sábado, 22 de janeiro de 2011

O REI DOS PÁSSAROS PARTE FINAL


     

Simorgh ( a miraculous bird) and Son by Atousa

Zal-va- Simorgh




        De súbito, uma sombra estendeu-se sobre os viajantes. O Grifo, um ser com cabeça e asas de águia e corpo de leão, cuja majestade era como a de mil soberanos, pousou diante da assembléia e assim falou: “Não sou um qualquer. Dentre todos os seres sou o mais afortunado. Até minha sombra possuí poder, pois, sobre quem ela desce torna-se rei. Desagrada-me aquele, cuja índole é de mendigo. Sou, talvez, a mais ambiciosa das criaturas e para satisfazê-la afastei-me de todos, dominando, por fim, o feroz cão do desejo. Como vêem, estou em posição elevada e todos buscam abrigo sob minha sombra na esperança de obter vantagem. Se eu sou tão nobre assim, para que partiria em busca de uma amizade, que apesar de real, me é completamente incerta?”
         “Teu orgulho te impede de ver que não passas de uma sombra”, disse-lhe Anna “e que importância tem uma sombra? Desde já, não podes mais conferir majestade a ninguém. Mesmo que todos os reis do Universo estivessem sentados em seus tronos por causa de tua sombra, logo, todos eles, cairiam em desgraça.”
         A jornada continuou e na fronteira de um país que vivia para a guerra, havia um soldado que era o preferido do rei. Ao ver a multidão se aproximando, emitiu um agudo assobio e eis que um belíssimo falcão veio pousar em seu braço. O soldado, então, retirou o capuz que lhe cobria a cabeça, e um rosto duro e arrogante, bastante orgulhoso de sua linhagem, disse-lhes sem usar de meias palavras: “Aonde vão...? Não pensam em atravessar a fronteira sem levantarem suspeitas. Certamente, carregam consigo, avisos ao inimigo.” 
         “Ora, nossa viagem é de reencontro; cultivamos a paz e o amor e, embora nem sempre seja possível, tentamos poupar-nos a dor, a guerra e o desafio. Vamos à busca da morada do rei dos pássaros e precisamos atravessar a fronteira...”
         “Quem, em sã consciência, atravessaria sete fronteiras a buscar um lugar de sonhos que só se encontra na imaginação ou no coração dos homens? O rei dos pássaros, se ele realmente existe, deve ter mais do que se ocupar do que convocar simples mortais a partirem em sua procura. Eu vivo na companhia de reis e nela me deleito. Não dou a mínima atenção às outras criaturas, não me importo com elas. Fui educado para dar o melhor de mim. Nunca pensei, nem em sonhos, deixar a corte e empreender uma viagem ao fim do mundo a troco de nada”.
         O pássaro de belas asas respondeu ao orgulhoso vigilante: “Não te diz respeito às qualidades que realmente importam, já que te apegas à forma. Tua sensibilidade corresponde somente com o exterior das coisas. Apenas o pássaro-rei é digno da verdadeira realeza. Não é rei aquele que exerce tolamente sua vontade, ou, abraçado a uma coroa, pensa que governa. Delicada é a posição daquele que vive perto do rei, uma vez que há sempre o receio de o desagradar Um rei mundano é como o fogo; digo-te portanto, mantêm-te distante”.          
         A caravana, ao passar pela vazia linha do mar e a laguna, avistou uma garça e um jovem que estava a cantar um lamentoso canto. Parou um instante e, curioso, perguntou: “Aonde vão, alegres viajantes...?”
         “Vamos a busca da morada do rei dos pássaros”. Disse Anna, “nem que para isso precisemos atravessar sete vales, sete mares, montanhas, sete jardins, sete rios, sete estradas, sete fontes, sete cidades, sete florestas, sete desertos, sete fronteiras, sete planícies, sete horizontes, sete céus...”
         “Sei... puxa, que dura e longa caminhada... disse o jovem, que parecia acabrunhado, distante do mundo. “Não me animo, não... Aqui, entre a vazia linha do mar e da laguna, fico a remoer a minha miséria e ninguém ouve o meu lamento. Sou como a amiga garça, muito inofensiva. Não há queixas sobre mim. Passo meus dias, pensativo, triste e melancólico. Amo o mar, e, dele, morro de ciúme. Esta paixão me é suficiente. Ela me consome. Peço que me perdoem, mas não posso juntar-me a vocês nessa árdua empreitada. É impossível a um ser como eu, que só deseja uma gota do oceano, a união com o rei dos pássaros.”        
         “Tu amas o oceano, porém ignoras a sua natureza!”.  Respondeu o pássaro de belas asas. “Morada de tubarões e muitas outras criaturas perigosas, suas águas são salgadas e de destino incerto. Ora vêem, ora vão sempre inconstantes; ora calmas, ora turbulentas. Sob elas grandes abismos, feito gargantas famintas, se abrem e se escondem, engolindo homens e embarcações. Seu redemoinho é apavorante e cansativa (e tantas vezes inútil) é a luta do nadador para não se afogar. Tu o amas, mas ele não te ama. Se não te afastares, acabarás por te afogar neste mar de amor não correspondido. És convidado agora a participar da glória de um Amigo; recusas o convite?!”.
         Uma coruja que, distraidamente, passava por ali, assim falou: “Meu lar é uma casa arruinada. É tão velha que não demorará a cair. Sou fraco e só me sinto bem entre as ruínas. Nelas, longe das desavenças dos homens, minha mente fica tranqüila e segura. Evito os lugares habitados, onde problemas e confusões misturam-se à discórdia e ao ódio. Habito as ruínas, pois foi o amor que lá me levou. As ruínas ocultam tesouros inimagináveis. Acalento a esperança, de um dia, tropeçar num tesouro que não esteja protegido por um talismã! Este é o maior desejo de meu coração. Acredito firmemente na existência do rei-pássaro. Seu reino longínquo não é mera fábula. Entretanto, eu sou fraco e desfaleço só de pensar na grandeza de seu amor, um amor que não pode ser experimentado por insensatos. Não abandonarei as ruínas e tampouco os tesouros que nelas se ocultam”.
         Anna, já um tanto impaciente, disse-lhe: “Iludes-te facilmente com esse amor que tens pela riqueza. Mesmo que tu encontrasses um vasto tesouro, secarias tua vida sobre ele sem ter alcançado o nobre objetivo para o qual foste criado.”
         A caravana, cada vez mais comprida, continuou seguindo seu sonho. Numa pequena aldeia, no alto de um velho campanário, uma tímida; meiga e trêmula pombinha viu a caravana se aproximar, Anna então, perguntou-lhe: “Olá, pombinha branca, o que estás fazendo?”
         “Estou à espera de meu amor... Um cravo me enfeita a cabeça, para que ele me reconheça e não passe ao léu. Esta é a igrejinha, esta é a torrinha. Dia de semana, mal vejo alguém, hoje é domingo, dia de missa, isso me deixa contente, ver tão grande quantidade de gente, porém, não me convidem a acompanhá-los, pois só de vê-los já sinto horrores, eis-me aqui, abatida e sem forças e não tenho meios nem para me sustentar. Distante dos parentes e dos amigos, ninguém olha por mim. Não tenho riquezas e além do mais, sou frágil feito a formiga. Ai... Sou tão pobre e desamparada...! Como posso partir em busca das afamadas terras do lendário rei dos pássaros? E se, por ventura, eu conseguisse alcançá-las viraria cinza diante de seu olhar, pois segredo não é para ninguém que nosso rei possui a beleza e o esplendor do sol. Sei que muitos no mundo almejam esta união, mas, eu não posso. Também não quero fazer uma viagem tão arriscada em busca do impossível. E se meu amor chegar e eu não estiver?”.
         Anna disse a tola pombinha: “Em teu abatimento, confundes tristezas e alegrias, por isso te recusas a vir. Neste mundo não passamos de sombras; pálidas e esquálidas sombras. E qual o destino das sombras? Unirem-se ao sol. Não digas mais nada, não aceito tuas desculpas. Irás conosco sim, adiante, atravessar os sete vales; os sete mares; os sete rios, os sete horizontes, os sete desertos, os sete jardins, as sete fontes, os sete montes, as sete fronteiras, as sete florestas, as sete planícies, as sete cidades... e o que mais preciso for...”
         Durante um longo tempo, a caravana prosseguiu em sua jornada e pelo longo caminho, foram chamando a quem foram encontrando.
         Anna e o pássaro de belas asas foram respondendo o que podiam responder, rebatendo as desculpas que nunca terminavam. Então, as pessoas se enchiam de um novo ânimo e se a hesitação ainda persistia, Anna ou o pássaro de belas asas, sorriam, falavam e lhes contavam histórias. Aí, elas ouviam e percebiam a importância de descobrirem e enfrentarem as asperezas e belezas de seu próprio mundo. Decididas deixavam tudo para trás, sem pensar mais em desistir.
         Se os adultos relutavam, as crianças deixavam suas casas, correndo atrás do pássaro de belas asas. Solitárias, Anna cuidava de todas elas lembrando-lhes sempre que “tudo passa”, se, em exagero, tristeza ou alegria, deixava-as em êxtase ou em agonia. Quando isto acontecia, segredos esquecidos revelavam-se em seus corações e assim reconheciam sua relação com o rei dos pássaros. Se existia um rei tão fabuloso, belo e esplendoroso como o sol descobririam este rei, andariam por suas terras e veriam seu palácio.
         Mas, a jornada era deveras dificultosa e aos poucos, muitos foram desistindo e ficando pelo caminho, detidos por vários tipos de problemas e situações.
         No primeiro dos sete vales, o Vale da Busca, lugar de cem provações, a aranha, num momento de descanso, resolveu exercitar o seu rendado e com fios de prata teceu uma fascinante teia, tão vistosa e tão brilhante, que a mosca, curiosa, não se conteve: Primeiro, pôs uma patinha, a patinha ficou presa, depois, a segunda patinha, que também, é claro, ficou presa, e o mesmo sucedeu com as outras duas patas. A aranha, ao ver que construíra tão hábil armadilha, nem pensou em soltar outra vez a mosquinha e, como há dias quase nada comia, não resistiu e a pobre mosca engoliu. Depois da mosca, veio a formiga, a abelhinha e assim por diante...  A aranha ficou tão grande e gorda que mal podia andar, então, foi pega pelo gato que não agüentava mais a companhia do cachorro.
         O Martim-pescador não contou mais conversas e lá se foram por sua goela abaixo os três peixinhos dourados. A travessia pelo vale parecia interminável. Levaram grandes sustos e o desânimo foi aos poucos se tornando amo e senhor, embora Anna e o pássaro de belas asas não cansassem de incentivá-los.
         No segundo vale, o Vale do Amor, aquele em que não há limite, o homem trabalhador e a donzela jardineira, de voz macia e suave como a do rouxinol, perderam-se entre lágrimas, promessas e suspiros, enquanto o beija-flor, mesmo sem ver a fumaça, preocupava-se com um fogo invisível que ardia em seu interior mas que ele, enfim, achava (estava convencido disso) que provinha do lado de fora.
         A cigarra, no tronco de árvore, começou a cantar e não pode mais parar. Cantou... cantou até estourar...
         O cachorro pôs-se a perseguir o próprio rabo e afastou-se, girando em círculos.
         O lobo em pele de cordeiro, que havia se misturado às ovelhas do rebanho do pastorzinho tocador de flautas, cedendo a sua natureza de lobo, comeu as ovelhas, uma a uma, pois o pastorzinho, achando que seu rebanho estava seguro, saiu atrás de uma pequena e tímida ovelha que parara no riacho a fim de beber água. Porém, a marcha dos peregrinos, seguia, inexorável, em sua jornada. Anna entristecia-se, mas prosseguia levando pela mão apenas as crianças, firmemente concentrada no trajeto do pássaro de belas asas.
         No quarto vale, o Vale da Independência, onde a pretensão e desejo deixam de existir, o casal de idosos resolveu fixar morada, pois estavam cansados demais para prosseguir.
         O sapo, cuja perna estava presa à perna do rato, não resistiu à água de uma lagoa e nela pulou sem pensar em que aconteceria ao seu amigo. O gavião então aproveitou-se da situação, e, num vôo rápido, certeiro, agarrou os dois infelizes que, um dia, levados por pensamentos distorcidos acharam que para sempre viveriam unidos.
         Os pescadores, com suas esposas e crianças e os patos de imaculadas penas brancas, acomodaram-se perto do mar que continha dentro de si sete vezes sete mares turbulentos. O mar do lugar de onde vinham, em relação a este, não tinha nem comparação. Impossível resistir.
         A chegada ao Vale da Unidade, o quinto vale, lugar de renúncia e unificação, deixou a muitos apreensivos, pois a visão de todos, como um único ser, deixou-os além da unidade e do número, então o antes e o depois; deixou de existir.
         Porém, o elefante, o tigre e o leão voltaram a brigar. Não poderiam viver unidos, jamais...
         O soldado sentiu saudades de seu rei e não quis mais prosseguir, lamentando a tristeza da separação por toda a profundeza do vale. Ordenou que o falcão voasse para que procurasse o caminho de volta.
         No sexto vale o Vale da Estupefação, os gemidos e os lamentos são fontes de tormento, lá, o jovem príncipe e o seu animal de estimação; o orgulhoso pavão; ficaram se remoendo.
         Mas, o sétimo vale era deveras, indescritível. O Vale da pobreza e da morte, em sua essência, era esquecimento, desvanecimento; nele, as palavras deixavam de ser necessárias, já que também nada se podia ouvir. Enfim, tudo o que os rodeava principiou a desaparecer. O resto dos viajantes da caravana; deste vale, não puderam ir além.
         Anna entristeceu-se, mas prosseguiu em sua jornada, levando pela mão apenas as crianças, firmemente concentrada no trajeto do pássaro de belas asas; seguiu, foi embora, deixando tudo para trás, em busca da morada do rei dos pássaros, cuja construção não pertencia a este mundo.   
         Depois deste acontecimento, da passagem da caravana inusitada, cada lar que perdeu uma criança fez de conta que ela nunca existiu. Não compreendiam e não conheciam o caminho que elas haviam tomado, assim preferiram esquecer. E quando a lembrança, teimosamente, batia de mansinho com suas asas de pássaro na porta da memória, as pessoas sacudiam levemente seus ombros, tentando deste modo, mandar para longe os sonhos de uma noite mal-dormida, e impacientemente, retomavam os afazeres do dia.
         Às vezes, faziam perguntas para o sol, que brilhava intensamente naquele céu ainda azul, pressentindo, talvez, em seus corações que ele possuía uma resposta; mas, o sol nada lhes dizia, porque elas nunca faziam a pergunta certa e o sol guardava suas respostas para quem realmente sabia perguntar e, indiferente ao desassossego dos homens, continuava embalando pelo mundo afora, com seus raios quentes e suaves, os futuros buscadores das terras do pássaro rei.
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