segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O REI DOS PÁSSAROS




O Rei dos Pássaros

A história de uma jornada fabulosa

por
Virgínia Allan


Nota

Texto baseado no livro A Linguagem dos Pássaros (Mantic Uttair); de Farid ud-Din Attar; Obra traduzida para o português por Álvaro de Souza Machado e Sérgio Rizek a partir da versão integral em persa e francês de Garcin de Tassy, Imprimerie Impériale, Paris, 1863; comparada a outras versões. Attar Editorial; São Paulo.


           Soberana, a confusão instalou-se no país dos pássaros.
          Então, foi convocada uma assembléia geral, onde eles decidiram partir em busca de seu rei, o lendário Simorgh 1, cujo reino ficava muito além do monte Káf 2, a magnífica montanha que circunda a Terra. Para lá chegar é preciso atravessar o mundo, passando por sete vales, cujos nomes, causam pavor aos viajantes, mas, guiados pela Poupa, os pássaros seguem adiante. Muitos são os perigos e deveras longa a jornada.
         Dos milhões de pássaros que partiram apenas trinta chegaram ao seu destino; apenas trinta, chegaram à presença do rei.
         Cansados e envelhecidos, após tão penosa aventura, os pássaros, finalmente, contemplam, extasiados, a beleza purificada de seus próprios rostos.



 ***


         Anna ouvia aquele pássaro toda manhã. Costumava vir, o passarim, junto com o sol a pousar no galho mais baixo da gigantesca árvore de ipê amarelo que se erguia ao pé da cerca de sua casa. Ficava lá, quietinho no galho, enquanto o sol fazia sua entrada triunfal pela janela aberta do quarto. Era um pequeno e estranho pássaro, com um leve abano de penas na cabeça, asas cintilantes e multicores; jamais visto antes por aquelas bandas.
         Anna nunca sabia se quem ou o quê a acordava eram o beijo morno do sol ou o canto mágico do pássaro, um canto tão lindo, porém, incompreensível, mas, era só escutá-lo que a menina, no mesmo instante, dava de ombros e afastava para longe os pensamentos e os lençóis, pulando da cama e correndo ansiosamente em direção à janela.  
         “O que estará a dizer o pássaro em sua canção?” Perguntava-se, e, entre suspiros, continuava imersa em seus pensamentos “quisera, ao menos um pouco, poder entendê-lo.”   
         Certa manhã Anna teve seu desejo atendido e ouviu nitidamente o pássaro lhe dizer: “Acorda menina, faz-se tarde. Vem comigo atravessar os sete vales, conhecer a morada do rei dos pássaros.”
         Anna sobressaltou-se, pois, de repente, viu-se abrir um mundo novo a sua frente aonde as barreiras que costumam separar os seres viventes eram praticamente inexistentes. Desfaziam-se, diante de seus olhos as cortinas de ilusão que costumam enganar a alma e o coração.
         “O rei dos pássaros...? Quem é o rei dos pássaros? Onde ele vive, onde se esconde? Não é somente uma lenda a sua existência?” Quis saber a menina, ainda intrigada com o pássaro que falava. “Bem... Lenda ou não”, disse ela então, “eu sei que este reino maravilhoso fica a léguas e léguas de distância de lugar nenhum, mais além do pensamento, mais além do que se é possível imaginar e, que, para lá chegar é necessário passar por sete vales de beleza e de pavor; sete vales de infortúnios: O Vale da Busca, O Vale do Amor, O Vale do Conhecimento, O Vale da Independência, O Vale da Unidade, O Vale da Estupefação, e, por último, aquele que nos parece mais assustador, causa de temor; repulsa e dor, o Vale da Morte. Nem a viagem ao país da canção, que fica atrás das verdes montanhas, às margens do rio dos sonhos, seria mais distante ou mais aterrorizante.”
         “Escuta menina”, disse o pássaro, “na solidão de uma noite escura, o rei-pássaro percorreu os céus da China e eis que uma de suas penas caiu ao chão. Desde então, aquele que ouviu dela falar imaginou um desenho que tomou como verdadeiro em seu coração, portanto, não é por acaso que sempre se diz: Busca o conhecimento, nem que seja na China. Mas, com o passar do tempo, o homem foi dominado pelo esquecimento. Quanto mais crescia, quanto mais evoluía, mais se esquecia de si mesmo. O desenho impresso em seu coração está, agora, quase apagado, portanto, distante ou não, comigo deves vir para que eles se recordem do porquê de estarem aqui... Vem, chamemos todas as crianças e todas as criaturas e sigamos pela estrada afora, atrás do reino mágico em que habita o rei dos pássaros. Sou o guia ideal, acredites, pois trago comigo, como emblema, a coroa da verdade e conheço bem os caminhos que nos levarão direto ao nosso destino.”
         Anna, então, não perguntou mais nada, pois a certeza em seu coração fez morada, aí, ela pulou a janela e seguiu o pássaro que abriu as asas e riscando o céu, partiu, num vôo baixo e ligeiro.
         Pelo caminho, Anna quase pisou numa folha aonde uma aranha teceu a sua teia e a qual viera prender-se uma mosca distraída. Sem pressa, a aranha preparava-se para saborear a sua refeição quando viu Anna passar de olho pregado no céu.
         “Aonde vais; menina, e por que olhas tanto para o céu? Por pouco não me esmagastes em tua distração...”
         “Sigo o pássaro de belas asas; de vôo baixo e ligeiro que me levará até a morada do rei dos pássaros que fica além dos sete vales...”
         “O rei dos pássaros?” Gemeu a mosca, “Ó, liberte-me dona aranha que eu quero conhecê-lo também. Afinal, não sou eu quase um pássaro?!”
         “Quase um pássaro... Você?! uma mosca de nada...?! Só porque podes voar?! Que pretensão!... Não chegarás muito longe com as tuas asinhas... Ainda mais à morada do rei dos pássaros... São sete estradas a percorrer. Ora, não me amoles... não passas de ração de aranha. Por outro lado, quisera eu também chegar ao rei dos pássaros do qual fala a bendita lenda. Talvez pudesse tecer para ele um lindo manto com meus fios de seda e prata...”
         “Sim, sim dona aranha”, falou a mosca entusiasmada, “partamos com a menina que segue o pássaro de belas asas e vôo baixo e ligeiro; partamos com eles pelos sete caminhos que estão para além do horizonte.”
         Assim, lá se foram Anna, a mosca e dona aranha, que aproveitou e chamou a sua vizinha, a abelhinha, que por sua vez, chamou a formiguinha que chamou a cigarra e o feliz beija-flor.
         Pelo caminho, às margens de um rio de águas cantantes onde viviam três peixinhos dourados, encontraram um Martim-pescador, um rato e uma rã, estes dois últimos, por insistência do rato, haviam acabado de jurar eterna amizade; assim como também o gato e o cachorro, que, como sempre, estavam a discutir...
         “Ei, aonde vão com tanta pressa?” Perguntaram em coro ao ver a pequena caravana de viajantes.
         “Seguimos o pássaro de belas asas e vôo baixo e ligeiro que nos levará até a morada do rei dos pássaros que fica além dos sete vales; das sete estradas; dos sete caminhos... Venham... venham conosco.”
         “Humm...” disse o cachorro, rosnando, “não sei não. Bem que eu gostaria de conhecer o rei dos pássaros, já ouvi muito dele falar, mas dizem que ele mora no alto do monte Káf... a lendária montanha que circunda a terra... huumm... não... não é o monte Káf... é o monte Meru....! não, não, não... é o monte Olimpo?!... não... não... é no alto do Himalaia?!.... hummm, não.. não... não... ah... sei que é um desses montes inacessíveis à maioria dos mortais e que para lá se chegar é preciso, antes, atravessar sete vales de perdição ou serão sete estradas?! ... não... não... são  sete lagos?!... huummm... ou serão sete oceanos?... Humm... Não sei... De qualquer forma é preciso atravessar o mundo inteiro e são tantos os perigos?...”
         “O monte certo também não sabemos, disseram em coro os três peixinhos, porém, certamente não são sete estradas, nem sete vales ou sete oceanos; são sete rios...”
         “Nada disso... estão todos enganados... nada de atravessar sete rios, sete vales, sete oceanos ou sete caminhos... para se alcançar a morada do rei dos pássaros é preciso percorrer os sete céus”; disse cheio de marra, o Martim-pescador, “e quanto a vocês, peixinhos”, continuou ele, quero ver valentia e combate é na longa jornada em busca do rei dos pássaros!”
         “Somos nós três irmãos amigos dedicados e de muita coragem que juntos combatemos e assim para sempre viveremos. É nosso desejo empreender a jornada em busca da morada do rei dos pássaros.”
         “Miauuu...” disse o gato lambendo o pêlo e as patas... “Valentia e combate são dois requisitos muito necessários... que importa se são sete céus; sete rios, sete estradas; sete oceanos ou sete vales a percorrer...?! ou se a morada do rei-pássaro fica no alto do monte Káf, do monte Olimpo, do monte Meru ou em cima do Himalaia ou qualquer outro monte inacessível?!” e voltando-se para o cachorro... “Ora, seu cão medroso! O que temos a perder? É preciso empreender a jornada... comecemos já.”
           “E tu amiga, o que achas?” Perguntou o rato à rã; “vou aonde tu fores... Se decidires ir até a morada do lendário rei dos pássaros; eu te seguirei!”
         “Então vamos...” disse a rã “e para que jamais nos separemos, amarremos um na perna do outro, este fio de barbante.”
         Assim fizeram o rato e a rã, e o que muitos julgaram uma imprudência eles tomaram como sinal de amor. Mas a saparia que cantava num brejo ali perto e há muito desejava um rei, achou boa a idéia da viagem e pulando e coaxando, juntaram-se aos viajantes.
         Eis que, de súbito, para surpresa de todos, da copa de uma árvore na beira da estrada, desce o orgulhoso gavião, que, há dias, espreitava o rato e a rã.
         “Esperem, esperem que eu também vou”; disse ele, muito afoito. 
         Mais adiante, os viajantes encontraram a tartaruga e o coelho que estavam a apostar uma corrida, o curioso bem-te-vi, e o folgado urubu, tocador de viola, que, de inicio, pensou que haveria outra festa no céu, mas, aí, quando soube a verdade, todo contente, enfiou a viola no saco.
         Na varanda de uma casa pequenina, um casal de idosos se deleitava com a paisagem, mergulhados em lembranças de dias que há muito haviam ficado para trás. A recordação era o seu orar constante, mas ao ver passar caravana e ao saber ao certo o seu destino, o casal deixou a casinha e lá se foi, pois encontrar o rei dos pássaros era um sonho de juventude que, como tantos outros, havia ficado perdido pelo caminho.
         Depois de um certo tempo os andarilhos encontraram a vaca, o boi, o cavalo, o burro e o homem, trabalhando arduamente no campo.
         “Ei... aonde vão?” Perguntou o homem ao ver a já não mais tão pequena e diversificada caravana.
         “Vamos em busca do rei dos pássaros cuja morada fica no mais alto dos montes e para isso seguimos o pássaro de belas asas e vôo baixo e ligeiro!” Disse Anna.
         “O rei dos pássaros?!” Espantou-se o homem, pondo a mão na cabeça, “que sonho distante... Dizem que para se chegar a sua morada é preciso atravessar sete cidades... ou serão sete montanhas...? Tu, ó pássaro de belas asas e vôo baixo e ligeiro, tu, que tanto viajaste e que conheces todos os segredos, podemos mesmo acreditar na existência de um rei-pássaro? E que terras são estas; tão difíceis em se alcançar? Pelo que sei somente tu, estiveste lá.”
         “Homem, é bom duvidar mas não é bom na dúvida permanecer. O rei-pássaro é um rei para todos e só ele tem todas as respostas”. Disse o pássaro de belas asas, pousando no ombro de Anna.
         “Nos reuniremos então a vocês e seguiremos juntos para o mesmo destino. Nem que para isso seja preciso atravessar sete cidades ou sete montanhas...”
         “Se o anseio é verdadeiro, sigamos sim, juntos, pelo mesmo caminho.”
         “Muuu...” fizeram a vaca e o boi; parecendo concordar, o cavalo relinchou e o burro zurrou.
         O homem imediatamente abandonou o campo e o trabalho pesado e o mesmo fez a vaca, o burro, o cavalo e o boi e livres de pás, cangas e arreios, juntaram-se à caravana. Porém, antes que partissem surgiu detrás de uma pedra uma serpente, que, escondida, ouviu toda a conversa.
         “Ei, ei... me esperem... eu também quero ir. Não perderei a oportunidade de viajar ao fabuloso reino do rei-pássaro que dizem se encontrar no fim dos sete horizontes ou será das sete colinas?”
         No caminho encontraram um pastor de ovelhas, que entretido, tocava flauta. Ao ver a multidão e saber o seu destino quis ir também e prontamente tocou o rebanho. Mas, no meio do rebanho havia um lobo em pele de cordeiro que dela logo se desfez, assim que começaram a caminhar.
         Perto da floresta da Solidão, encontraram o leão, o tigre e o elefante, empenhados em uma luta voraz de vida e morte. Rei da floresta só podia haver um, entretanto, mal ouviram aonde todos iam, deixaram as desavenças e seguiram lado a lado, embora soubessem que teriam que atravessar sete florestas; sete horizontes, sete cidades; sete montanhas; sete céus, sete vales, sete mares; sete rios, sete estradas, sete colinas...
         Um jardim bem cuidado e uma casa singela e uma moça donzela de voz bonita e suave deteve os viajantes, que embevecidos, olhavam um pedaço do paraíso.
         “Aonde vão, gentis viajantes? Para onde se dirigem com tanta alegria?” Quis saber a donzela.
         “Vamos atrás da morada do rei dos pássaros, que fica na mais alta das montanhas, além das sete cidades; das sete estradas, dos sete céus; dos sete oceanos; dos sete horizontes; dos sete vales; dos sete rios; das sete florestas, das sete colinas...” respondeu-lhe o homem, cujo coração, por causa dela, encheu-se de encanto.
         “Oh... então é verdade... é mesmo possível alcançar a morada do rei dos pássaros?” Disse a moça, sonhadora; pensando na força e na majestade daquele rei. Mas, passado o primeiro momento de entusiasmo, percebeu o quão longa e perigosa seria essa jornada e apesar da aparente boa vontade, justificou-se, dando uma desculpa para não se comprometer.
         “Vejam, eu tenho uma voz tão bela que quem me ouve me compara ao rouxinol. Meu canto desvenda os mistérios do amor, devolvendo felicidade a um coração partido. Possuo um jardim onde cultivo uma rosa rara que encanta os meus dias, pois suas pétalas macias me induzem à paixão e sem paixão eu nada sou. Não posso abandoná-la. Morrerei se não puder mais vê-la. Almejar as terras do infinito está aquém de minhas forças. Só penso na minha bela rosa e, ai, ela só pensa em mim.”
         Anna, após ouvir o discurso, não se conteve: “Moça, sabemos que perseguimos o impossível, mas, e tu? Que só se preocupa apenas com aquilo que podes ver? Se quiseres, fica para trás. Mas, lembra-te que a beleza de tua querida rosa poucos dias durará e logo a tua também se dissipará. Almejas a perfeição? Por que então prender-se a um amor tão fugaz e mesquinho?”
          Ao longe, um rouxinol cantou e a moça cantou de volta como dando uma resposta e em seguida, segurou a mão que o homem lhe estendia e juntos foram atravessar as sete cidades; sete vales; sete oceanos; sete florestas; sete rios; sete céus, sete horizontes; sete estradas, sete jardins, sete colinas... em busca da morada do rei dos pássaros que ficava na mais alta montanha do mundo.    
         A caravana crescia a cada instante. Uma longa fila, cujo começo e fim não se podia definir, se estendia por todo o comprido caminho.
        Passaram pelo grande deserto, o maior de todos que existe sobre a face da terra. À sombra de um oásis um camelo e um dervixe haviam parado para um descanso. Em sua vigília, o dervixe quase adormeceu, pois estava cansado demais e ainda tinha sete desertos para atravessar, mas foi acordado pela voz ruidosa do camelo que dançou sem parar ao ver a caravana chegar.
         Agora, todo tipo de ser participava dessa jornada em busca do rei dos pássaros e nada os detinha, fosse chuva constante ou sol escaldante, fosse a neve fria ou o vento violento; tinham muitas perguntas a fazer e muitos assuntos a resolver; cada ser, conforme a sua natureza, ia pensando no tão ansiado encontro. Que rosto o rei-pássaro haveria de ter?    

Continua...



1Simorgh: Em persa, significa trinta pássaros.
2Káf: Lendária cadeia de montanhas que circunda a terra, limitando os dois horizontes. Representa também, em essência, o eixo fixo em torno do qual ocorre a revolução de todas as coisas. (A Linguagem dos Pássaros; Farid ud-Din Attar; Attar Editorial.)
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