sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

PRIMAVERA NO MORRO


 
      Naquela manhã Tomás estava particularmente desanimado. O tempo passava muito rápido e ele precisava tomar uma decisão. Tentando organizar seus pensamentos, foi para a parte mais alta do morro e sentou-se à beira do abismo. O lugar, apesar de perigoso, é bastante agradável; lá, se tem a nítida sensação de que se pode tocar o céu. De repente, Tomás percebe que é primavera e uma alegria imensa inunda o seu coração, (é bom saber que ainda tem um coração.)
         Flores de todos os jeitos e tamanhos sobem e descem a encosta do morro, até os barracos estão tomados por elas. Havia se esquecido que esta é a sua estação predileta. Quem via tanta beleza espalhar-se como confete, não acreditaria que o morro, a cidade, o país, são como um esgoto a céu aberto, cheio de ratos e baratas. É triste ver como eles dominam tudo, contaminando e matando o que estiver ao seu alcance. Porém, ratos e baratas podem ser exterminados, embora, neste momento, isso pareça algo quase impossível de acontecer. Eles proliferaram tanto, adquiriram um poder tão grande; que ninguém mais sabe o que fazer. Enquanto a solução não vem, os monstros riem... e como riem... mas, a tragédia maior mesmo de tudo isso, reside no fato de ratos e baratas não se reconhecerem como tais; olham-se no espelho todo dia e mesmo assim não conseguem perceber o quão são sujos e feios. Apesar de ambos viverem em constante pé de guerra, de vez em quando, (como acontece em qualquer outra guerra), as baratas cooperam com os ratos e os ratos cooperam com as baratas, considerando isso, entre eles, um comportamento perfeitamente normal. 
         Na briga pelo poder, morro e periferia são sempre as partes mais visadas, já que ratos e baratas vivem dizendo que nestes lugares só mora gente pobre e ignorante, gente que sofre e sente medo e que por isso se deixa mais facilmente envolver. Todavia, nos bairros elegantes da cidade as coisas não são diferentes. É que lá, uma névoa densa de ilusão engana a mente, os olhos e o coração, aí você pensa que tudo é mais limpo e mais bonito. No final, somente escombros restarão e quem pagará a conta de tudo isso? Gerações inteiras com o futuro comprometido por uma espécie de mutação da qual está cada vez mais difícil fugir. Cedo ou tarde a mutação acontece e alguém acaba se transformando em um dos dois; rato ou barata, ou ainda qualquer outro tipo de bicho asqueroso. Não tem essa de rico, pobre. Entretanto, há um tipo de mutação que de tão fantástica, é tida como conto de fadas e dela, quase não se ouve falar. Tomás acredita em contos de fadas e acha que é neles que está a sua salvação, mas por onde começar?
         O rapaz pensa em seu pai que morreu, não faz muito tempo. Sente tanta saudade que quase nada o consola, por isso ainda reluta em voltar para casa. Escuta alguém chamá-lo e imediatamente procura o intrometido... Ah... É Pingo, seu melhor amigo. Ele, infelizmente, já começou a dar os primeiros sinais da mudança; um desejo exagerado de ter o que não pode e a raiva incontida de se sentir excluído. Largou a escola e agora “só pensa em se dar bem.” Tomás não quer seguir o mesmo caminho do amigo, mas as circunstâncias fazem-no vacilar; mesmo assim, Pingo é seu irmãozinho do peito. Tomás lhe sorri e num segundo o menino está ao seu lado.
         “Te assustei, mano?” Diz Pingo, sentando-se ao lado de Tomás.
         “Pensou que fosse quem?” 
         “Aí Pingo; tudo bem?...”
         “Ó Tomás, te trouxe uma coisa; coisa boa. Presente de Dom Ratão.”
         Então, Pingo tira de dentro de um saco plástico um revolver de grosso calibre; munição e outras coisinhas.
         “Malandro, o negócio é o seguinte. Tem uma parada aí e Dom Ratão qué que tu participe. Ele acha que no futuro tu vai dá um bom patrão. Tu tá garantido e por tabela, teu maninho aqui tá também.”  
         Tomás lança um olhar desinteressado para o ‘presente.’
         “Já não te disse Pingo, que eu não quero saber disso. Eu quero é ser escritor.”
         “Pô, acorda Tomás; qual é...! Desde quando ser escritor aqui nesse país enche barriga. Depois, ninguém entende mermo nada daquilo que tu escreve. Olha ao redor, mano. Onde é que tu vai encontrar essa chance que tu tanto procura? Quem é que vai te dar essa chance? Acorda, pô. Vivendo aqui nessa miséria, nosso destino já tá traçado des’da barriga de nossa mãe. Num temo escapatória, não." 
         “Tu é que tens que olhar ao redor, Pingo. Temos escapatória, sim. Eu não acredito que as coisas devam ser desse modo. Olha! É primavera! Tudo e todas as coisas se cobrem de flores. Até nos lugares mais feios e fedorentos elas vão deixando seu rastro de perfeição. Se quiseres, tu podes continuar sendo o Pingo; o Pingo de ouro; o Pingo d’água...; Tu me perguntas onde é que eu vou encontrar uma chance? Quem é que vai me dar uma chance? Ora, eu mesmo vou me dar esta chance. É uma questão de escolha. Se quiseres, tu podes continuar sendo o Pingo; Pingo de ouro; o Pingo d’água...”  
         “O Pingo de merda. É, Tomás,  teu papo é muito bonito, mas comigo num funciona não. Odeio, mano, sentir a barriga doendo de fome; odeio num ter dinheiro pra comprar o que eu quero; odeio ver minha mãe se acabando de tanto trabalhar; odeio ver ela se humilhar por um pedaço de pão. Só recebo esmolas e disso, não tô afim não. Esses são apenas alguns dos motivos que me faz odiar tanto. Mas, só posso falar de mim. O mal cresce e se espalha e quando a gente vai ver, ó... é tarde demais; parece um polvo de tantos braços que têm...; braços que te alcançam e te envolve onde tu tiver e depois que te pega, ó, já era... Duvido se soltar. O amor que sinto, apesar de grande e forte, num conta muito na minha vida para me salvar. Só tenho tu mano e minha velha mãe, as únicas pessoas com quem me importo e que sei, se importa comigo, mas vocês num pode me salvar não. Eu tô perdido. Talvez, mais do que vontade pra mudar, me falte capacidade. Sabe Tomás, quem acredita no mal tá de caso com ele, é dele pra sempre. Meu ódio num vai acabar é nunca, é mais fácil ele acabar comigo, mas e aí...? Num posso fazer nada. É...é primavera... e eu com isso? Pra mim, tanto faz como tanto fez. Entra estação; sai estação e a minha vida é a mesma. A tua verdade não é a minha verdade.  Num quero saber de flores. O meu negócio é outro. É braço armado e dinheiro no bolso. Mas olha; vou de te contar uma coisa que aconteceu hoje. Tu vai acreditar e vai gostar de ouvir, porque tu gosta mermo é de fantasia. Acho que é por isso que tu num brinca no carnaval. Nessa tua cabeça é carnaval o ano inteiro. Mas, sabe hoje fui obrigado a te dar um pouco de razão. Tem coisa que acontece, que, às vezes, por mais que se procure uma explicação, tu num encontra. Se outro tivesse me contado... Mas, não. Eu vi. Vi com os meus próprios olhos. Num que é que nasceu uma roseira bem na porta de Dom Ratão? Como é que pode? E na roseira tinha uma rosa, uma rosa bem bonita. Dom Ratão invocou e esmagou a rosa, mas, no mesmo instante, outra brotou. Pra lá de irritado, o grande rato pegou a tesoura e cortou a planta ao meio. Mano, assim que ele fez isso, ela cresceu de novo, bem na cara dele, e ainda com mais galhos do que antes; precisava ver, era galho pra tudo quanto era lado, tudo cheio de rosas... Aí, é que ele ficou furioso; tava assustado, mas também furioso e aí quis arrancar a roseira. Tu pensa mano, que adiantou de alguma coisa. As raízes eram tão fundas, que nem homens mais fortes do que ele conseguiram sequer arredá, um pouquinho que fosse, a roseira esquisita do seu lugar.”         
         Tomás achou a história maravilhosa e de repente, sentiu saudades de sua casa, de seus livros e de sua mãe. Sentiu o cheiro do café da tarde, pois apesar de serem pobres, e às vezes, quase não terem nada para comer, o café,  ela nunca deixou faltar. Tomá-lo, era como um ritual; um ritual antigo de purificação. Quanto tempo estava fora de casa? Sua alma se encolheu de vergonha. Rapidamente, Tomás apanha o presente de Dom Ratão e se levanta,  sob o lusco-fusco examina-o por um momento, então sorri. Pingo também se levanta, desconfiado. Tomás põe tudo de volta no saco e se aproxima um pouco mais do precipício. 
         “Tu estás vendo, Pingo. Essa história que tu acabastes de me contar só reforça a minha decisão. Eu te garanto amigo, não vou ser rato e nem barata. Vivi muito tempo à beira do abismo, mas eu não vou cair. Não vou deixar que me empurrem e nem me lançar nele propositalmente. Vou atrás de minha oportunidade. E já sei por onde começar. O meu talento é a minha salvação. Não sou um prisioneiro e as saídas existem sim, estão por aí... A primavera vem para todos e hoje, ela veio para mim também. Percebi que estou desperdiçando minhas oportunidades. Uma flor desabrochou dentro do meu peito; uma flor de  pétalas enormes; e muito perfumada.”
         “Oportunidade!? Onde?! Tá brincando?!” Disse Pingo com um sorriso largo que mostrava todos os dentes, ainda bons.
         “A questão, Pingo, na maior parte das vezes, não é se perdi ou não tive oportunidades, mas sim, eu as vi?”      
         Sem pestanejar, Tomás lançou o saco para as profundezas do abismo, na queda, que aos olhos de Pingo duraram uma eternidade, ele se abriu, deixando cair tudo o que estava dentro.
         “Pô, Tomás, pra quê que tu fez isso? O que é que eu vou dizer pro homem?”     
         “Sei lá, Pingo. Fala o que tu quiseres. Fala a verdade.” 
        “Tu sabe muito bem que se eu falar a verdade, eles te pegam e eu num quero viver com esse remorso”....
         “Talvez tu tenhas até razão Pingo, mas e daí... Quem sabe, se quando vierem atrás de mim eu já não esteja longe. Adeus Pingo; te cuida. Nossas vidas se separam aqui. Se um dia, mudares de idéia e teu modo de ver o mundo, me procura.”    
         “Vou me cuidar. E tomara mano, tomara que pra ti seja assim como tu diz. Quanto a mim, considero não somente uma batalha, mas a guerra inteira perdida. O mal tem raízes tão fundas quanto à roseira de Dom Ratão. Eu num fiz o que devia sê feito e o momento certo pra isso já passou. 
         “Isso, amigo”, disse Tomás, “é só porque tu queres.”
          O jovem achou estranho, porém simbólico, dizer adeus aos pés de um precipício. Jamais se esqueceria dessa tarde de primavera, nem da escolha feita por seu amigo Pingo. O Pingo que podia ser de ouro; O Pingo que podia ser tão brilhante e transparente como um Pingo d’água, e que preferiu ser um Pingo de m.... sua mutação não demoraria a acontecer, logo ele seria um rato poderoso ou apenas, um rato morto, mais um entre tantos.
          Tomás procura não pensar muito na tristeza dessa situação. Está a caminho de casa, entretanto, antes, vira num dos becos. Precisa ver a tal roseira. Sorrateiramente, aproxima-se da porta da casa de dois pisos de Dom Ratão. As ferramentas ainda estão espalhadas pelo chão, sinal de que Dom Ratão ainda não desistiu. Ele deve voltar a qualquer momento. Melhor se apressar. Tomás estende a mão e colhe uma rosa. É para sua mãe. Ela ficará contente de saber que existe uma flor que nunca morre. Presente bem diferente daquele que lhe enviara Dom Ratão.
         O jovem prende a flor em sua cintura e novamente, segue para casa. Mas desta vez, leva a certeza de que tudo será diferente. Corre, Tomás, senão o café esfria. Dentro do barraco a mãe, sempre à espera, recebe o filho com um beijo na testa.
         Tomás e Pingo nunca souberam, mas o saco com o seu conteúdo maldito fora parar dentro de um canteiro que crescia ao lado de um bueiro.
         Dom Ratão, após tentar várias vezes, desistiu de esmagar as rosas ou de arrancar a roseira que, sem explicação, viera nascer à sua porta num dia de primavera.





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