te; e com a mesma lança com que matei o teu javali.”

“E existirá; desgraçado, eu te pergunto algo neste mundo que seja mais abominável que a ignorância?” Replicou o ogro. “O ignorante perde a si mesmo e também aos outros.”

“Concordo contigo, mas esta tolice que cometi talvez já estivesse predestinada a acontecer. Não detenho todo o conhecimento, entretanto, possuo saber o bastante para me defender, além do quê tenho as minhas armas. Por isso te digo, sai da minha frente.”

“Falas com arrogância”. Disse o ogro, pondo-se a alguns metros de distância. “Pois saibas, ó tolo cavaleiro... que, daqui; não hás de passar...”

Borak e a velha coruja se mexeram, ansiosos, mas não saíram do lugar e Leonardo, vendo-se ameaçado pelo ogro, não encontrando mais qualquer outra solução, agachou-se; preparou-se e com mão firme, atirou a lança em sua direção. Entretanto, a lança ricocheteou em seu peito, mas não o penetrou; nem mesmo sequer o feriu de raspão, pois sua pele era dura como uma carapaça. Em vez disso, o monstro, antes que a lança fosse ao chão, com um simples sopro, a fez desviar-se e subir, indo prender-se ao seu cabelo que de tão sebento, era por demais pegajoso.

Continua...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A INENARRÁVEL HISTÓRIA DO CAVALEIRO LEONARDO CABEÇA DE DRAGÃO, Uma aventura medieval




CAVALEIRO LEONARDO E UMA INTRIGANTE
AVENTURA ALÉM DO VALE DISTANTE

I

O ogro de pés tortos e cabelos pegajosos


Leonardo, convicto devoto de São Jorge e destemido cavaleiro do exército de Carlos Magno, rei dos Francos e imperador do Ocidente, meteu-se em inesperada aventura. Devido a uma forte nevasca, perdera-se de sua tropa quando da volta de uma das Cruzadas a fim de libertar a cidade sagrada de Jerusalém.

Seguindo sua intuição, o cavaleiro seguiu para o Norte, na companhia do vento; do sol e da chuva e após muito cavalgar e passar por desertos e montanhas, avistou ao longe uma alongada depressão; e, que, se não se enganava a sua visão e o seu coração, com certeza seria um vale suspenso.

Chegou um pouco mais perto e pode perceber que não se enganara. Dali mesmo de onde estava podia ver um vale grandioso. Esporeou o cavalo para ir mais depressa. Depois de tantos dias perdido, seria bom encontrar um lugar de descanso. Todavia, apesar do cansaço e da pressa em chegar, não escapara ao jovem cavaleiro, a estranha beleza do lugar. Tudo ali lembrava um quadro muito bem pintado; uma fina, porém excêntrica, obra de arte, executada com perfeição por um irascível mestre-pintor.

O céu apresentava uma forte tonalidade azul-esverdeada, enquanto a natureza explodia em delirantes efeitos de cor. Porém, mesmo encantado com a beleza do lugar, logo a noite viria e ele não queria ser surpreendido pela escuridão; além do quê estava com fome, com sede e bastante cansado. Queria, o quanto antes, encontrar um local seguro de descanso. Haveria uma aldeia, um castelo por dentro do vale, certamente, mas era tão extenso e não encontraria nada, apesar do esforço, antes do cair da noite.

O sol já se punha. Leonardo viu-se obrigado a desmontar e parar ali mesmo. Tirou o elmo e o escudo, desembainhou a espada e colocou-os juntos às outras armas presas à sela de Borak, o Brilhante, que, resfolegando, bateu com uma das patas no chão, numa espécie de queixa.

Leonardo, solidário, acariciou-lhe a cabeça e as orelhas lhe dizendo baixinho: “É amigo... fomos surpreendidos com a súbita chegada da noite e agora o único jeito é esperarmos aqui mesmo pelo amanhecer. Mas, a lua, lá do alto, está de vigília, nos guardando, nada há de acontecer. Vamos comer; beber e descansar que o tempo depressa passará. Amanhã será um novo dia...”

Assim o jovem pegou o pequeno farnel que continha uma garrafinha dourada com água do rio Jordão (segundo as crenças, excelente elixir revigorante, que fazia milagres) algumas frutas recolhidas ao longo do caminho e também carne defumada; queijo e alguns pães, já apresentando em parte uma boa camada de mofo. Sentou-se no chão e após arrumá-los sob um pano, de forma desajeitada, dividiu com Borak a refeição.

Sondou por instantes a erma escuridão; nada... Nenhum barulho. De repente um rumor, de asas e eis que uma velha e feia coruja veio pousar no galho de uma árvore muito alta, próxima a Borak. O cavalo não se importou e ela tampouco. Ficou ali, quieta, à vontade num espaço que era seu por direito. Afinal, eram eles os intrusos.

Leonardo ficou intrigado com aquela visita inesperada?! Nem tanto assim, mas havia muitas outras árvores... Por que então pousar ali, tão perto deles? Observou-a por uns momentos, mas desistiu assim que ela lhe devolveu o olhar com a mesma intensidade. Perturbou-se. A curiosidade não era um privilégio apenas dos humanos.

Quando se preparava para deitar-se num amontoado de folhas que lhe serviria de leito, a coruja piou e tal o fez por mais duas vezes. Borak farejou o ar e pôs-se a relinchar. Algo, mas, algo ruim, muito ruim estava perto de acontecer.

Leonardo levantou-se e pegando o escudo, puxou da bainha a espada Claralua, segurando-a com as duas mãos, e atento ao barulho ensurdecedor que se aproximava vindo das profundezas da floresta, largou a espada e optou pelo “chucho”, a lança menor, talvez mais apropriada para a ocasião; pois fosse o que fosse, bicho, monstro ou assombração, ao passar por ele, não escaparia ileso.

Continua...