quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O REI DOS PÁSSAROS PARTE I

         

     Um papagaio revoou sobre eles e uma graciosa criança, toda vestida de verde, corria desesperada, tentando alcançá-lo. Cantava para isso uma velha cantiga, querendo atraí-lo através de mimos:

“Papagaio loro de bico adoçado
Papagaio loro de bico dourado
Vem comigo e um colar de ouro
Haverá de enfeitar-te o pescoço!”

         Anna admirou-se de tão bela ave e perguntou-lhe: “Como estás, ó papagaio? Diga-me loro: Quem te adoçou o bico e pintou tuas penas?”
         E o papagaio: “Como eu poderia estar? Fugi ligeiro de uma gaiola de ouro mal encontrei a porta aberta, pois cativo era do olhar de uma donzela. Ela me adoçou o bico e pintou minhas penas... e eu a amei demais e embora tenha amado sem ser amado; esta sina me pertence e que ninguém mais diga ou repita: ´pobre papagaio descontente’.”  
        Anna sorriu ao ouvir tão boa resposta, mas então a criança vestida de verde que vinha encalço da ave, perguntou-lhe: Aonde vão?”
         “Vamos ao encontro do rei dos pássaros, cuja morada fica na mais alta das montanhas, além dos sete vales; dos sete mares; das sete estradas; das sete florestas; das sete cidades; dos sete desertos; dos sete rios; dos sete oceanos; dos sete céus, dos sete vales, dos sete horizontes, dos sete jardins...”  
         “Ah... Quisera poder seguir com vocês... tanto eu quanto minha bela ave sofremos com o assédio dos homens, disse o menino vestido de verde. Homens vis, pouco confiáveis, também me prenderam numa gaiola com barras de ferro. Desejo ser livre outra vez e partir em busca da fonte da imortalidade guardada pelo ‘jovem verdejante.’ Eu, tal como ele; me visto de verde posto que represento a imortalidade de todas as crianças. A fonte do ‘verdejante’ já me satisfaz. Nada sou. Como posso pensar em alcançar a morada do rei-pássaro? Não tenho forças suficientes para isso.” 
         “Tu não conheces, criança, a felicidade!” Disse o pássaro de belas asas ao menino vestido de verde. “Queres a água da imortalidade, porém, não sabes que a vida nos foi dada para que possamos, mesmo que por um instante, ter um amigo de valor. Abandona esta ilusão e, com sinceridade, vai, em busca da verdadeira fonte.”
         A caravana prosseguiu, cheia de entusiasmo, passando pelos mais inacessíveis caminhos, encontrando toda sorte de dificuldades.
         Em uma bela planície, onde erguia-se um magnífico palácio, o sol mergulhava na tranqüilidade de um espelho d’água e um pavão real ao ver a multidão aproximar-se, abriu a cauda em leque, virando-se de um lado para o outro, mostrando em suas penas, as cores da perfeição, tentando desviar dessa maneira a atenção de sobre seus pés, que como todos sabem, são feios demais. De repente, pôs-se a falar: “Sumam, sumam, sumam todos, pois o príncipe há de chegar e gente assim encontrar ele não há de gostar. Toquem as trombetas, rufem os tambores... pois, logo, logo o príncipe há de chegar e bravo há de ficar.”
         O pavão fez tamanho estardalhaço que, não demorou, de dentro do palácio, surgiu um jovem, belo como o dia, de nariz empinado e ricas vestes coloridas, um príncipe entre os príncipes, que confiante em sua aparência, deixava sua vaidade e orgulho, bem evidentes. “O que se passa pavão real, por que este barulho infernal?”  
         E o pavão real, ainda aflito: “É a caravana multicor, que unida passa, em busca da morada do rei dos pássaros.”
         “Mas que bela e diversificada multidão...!” Disse o jovem príncipe: “Pára que tanta agitação? Por acaso vão a uma festa? Se vão, já que estão em minhas terras, espero ser convidado, pois o tédio, semente de todo o mal, já me abala e não me contenho nas falas.”
         “Se assim o desejares, meu jovem, bem vindo és em tão distinta companhia.” Exclamou o pássaro de belas asas. “Vamos à busca da morada do rei dos pássaros e alegres, perseguimos os sete vales; os sete mares; os sete horizontes; as sete estradas; os sete rios, os sete céus, as sete florestas, os sete desertos, as sete cidades, as sete fontes, os sete jardins...” 
         “Como podem ver” disse o príncipe “fui abençoado com a beleza e a riqueza, mas, mesmo sendo eu um anjo entre as criaturas e o meu palácio a mais luminosa das habitações, constrange-me a inveja dos viventes. Não fiz boas amizades e, por este motivo, fui exilado de meu lar. Sinto falta de meu país, onde a luz brilha muito mais do que em qualquer outro lugar, porém, a esperança de dias melhores e de que para lá logo hei de voltar é o que me mantêm. Seria pretensão de minha parte alcançar a morada do rei-pássaro. Já será bastante bom, se, ao menos, eu conseguir chegar até a sua porta. O encontro com ele não é a minha maior aspiração. À volta ao lar paterno, sim, é o que mais quero.”  
         “Ah... Não posso deixar de te dizer que desistes muito fácil do caminho certo” disse o pássaro de belas asas, agitado, ao rebater a mais uma vã desculpa. “A casa em que habita o rei-pássaro é maravilhosa e nem se compara com o lar do qual foste exilado. Quando podes ter tudo, por que buscas apenas uma parte? A perfeição considera o todo, portanto, escolhe o todo e sê o todo.”
         O jovem, belo como o dia, pôs então o pavão debaixo do braço e abandonou o luminoso palácio.
         À beira de um rio caudaloso, encontraram patos de imaculadas penas brancas e crianças brincando; mães preocupadas, ocupadas em preparar-lhes a refeição, felizes por seus esposos, que há dias haviam partido em um barco até onde o rio encontra o mar a fim de pescar, mas que acabavam de chegar.
         Os pescadores já comemoravam a proveitosa pescaria, quando se depararam com a ruidosa multidão. Aí, os patos pararam de nadar; as crianças de brincar e as mulheres de cozinhar; todos, mudos de espanto. Passado um primeiro instante, os pescadores puseram-se a perguntar.
         “Aonde vão? Que assombrosa multidão? Há de ser um evento muito importante? Desses que acontecem uma vez a cada mil anos. Então, aonde se destina tão harmoniosa confraria?”
         “Nosso destino é a morada do rei dos pássaros”, disse Anna, “e pretendemos alcançá-la nem que para isso tenhamos que atravessar sete vales; sete mares, sete céus, sete rios, sete planícies, sete horizontes, sete fontes, sete jardins, sete florestas, sete estradas, sete cidades, sete desertos...”  
         “Puxa, é mesmo penosa a jornada até a morada do rei dos pássaros”. Disse o mais velho dos pescadores, que, um pouco trêmulo, continuou falar à assembléia: “Vejam... Nosso mundo é feito de água. Dela retiramos o alimento e nela mergulhamos a nossa dor. Nossa alma é tão alva e pura quanto a neve. Não gostamos de lugares secos. Então me digam, como podemos deixar nosso lar perfeito? A vida veio da água, tudo o que vive, vive pela água e em alguns lugares há sofrimento por sua escassez. Como pode, seres como nós, pensarmos em deixá-la? Estamos satisfeitos. Não queremos cruzar vales; mares, montanhas, fontes, estradas, florestas, desertos, horizontes, rios, planícies, ou, seja lá o que for, para ver o rei dos pássaros.”            
         Anna, para aquele argumento, tinha a resposta na ponta da língua: “Sabemos o valor da água, porém, vocês estão rodeados por ela como se estivessem rodeados pelo fogo. A água é o seu mundo, mas, se sobrevêm uma onda, vocês são varridos por ela sem piedade. A água é para aqueles que não têm o rosto limpo. Se assim é como se sentem fazem muito bem em buscar a água, entretanto, iludem-se ao pensar de que puro como a água, para sempre, hão de ficar.”
         Assim, somando-se a multidão, lá se foram os patos de imaculadas penas brancas, as crianças, as mulheres e os seus respectivos esposos, buscar a morada do rei dos pássaros.
         Das ruínas de uma cidade, onde um homem escavava sem parar, uma perdiz, assustada com o tumulto que se seguiu, empreendeu um vôo incerto. Curioso, o homem, adornado por pedras preciosas de todas as cores, aproximou-se cambaleando como que em estado de embriagues: “Aonde vão todos com espírito festivo?”
         “Vamos à busca da morada do rei dos pássaros” Disse a multidão em uníssono.
         “Ah... Quisera eu poder ir também, mas, não posso... Gosto das ruínas e amo a beleza e o colorido das pedras preciosas. Elas iluminam o meu coração e me fazem imensamente feliz. Estou entre a inação e a perplexidade. O amor pelas pedras é eterno e ele ata-me à montanha. Para mim, não há outros amores. Conheço bem as montanhas e a pedras preciosas e ainda não encontrei nenhuma essência que se igualasse ou fosse superior a elas. O caminho até o rei dos pássaros é difícil e eu estou com meus pés atados às pedrarias como se estivesse atolado em lama. Elas são minha vida. Não posso chegar diante desse rei com as mãos na cabeça e os pés cobertos de lama. Mesmo que atravesse os sete rios, as sete fontes, os sete mares, mesmo assim eles ainda estariam sujos de lama, pois a água doce e salgada se misturaria à poeira dos sete jardins, dos sete horizontes, das sete cidades, das sete estradas, das sete florestas, dos sete desertos, dos sete vales, dos sete céus, das sete planícies?”
         Disse-lhe então o pássaro de belas asas, que, lá do alto escutou a sua queixa: “Todos nós não passamos de poeira ao vento. Criaturas de água e pó, entremeadas com partículas de luz. A lama não pode deter-te. Lava os teus pés, ainda que ela volte a grudar em tua pele. Mal consegues andar por causa de teu apego a estas pedras. Procuras por pedras coloridas a que chamas de jóias, mas na verdade, se não fossem pelas cores, não passariam de pedregulhos. Teu coração é tão duro quanto às pedras. Desperta a tua essência, esta sim, jóia real de qualidade mais que perfeita e põe-te logo conosco, a caminho.”

Continua...
Postar um comentário