domingo, 30 de janeiro de 2011

LIGHT OF THE SUFI

Metropolitan Museum of Art; 
Light of the Sufis: The Mystical Arts of Islam at the Brooklyn Museum;
“Portrait of a Sufi,”
Deccan India, 17th century.


Anseios de voar! 
Meu coração é um pássaro que se debate 
aprisionado na gaiola de carne e sangue, 
rodeado por lamentos!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

PIÁ ANDIRA, O SENHOR DOS AGOUROS TRISTES, E UMA AVENTURA EM BUSCA DO SOL



Era uma vez, há muito tempo, às margens furta-cores do rio Andirá, piá Andira, que vivia em uma crypta rochosa, perto de uma velha sumaúma. Mas, era só o sol fechar o olho amarelado e ir se deitar que piá Andira começava a se divertir, indo, primeiramente, à pescar no rio os pequenos e distraídos peixes, que, sob o luar, pareciam mais pedacinhos flutuantes de prata.
Embora piá Andira fosse um filho da noite, ele tinha um sonho e o sonho de piá Andira era ver o sol bem de perto; olhar se possível, dentro de seu olho.
“Sonho besta esse de pia Andira” dizia-lhe a lua, “Sabia, piá Andira” continuava a lua em sua cantilena, “que um dia o sol e eu já fomos gente? Nos amávamos muito, mas, nossa sina, piá Andira, é vivermos separados um do outro... ele lá e eu cá... cada um com seus respectivos filhos... e tu, piá Andira, és criatura da noite... não podes jamais mirar o sol e o sol por sua vez, mora tão longe, longe, longe... nem eu mesma sei direito onde ele se esconde; sei que é para além do horizonte, pra lá de onde o vento faz a curva, é só o que sei.”
Porém, piá Andira ouvia a mãe lua, fazia carinha de muxoxo e nem ligava. Pensativo subia para o oco da sumaúma e lá ficava esperando o sol abrir o olho, mas era fiozinho dourado brilhante de luz aparecer e pia Andira sumir para dentro da crypta. Difícil coisa ver o sol... Quem sabe se ele chegasse mais perto? Iria bater à porta de sua casa, seguiria a linha do horizonte, lá onde o vento faz a curva, como disse a mãe lua.       
Piá andira, um dia, ouviu falar de uma festa no céu... aí, teve uma ideia... foi de mansinho, à casa do urubu cantor e se enfiou dentro de sua viola. Ficou ali, escondidinho, no escurinho.
Manhã seguinte, urubu cantor pegou a viola e voou, voou até escurecer, chegar ao céu e começar a tocar.
O plin, plin da viola perturbou piá Andira que saiu num instante de dentro do instrumento... foi uma confusão...os outros bichos se assustaram com o voo rasante e às cegas de piá Andira, que havia fechado os olhos só por um momento a fim de se acostumar à luz,  e, na correria era um tal de “fecha, fecha, pega, pega, mata, mata”... coitado de piá Andira, que por sorte encontrou uma saída no cuari de uma nuvem.  
Piá Andira estava longe demais de casa, longe demais das águas do Andirá... longe demais do sol... passou o resto da noite voando, nem fome sentia e finalmente, cansado, pousou no galho de uma velha mangueira aonde, vigilante, estava uma coruja: “De onde vens e pra onde vais, morceguinho?” perguntou-lhe a coruja.
“Venho de águas do Andirá, fugi de uma festa no céu em que queriam me matar e vou agora, em busca do sol, cuja casa fica além do horizonte, lá onde o vento faz a curva, foi o que me disse a lua. Quero olhar dentro do seu olho”.
“Em busca do sol!? Como pode um morcego ter um sonho tão maluco? O sol é do dia e tu pertences à noite... Nem sabes direito o caminho que vai dar a sua casa, nem eu mesma sei onde fica... é preciso mesmo  seguir a linha do horizonte, lá onde o vento faz a curva, mas, como pretendes, com essas asinhas e esse teu voo descuidado., chegar até lá? São tentos os perigos nessa aventura... eu mesma já poderia ter te comido, a tua sorte é que estou satisfeita. Dizem que o sol um dia foi gente... Bom, chega de blá, blá, blá... já, já amanhece,  preciso descansar.”
A coruja encolheu-se no galho e piá Andira encolheu-se também, achou melhor contrariar seus hábitos e enfrentar a luz do dia. Nem bem havia amanhecido e piá Andira saiu dali.
A luz ainda doía-lhe nos olhos, pois havia tentado desesperadamente mantê-los abertos para ver o sol se levantar, e os raios queimavam-lhe a pele... Voou um tanto mais na linha do horizonte, quando deparou-se com as águas frescas de um riacho. Estava com fome e sede, resolveu parar à sombra que se estendia ao longo da margem. Enquanto comia, apareceu a onça para beber água.
 Piá Andira ficou desconfiado em ver um bicho tão grande por ali àquela hora do dia, mas a onça lhe falou: “Não se preocupe morceguinho... não vou lhe comer. Não me interessam essas asinhas fininhas e essas perninhas fraquinhas, tão magrinhas... se ainda fosses uma raposa... Aí sim... Estás perdido? Que fazes aqui a esta hora do dia?”
“Engraçado dona onça estava a me fazer a mesma pergunta sobre a senhora.”
“Ora... estive metida em uma caçada que não deu muito certo... mas, e você? De onde vens e para onde vais?”
“Venho das águas do Andirá, fugi de uma festa no céu, escapei dos gracejos de uma coruja e sigo em minha busca... vou à procura do sol, cuja morada fica além da linha do horizonte, assim me disse a lua, assim me disse a coruja”.
“Em busca do sol? Uma criatura da noite? Ai, não me faça rir... realmente estás no caminho correto, porém, a casa do sol é mais longe do que se possa imaginar... não estás nem no começo da jornada... nem eu mesma sei onde fica e depois são tantos os perigos...”
“Não importa quão longe esteja e que perigos existam pelo caminho. Eu nada temo.”
“Bravo morceguinho, louvo tua coragem, mas és como a formiguinha dentro do formigueiro tentando alcançar a lua.”
“Preciso ir” disse piá Andira “por enquanto só importa a viagem.”
“Vá, morceguinho, vá, vá... voe logo daqui e boa sorte.”
Piá Andira voou mais longe, seguindo a linha do horizonte, - onde será que o vento fazia a curva? - sem desviar um instante de seu objetivo. 
A noite caiu, a lua surgiu, as estrelas se acenderam e se apagaram... passou pelo vagalume, que, curioso, lhe perguntou de onde vinha, fugia do quê e de quem e para aonde ia, respondendo piá Andira que vinha das águas do Andirá, que fugira de uma festa no céu, dos gracejos de uma coruja e do sorriso falso de uma onça... “vou, vagalume, em busca do sol... sigo a linha do horizonte, onde o vento faz a curva... assim me disseram a lua, a coruja e a onça.”
“Siga por aqui, reto toda a vida”, disse o vagalume “e logo adiante encontrarás o vento que, ultimamente, anda um pouco lento. Pegue no seu pé ou suba em suas asas que num repente você chegará ao seu destino.”
Piá Andira voou, voou, voou... passou floresta, passou mar, passou, frio, passou fome, passou ponte, passou monte, passou chuva, chuvarada, passou pássaro, passarada... Passou, passou tempo, passou tormento... passou, passou... A noite caiu, a lua surgiu; as estrelas se acenderam e se apagaram... finalmente, piá Andira encontrou o vento, meio sonolento, fazendo hora dentro do campanário de uma igreja, brincando com os sinos, fazendo-os balançarem pra lá e pra cá, em um monótono blein, blein, blein...
Piá Andira aproveitou-se da mansidão, da frescura do vento e agarrou no seu pé e do pé, pluft, num segundo, pulou pras suas costas.
“Quem subiu em minhas costas sem pedir licença? De onde vens e para aonde pensas que vai?” Perguntou o vento, zangado.
“Eu, piá Andira, senhor dos agouros tristes, mas, que, se tornará o senhor felicidade quando encontrar o sol... Venho de águas do Andirá, fugi de uma malfadada festa no céu em que queriam me matar, escapei dos gracejos de uma coruja e das falsas intenções de uma onça e aceitei o bom conselho de um vagalume... por isso aqui estou... preciso que me leves, pois desde muito persigo a linha do horizonte onde mora o sol, assim me falaram a lua, a coruja, a onça e o vagalume... faltava apenas te encontrar para saber aonde fazes a curva... Estou cansado... minhas asas estão queimadas e minha visão prejudicada. Preciso que me leves.”
“Se este é o desejo de teu coração, prepare-se então... segure-se pequeno amigo.”
O vento, zuuuuuummm, voou na direção do oeste, rápido e certeiro como uma flecha. Passou nuvem, passou ponte, passou fonte, passou monte... passou céu, passou ar... passou mar... cruzou o espaço, estirou o tempo até alcançar a linha do horizonte... mas, quando chegou lá, bem onde faz a curva, voou com tanta ligeireza, que Piá Andira se desequilibrou e caiu... o vento nem percebeu e sumiu assobiando na curva do caminho e Piá Andira, coitadinho, foi rolando, rolando... parando, por fim, aos pés de um enorme e velho pé de jatobá,que, de tão coberto por ervas de passarinho, possuía um aspecto medonho, deveras assustador.  
“Quem és tu? De onde vens e para aonde vais?” Perguntou-lhe o velho pé de jatobá.
“Que susto me deste” disse piá Andira “que esquisita esta tua aparência... sou piá Andira, senhor dos agouros tristes, mas que ficará feliz quando encontrar o sol. Para isso persigo a linha do horizonte até bem onde o vento faz curva, onde fica a sua morada, assim me disseram a mãe lua... Venho das margens do rio Andirá; fugi de uma festa no céu aonde queriam me matar, escapei dos gracejos de uma coruja e das falsas intenções de uma onça, aceitei o conselho de um vagalume e peguei carona nas asas do vento, entretanto, lá bem onde ele faz a curva, me desequilibrei e cai... agora eis-me aqui, perdido, sozinho, se nem ter vislumbrado um fiozinho dourado da pestana do olho do sol.”      
“Hummmmmm, pequenina criatura... esquisito por esquisito tu também és. Não sei te definir... és um morcego ou um menino feio? Nunca vi nada parecido... metade uma coisa, metade outra; realmente, nada sei dizer-te sobre a morada do sol, sei apenas que estavas no rumo certo até caíres das asas do vento. Não fique triste, amiguinho. Acomode-se aí em meu tronco, deite-se em cima de minhas raízes e descanse.”
Piá Andira achou estranha a observação feita pelo velho jatobá... metade uma coisa, metade outra? Como assim? Olhou para si mesmo e viu que suas asas e garras haviam se transformado em braços e mãos; tocou o rosto e sentiu a pele fina e macia; uma pele humana... tocou as orelhas, mas as orelhas ainda eram pontudas e peludas e as pernas e os pés eram de morcego... piá Andira ficou assustado, mas estava tão cansado que deixou para depois pensar no assunto. 
Piá Andira logo adormeceu aconchegado ao tronco. A mãe lua passou por entre a copa da árvore e iluminou o menino-morcego. Suavemente, ela tomou-o em seus braços e acabou a transformação. Piá Andira era agora um belo menino.
Na manhã seguinte, piá Andira acordou com alguém a chamar-lhe pelo nome... deparou-se com um outro menino, iluminado como o sol, que lhe disse: “Tua busca terminou piá Andira... finalmente me encontraste. Olha bem dentro dos meus olhos e vês que não há mais diferenças entre nós. Eu sou tu, tu és eu. Vem comigo temos muito trabalho a fazer. De hoje em diante, pertences ao dia e ele só está a começar.”
Piá Andira, sob as bênçãos do velho pé de jatobá, segurou firme a mão que lhe era estendida e fundiu-se a luz irradiante, cada vez mais forte, que emanava do sol até sumirem ambos dentro da paisagem do cotidiano.  
E foi assim que terminou a aventura de piá Andira em busca do desejo de seu coração. Porém, quando escurecia, mãe lua olhava, saudosa, para a samaumeira onde o morceguinho costumava pousar depois de uma boa pescaria. Sentimental como ela só, derramava algumas gotas de lágrimas prateadas dentro do rio que então, imediatamente se transformavam em luminosos peixinhos.
Quanto a piá Andira, embora tenha alcançado o ponto máximo de sua jornada; ainda se lembrava de mãe lua e dos murmúrios noturnos das criaturas da noite se movimentando por dentro da mata e quando chovia forte sobre as águas furta-cores do rio Andirá, todos sabiam que era piá Andira, o sonhador menino morcego, a chorar, com saudades da mãe lua.         

sábado, 22 de janeiro de 2011

O REI DOS PÁSSAROS PARTE FINAL


     

Simorgh ( a miraculous bird) and Son by Atousa

Zal-va- Simorgh




        De súbito, uma sombra estendeu-se sobre os viajantes. O Grifo, um ser com cabeça e asas de águia e corpo de leão, cuja majestade era como a de mil soberanos, pousou diante da assembléia e assim falou: “Não sou um qualquer. Dentre todos os seres sou o mais afortunado. Até minha sombra possuí poder, pois, sobre quem ela desce torna-se rei. Desagrada-me aquele, cuja índole é de mendigo. Sou, talvez, a mais ambiciosa das criaturas e para satisfazê-la afastei-me de todos, dominando, por fim, o feroz cão do desejo. Como vêem, estou em posição elevada e todos buscam abrigo sob minha sombra na esperança de obter vantagem. Se eu sou tão nobre assim, para que partiria em busca de uma amizade, que apesar de real, me é completamente incerta?”
         “Teu orgulho te impede de ver que não passas de uma sombra”, disse-lhe Anna “e que importância tem uma sombra? Desde já, não podes mais conferir majestade a ninguém. Mesmo que todos os reis do Universo estivessem sentados em seus tronos por causa de tua sombra, logo, todos eles, cairiam em desgraça.”
         A jornada continuou e na fronteira de um país que vivia para a guerra, havia um soldado que era o preferido do rei. Ao ver a multidão se aproximando, emitiu um agudo assobio e eis que um belíssimo falcão veio pousar em seu braço. O soldado, então, retirou o capuz que lhe cobria a cabeça, e um rosto duro e arrogante, bastante orgulhoso de sua linhagem, disse-lhes sem usar de meias palavras: “Aonde vão...? Não pensam em atravessar a fronteira sem levantarem suspeitas. Certamente, carregam consigo, avisos ao inimigo.” 
         “Ora, nossa viagem é de reencontro; cultivamos a paz e o amor e, embora nem sempre seja possível, tentamos poupar-nos a dor, a guerra e o desafio. Vamos à busca da morada do rei dos pássaros e precisamos atravessar a fronteira...”
         “Quem, em sã consciência, atravessaria sete fronteiras a buscar um lugar de sonhos que só se encontra na imaginação ou no coração dos homens? O rei dos pássaros, se ele realmente existe, deve ter mais do que se ocupar do que convocar simples mortais a partirem em sua procura. Eu vivo na companhia de reis e nela me deleito. Não dou a mínima atenção às outras criaturas, não me importo com elas. Fui educado para dar o melhor de mim. Nunca pensei, nem em sonhos, deixar a corte e empreender uma viagem ao fim do mundo a troco de nada”.
         O pássaro de belas asas respondeu ao orgulhoso vigilante: “Não te diz respeito às qualidades que realmente importam, já que te apegas à forma. Tua sensibilidade corresponde somente com o exterior das coisas. Apenas o pássaro-rei é digno da verdadeira realeza. Não é rei aquele que exerce tolamente sua vontade, ou, abraçado a uma coroa, pensa que governa. Delicada é a posição daquele que vive perto do rei, uma vez que há sempre o receio de o desagradar Um rei mundano é como o fogo; digo-te portanto, mantêm-te distante”.          
         A caravana, ao passar pela vazia linha do mar e a laguna, avistou uma garça e um jovem que estava a cantar um lamentoso canto. Parou um instante e, curioso, perguntou: “Aonde vão, alegres viajantes...?”
         “Vamos a busca da morada do rei dos pássaros”. Disse Anna, “nem que para isso precisemos atravessar sete vales, sete mares, montanhas, sete jardins, sete rios, sete estradas, sete fontes, sete cidades, sete florestas, sete desertos, sete fronteiras, sete planícies, sete horizontes, sete céus...”
         “Sei... puxa, que dura e longa caminhada... disse o jovem, que parecia acabrunhado, distante do mundo. “Não me animo, não... Aqui, entre a vazia linha do mar e da laguna, fico a remoer a minha miséria e ninguém ouve o meu lamento. Sou como a amiga garça, muito inofensiva. Não há queixas sobre mim. Passo meus dias, pensativo, triste e melancólico. Amo o mar, e, dele, morro de ciúme. Esta paixão me é suficiente. Ela me consome. Peço que me perdoem, mas não posso juntar-me a vocês nessa árdua empreitada. É impossível a um ser como eu, que só deseja uma gota do oceano, a união com o rei dos pássaros.”        
         “Tu amas o oceano, porém ignoras a sua natureza!”.  Respondeu o pássaro de belas asas. “Morada de tubarões e muitas outras criaturas perigosas, suas águas são salgadas e de destino incerto. Ora vêem, ora vão sempre inconstantes; ora calmas, ora turbulentas. Sob elas grandes abismos, feito gargantas famintas, se abrem e se escondem, engolindo homens e embarcações. Seu redemoinho é apavorante e cansativa (e tantas vezes inútil) é a luta do nadador para não se afogar. Tu o amas, mas ele não te ama. Se não te afastares, acabarás por te afogar neste mar de amor não correspondido. És convidado agora a participar da glória de um Amigo; recusas o convite?!”.
         Uma coruja que, distraidamente, passava por ali, assim falou: “Meu lar é uma casa arruinada. É tão velha que não demorará a cair. Sou fraco e só me sinto bem entre as ruínas. Nelas, longe das desavenças dos homens, minha mente fica tranqüila e segura. Evito os lugares habitados, onde problemas e confusões misturam-se à discórdia e ao ódio. Habito as ruínas, pois foi o amor que lá me levou. As ruínas ocultam tesouros inimagináveis. Acalento a esperança, de um dia, tropeçar num tesouro que não esteja protegido por um talismã! Este é o maior desejo de meu coração. Acredito firmemente na existência do rei-pássaro. Seu reino longínquo não é mera fábula. Entretanto, eu sou fraco e desfaleço só de pensar na grandeza de seu amor, um amor que não pode ser experimentado por insensatos. Não abandonarei as ruínas e tampouco os tesouros que nelas se ocultam”.
         Anna, já um tanto impaciente, disse-lhe: “Iludes-te facilmente com esse amor que tens pela riqueza. Mesmo que tu encontrasses um vasto tesouro, secarias tua vida sobre ele sem ter alcançado o nobre objetivo para o qual foste criado.”
         A caravana, cada vez mais comprida, continuou seguindo seu sonho. Numa pequena aldeia, no alto de um velho campanário, uma tímida; meiga e trêmula pombinha viu a caravana se aproximar, Anna então, perguntou-lhe: “Olá, pombinha branca, o que estás fazendo?”
         “Estou à espera de meu amor... Um cravo me enfeita a cabeça, para que ele me reconheça e não passe ao léu. Esta é a igrejinha, esta é a torrinha. Dia de semana, mal vejo alguém, hoje é domingo, dia de missa, isso me deixa contente, ver tão grande quantidade de gente, porém, não me convidem a acompanhá-los, pois só de vê-los já sinto horrores, eis-me aqui, abatida e sem forças e não tenho meios nem para me sustentar. Distante dos parentes e dos amigos, ninguém olha por mim. Não tenho riquezas e além do mais, sou frágil feito a formiga. Ai... Sou tão pobre e desamparada...! Como posso partir em busca das afamadas terras do lendário rei dos pássaros? E se, por ventura, eu conseguisse alcançá-las viraria cinza diante de seu olhar, pois segredo não é para ninguém que nosso rei possui a beleza e o esplendor do sol. Sei que muitos no mundo almejam esta união, mas, eu não posso. Também não quero fazer uma viagem tão arriscada em busca do impossível. E se meu amor chegar e eu não estiver?”.
         Anna disse a tola pombinha: “Em teu abatimento, confundes tristezas e alegrias, por isso te recusas a vir. Neste mundo não passamos de sombras; pálidas e esquálidas sombras. E qual o destino das sombras? Unirem-se ao sol. Não digas mais nada, não aceito tuas desculpas. Irás conosco sim, adiante, atravessar os sete vales; os sete mares; os sete rios, os sete horizontes, os sete desertos, os sete jardins, as sete fontes, os sete montes, as sete fronteiras, as sete florestas, as sete planícies, as sete cidades... e o que mais preciso for...”
         Durante um longo tempo, a caravana prosseguiu em sua jornada e pelo longo caminho, foram chamando a quem foram encontrando.
         Anna e o pássaro de belas asas foram respondendo o que podiam responder, rebatendo as desculpas que nunca terminavam. Então, as pessoas se enchiam de um novo ânimo e se a hesitação ainda persistia, Anna ou o pássaro de belas asas, sorriam, falavam e lhes contavam histórias. Aí, elas ouviam e percebiam a importância de descobrirem e enfrentarem as asperezas e belezas de seu próprio mundo. Decididas deixavam tudo para trás, sem pensar mais em desistir.
         Se os adultos relutavam, as crianças deixavam suas casas, correndo atrás do pássaro de belas asas. Solitárias, Anna cuidava de todas elas lembrando-lhes sempre que “tudo passa”, se, em exagero, tristeza ou alegria, deixava-as em êxtase ou em agonia. Quando isto acontecia, segredos esquecidos revelavam-se em seus corações e assim reconheciam sua relação com o rei dos pássaros. Se existia um rei tão fabuloso, belo e esplendoroso como o sol descobririam este rei, andariam por suas terras e veriam seu palácio.
         Mas, a jornada era deveras dificultosa e aos poucos, muitos foram desistindo e ficando pelo caminho, detidos por vários tipos de problemas e situações.
         No primeiro dos sete vales, o Vale da Busca, lugar de cem provações, a aranha, num momento de descanso, resolveu exercitar o seu rendado e com fios de prata teceu uma fascinante teia, tão vistosa e tão brilhante, que a mosca, curiosa, não se conteve: Primeiro, pôs uma patinha, a patinha ficou presa, depois, a segunda patinha, que também, é claro, ficou presa, e o mesmo sucedeu com as outras duas patas. A aranha, ao ver que construíra tão hábil armadilha, nem pensou em soltar outra vez a mosquinha e, como há dias quase nada comia, não resistiu e a pobre mosca engoliu. Depois da mosca, veio a formiga, a abelhinha e assim por diante...  A aranha ficou tão grande e gorda que mal podia andar, então, foi pega pelo gato que não agüentava mais a companhia do cachorro.
         O Martim-pescador não contou mais conversas e lá se foram por sua goela abaixo os três peixinhos dourados. A travessia pelo vale parecia interminável. Levaram grandes sustos e o desânimo foi aos poucos se tornando amo e senhor, embora Anna e o pássaro de belas asas não cansassem de incentivá-los.
         No segundo vale, o Vale do Amor, aquele em que não há limite, o homem trabalhador e a donzela jardineira, de voz macia e suave como a do rouxinol, perderam-se entre lágrimas, promessas e suspiros, enquanto o beija-flor, mesmo sem ver a fumaça, preocupava-se com um fogo invisível que ardia em seu interior mas que ele, enfim, achava (estava convencido disso) que provinha do lado de fora.
         A cigarra, no tronco de árvore, começou a cantar e não pode mais parar. Cantou... cantou até estourar...
         O cachorro pôs-se a perseguir o próprio rabo e afastou-se, girando em círculos.
         O lobo em pele de cordeiro, que havia se misturado às ovelhas do rebanho do pastorzinho tocador de flautas, cedendo a sua natureza de lobo, comeu as ovelhas, uma a uma, pois o pastorzinho, achando que seu rebanho estava seguro, saiu atrás de uma pequena e tímida ovelha que parara no riacho a fim de beber água. Porém, a marcha dos peregrinos, seguia, inexorável, em sua jornada. Anna entristecia-se, mas prosseguia levando pela mão apenas as crianças, firmemente concentrada no trajeto do pássaro de belas asas.
         No quarto vale, o Vale da Independência, onde a pretensão e desejo deixam de existir, o casal de idosos resolveu fixar morada, pois estavam cansados demais para prosseguir.
         O sapo, cuja perna estava presa à perna do rato, não resistiu à água de uma lagoa e nela pulou sem pensar em que aconteceria ao seu amigo. O gavião então aproveitou-se da situação, e, num vôo rápido, certeiro, agarrou os dois infelizes que, um dia, levados por pensamentos distorcidos acharam que para sempre viveriam unidos.
         Os pescadores, com suas esposas e crianças e os patos de imaculadas penas brancas, acomodaram-se perto do mar que continha dentro de si sete vezes sete mares turbulentos. O mar do lugar de onde vinham, em relação a este, não tinha nem comparação. Impossível resistir.
         A chegada ao Vale da Unidade, o quinto vale, lugar de renúncia e unificação, deixou a muitos apreensivos, pois a visão de todos, como um único ser, deixou-os além da unidade e do número, então o antes e o depois; deixou de existir.
         Porém, o elefante, o tigre e o leão voltaram a brigar. Não poderiam viver unidos, jamais...
         O soldado sentiu saudades de seu rei e não quis mais prosseguir, lamentando a tristeza da separação por toda a profundeza do vale. Ordenou que o falcão voasse para que procurasse o caminho de volta.
         No sexto vale o Vale da Estupefação, os gemidos e os lamentos são fontes de tormento, lá, o jovem príncipe e o seu animal de estimação; o orgulhoso pavão; ficaram se remoendo.
         Mas, o sétimo vale era deveras, indescritível. O Vale da pobreza e da morte, em sua essência, era esquecimento, desvanecimento; nele, as palavras deixavam de ser necessárias, já que também nada se podia ouvir. Enfim, tudo o que os rodeava principiou a desaparecer. O resto dos viajantes da caravana; deste vale, não puderam ir além.
         Anna entristeceu-se, mas prosseguiu em sua jornada, levando pela mão apenas as crianças, firmemente concentrada no trajeto do pássaro de belas asas; seguiu, foi embora, deixando tudo para trás, em busca da morada do rei dos pássaros, cuja construção não pertencia a este mundo.   
         Depois deste acontecimento, da passagem da caravana inusitada, cada lar que perdeu uma criança fez de conta que ela nunca existiu. Não compreendiam e não conheciam o caminho que elas haviam tomado, assim preferiram esquecer. E quando a lembrança, teimosamente, batia de mansinho com suas asas de pássaro na porta da memória, as pessoas sacudiam levemente seus ombros, tentando deste modo, mandar para longe os sonhos de uma noite mal-dormida, e impacientemente, retomavam os afazeres do dia.
         Às vezes, faziam perguntas para o sol, que brilhava intensamente naquele céu ainda azul, pressentindo, talvez, em seus corações que ele possuía uma resposta; mas, o sol nada lhes dizia, porque elas nunca faziam a pergunta certa e o sol guardava suas respostas para quem realmente sabia perguntar e, indiferente ao desassossego dos homens, continuava embalando pelo mundo afora, com seus raios quentes e suaves, os futuros buscadores das terras do pássaro rei.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O REI DOS PÁSSAROS PARTE I

         

     Um papagaio revoou sobre eles e uma graciosa criança, toda vestida de verde, corria desesperada, tentando alcançá-lo. Cantava para isso uma velha cantiga, querendo atraí-lo através de mimos:

“Papagaio loro de bico adoçado
Papagaio loro de bico dourado
Vem comigo e um colar de ouro
Haverá de enfeitar-te o pescoço!”

         Anna admirou-se de tão bela ave e perguntou-lhe: “Como estás, ó papagaio? Diga-me loro: Quem te adoçou o bico e pintou tuas penas?”
         E o papagaio: “Como eu poderia estar? Fugi ligeiro de uma gaiola de ouro mal encontrei a porta aberta, pois cativo era do olhar de uma donzela. Ela me adoçou o bico e pintou minhas penas... e eu a amei demais e embora tenha amado sem ser amado; esta sina me pertence e que ninguém mais diga ou repita: ´pobre papagaio descontente’.”  
        Anna sorriu ao ouvir tão boa resposta, mas então a criança vestida de verde que vinha encalço da ave, perguntou-lhe: Aonde vão?”
         “Vamos ao encontro do rei dos pássaros, cuja morada fica na mais alta das montanhas, além dos sete vales; dos sete mares; das sete estradas; das sete florestas; das sete cidades; dos sete desertos; dos sete rios; dos sete oceanos; dos sete céus, dos sete vales, dos sete horizontes, dos sete jardins...”  
         “Ah... Quisera poder seguir com vocês... tanto eu quanto minha bela ave sofremos com o assédio dos homens, disse o menino vestido de verde. Homens vis, pouco confiáveis, também me prenderam numa gaiola com barras de ferro. Desejo ser livre outra vez e partir em busca da fonte da imortalidade guardada pelo ‘jovem verdejante.’ Eu, tal como ele; me visto de verde posto que represento a imortalidade de todas as crianças. A fonte do ‘verdejante’ já me satisfaz. Nada sou. Como posso pensar em alcançar a morada do rei-pássaro? Não tenho forças suficientes para isso.” 
         “Tu não conheces, criança, a felicidade!” Disse o pássaro de belas asas ao menino vestido de verde. “Queres a água da imortalidade, porém, não sabes que a vida nos foi dada para que possamos, mesmo que por um instante, ter um amigo de valor. Abandona esta ilusão e, com sinceridade, vai, em busca da verdadeira fonte.”
         A caravana prosseguiu, cheia de entusiasmo, passando pelos mais inacessíveis caminhos, encontrando toda sorte de dificuldades.
         Em uma bela planície, onde erguia-se um magnífico palácio, o sol mergulhava na tranqüilidade de um espelho d’água e um pavão real ao ver a multidão aproximar-se, abriu a cauda em leque, virando-se de um lado para o outro, mostrando em suas penas, as cores da perfeição, tentando desviar dessa maneira a atenção de sobre seus pés, que como todos sabem, são feios demais. De repente, pôs-se a falar: “Sumam, sumam, sumam todos, pois o príncipe há de chegar e gente assim encontrar ele não há de gostar. Toquem as trombetas, rufem os tambores... pois, logo, logo o príncipe há de chegar e bravo há de ficar.”
         O pavão fez tamanho estardalhaço que, não demorou, de dentro do palácio, surgiu um jovem, belo como o dia, de nariz empinado e ricas vestes coloridas, um príncipe entre os príncipes, que confiante em sua aparência, deixava sua vaidade e orgulho, bem evidentes. “O que se passa pavão real, por que este barulho infernal?”  
         E o pavão real, ainda aflito: “É a caravana multicor, que unida passa, em busca da morada do rei dos pássaros.”
         “Mas que bela e diversificada multidão...!” Disse o jovem príncipe: “Pára que tanta agitação? Por acaso vão a uma festa? Se vão, já que estão em minhas terras, espero ser convidado, pois o tédio, semente de todo o mal, já me abala e não me contenho nas falas.”
         “Se assim o desejares, meu jovem, bem vindo és em tão distinta companhia.” Exclamou o pássaro de belas asas. “Vamos à busca da morada do rei dos pássaros e alegres, perseguimos os sete vales; os sete mares; os sete horizontes; as sete estradas; os sete rios, os sete céus, as sete florestas, os sete desertos, as sete cidades, as sete fontes, os sete jardins...” 
         “Como podem ver” disse o príncipe “fui abençoado com a beleza e a riqueza, mas, mesmo sendo eu um anjo entre as criaturas e o meu palácio a mais luminosa das habitações, constrange-me a inveja dos viventes. Não fiz boas amizades e, por este motivo, fui exilado de meu lar. Sinto falta de meu país, onde a luz brilha muito mais do que em qualquer outro lugar, porém, a esperança de dias melhores e de que para lá logo hei de voltar é o que me mantêm. Seria pretensão de minha parte alcançar a morada do rei-pássaro. Já será bastante bom, se, ao menos, eu conseguir chegar até a sua porta. O encontro com ele não é a minha maior aspiração. À volta ao lar paterno, sim, é o que mais quero.”  
         “Ah... Não posso deixar de te dizer que desistes muito fácil do caminho certo” disse o pássaro de belas asas, agitado, ao rebater a mais uma vã desculpa. “A casa em que habita o rei-pássaro é maravilhosa e nem se compara com o lar do qual foste exilado. Quando podes ter tudo, por que buscas apenas uma parte? A perfeição considera o todo, portanto, escolhe o todo e sê o todo.”
         O jovem, belo como o dia, pôs então o pavão debaixo do braço e abandonou o luminoso palácio.
         À beira de um rio caudaloso, encontraram patos de imaculadas penas brancas e crianças brincando; mães preocupadas, ocupadas em preparar-lhes a refeição, felizes por seus esposos, que há dias haviam partido em um barco até onde o rio encontra o mar a fim de pescar, mas que acabavam de chegar.
         Os pescadores já comemoravam a proveitosa pescaria, quando se depararam com a ruidosa multidão. Aí, os patos pararam de nadar; as crianças de brincar e as mulheres de cozinhar; todos, mudos de espanto. Passado um primeiro instante, os pescadores puseram-se a perguntar.
         “Aonde vão? Que assombrosa multidão? Há de ser um evento muito importante? Desses que acontecem uma vez a cada mil anos. Então, aonde se destina tão harmoniosa confraria?”
         “Nosso destino é a morada do rei dos pássaros”, disse Anna, “e pretendemos alcançá-la nem que para isso tenhamos que atravessar sete vales; sete mares, sete céus, sete rios, sete planícies, sete horizontes, sete fontes, sete jardins, sete florestas, sete estradas, sete cidades, sete desertos...”  
         “Puxa, é mesmo penosa a jornada até a morada do rei dos pássaros”. Disse o mais velho dos pescadores, que, um pouco trêmulo, continuou falar à assembléia: “Vejam... Nosso mundo é feito de água. Dela retiramos o alimento e nela mergulhamos a nossa dor. Nossa alma é tão alva e pura quanto a neve. Não gostamos de lugares secos. Então me digam, como podemos deixar nosso lar perfeito? A vida veio da água, tudo o que vive, vive pela água e em alguns lugares há sofrimento por sua escassez. Como pode, seres como nós, pensarmos em deixá-la? Estamos satisfeitos. Não queremos cruzar vales; mares, montanhas, fontes, estradas, florestas, desertos, horizontes, rios, planícies, ou, seja lá o que for, para ver o rei dos pássaros.”            
         Anna, para aquele argumento, tinha a resposta na ponta da língua: “Sabemos o valor da água, porém, vocês estão rodeados por ela como se estivessem rodeados pelo fogo. A água é o seu mundo, mas, se sobrevêm uma onda, vocês são varridos por ela sem piedade. A água é para aqueles que não têm o rosto limpo. Se assim é como se sentem fazem muito bem em buscar a água, entretanto, iludem-se ao pensar de que puro como a água, para sempre, hão de ficar.”
         Assim, somando-se a multidão, lá se foram os patos de imaculadas penas brancas, as crianças, as mulheres e os seus respectivos esposos, buscar a morada do rei dos pássaros.
         Das ruínas de uma cidade, onde um homem escavava sem parar, uma perdiz, assustada com o tumulto que se seguiu, empreendeu um vôo incerto. Curioso, o homem, adornado por pedras preciosas de todas as cores, aproximou-se cambaleando como que em estado de embriagues: “Aonde vão todos com espírito festivo?”
         “Vamos à busca da morada do rei dos pássaros” Disse a multidão em uníssono.
         “Ah... Quisera eu poder ir também, mas, não posso... Gosto das ruínas e amo a beleza e o colorido das pedras preciosas. Elas iluminam o meu coração e me fazem imensamente feliz. Estou entre a inação e a perplexidade. O amor pelas pedras é eterno e ele ata-me à montanha. Para mim, não há outros amores. Conheço bem as montanhas e a pedras preciosas e ainda não encontrei nenhuma essência que se igualasse ou fosse superior a elas. O caminho até o rei dos pássaros é difícil e eu estou com meus pés atados às pedrarias como se estivesse atolado em lama. Elas são minha vida. Não posso chegar diante desse rei com as mãos na cabeça e os pés cobertos de lama. Mesmo que atravesse os sete rios, as sete fontes, os sete mares, mesmo assim eles ainda estariam sujos de lama, pois a água doce e salgada se misturaria à poeira dos sete jardins, dos sete horizontes, das sete cidades, das sete estradas, das sete florestas, dos sete desertos, dos sete vales, dos sete céus, das sete planícies?”
         Disse-lhe então o pássaro de belas asas, que, lá do alto escutou a sua queixa: “Todos nós não passamos de poeira ao vento. Criaturas de água e pó, entremeadas com partículas de luz. A lama não pode deter-te. Lava os teus pés, ainda que ela volte a grudar em tua pele. Mal consegues andar por causa de teu apego a estas pedras. Procuras por pedras coloridas a que chamas de jóias, mas na verdade, se não fossem pelas cores, não passariam de pedregulhos. Teu coração é tão duro quanto às pedras. Desperta a tua essência, esta sim, jóia real de qualidade mais que perfeita e põe-te logo conosco, a caminho.”

Continua...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O REI DOS PÁSSAROS




O Rei dos Pássaros

A história de uma jornada fabulosa

por
Virgínia Allan


Nota

Texto baseado no livro A Linguagem dos Pássaros (Mantic Uttair); de Farid ud-Din Attar; Obra traduzida para o português por Álvaro de Souza Machado e Sérgio Rizek a partir da versão integral em persa e francês de Garcin de Tassy, Imprimerie Impériale, Paris, 1863; comparada a outras versões. Attar Editorial; São Paulo.


           Soberana, a confusão instalou-se no país dos pássaros.
          Então, foi convocada uma assembléia geral, onde eles decidiram partir em busca de seu rei, o lendário Simorgh 1, cujo reino ficava muito além do monte Káf 2, a magnífica montanha que circunda a Terra. Para lá chegar é preciso atravessar o mundo, passando por sete vales, cujos nomes, causam pavor aos viajantes, mas, guiados pela Poupa, os pássaros seguem adiante. Muitos são os perigos e deveras longa a jornada.
         Dos milhões de pássaros que partiram apenas trinta chegaram ao seu destino; apenas trinta, chegaram à presença do rei.
         Cansados e envelhecidos, após tão penosa aventura, os pássaros, finalmente, contemplam, extasiados, a beleza purificada de seus próprios rostos.



 ***


         Anna ouvia aquele pássaro toda manhã. Costumava vir, o passarim, junto com o sol a pousar no galho mais baixo da gigantesca árvore de ipê amarelo que se erguia ao pé da cerca de sua casa. Ficava lá, quietinho no galho, enquanto o sol fazia sua entrada triunfal pela janela aberta do quarto. Era um pequeno e estranho pássaro, com um leve abano de penas na cabeça, asas cintilantes e multicores; jamais visto antes por aquelas bandas.
         Anna nunca sabia se quem ou o quê a acordava eram o beijo morno do sol ou o canto mágico do pássaro, um canto tão lindo, porém, incompreensível, mas, era só escutá-lo que a menina, no mesmo instante, dava de ombros e afastava para longe os pensamentos e os lençóis, pulando da cama e correndo ansiosamente em direção à janela.  
         “O que estará a dizer o pássaro em sua canção?” Perguntava-se, e, entre suspiros, continuava imersa em seus pensamentos “quisera, ao menos um pouco, poder entendê-lo.”   
         Certa manhã Anna teve seu desejo atendido e ouviu nitidamente o pássaro lhe dizer: “Acorda menina, faz-se tarde. Vem comigo atravessar os sete vales, conhecer a morada do rei dos pássaros.”
         Anna sobressaltou-se, pois, de repente, viu-se abrir um mundo novo a sua frente aonde as barreiras que costumam separar os seres viventes eram praticamente inexistentes. Desfaziam-se, diante de seus olhos as cortinas de ilusão que costumam enganar a alma e o coração.
         “O rei dos pássaros...? Quem é o rei dos pássaros? Onde ele vive, onde se esconde? Não é somente uma lenda a sua existência?” Quis saber a menina, ainda intrigada com o pássaro que falava. “Bem... Lenda ou não”, disse ela então, “eu sei que este reino maravilhoso fica a léguas e léguas de distância de lugar nenhum, mais além do pensamento, mais além do que se é possível imaginar e, que, para lá chegar é necessário passar por sete vales de beleza e de pavor; sete vales de infortúnios: O Vale da Busca, O Vale do Amor, O Vale do Conhecimento, O Vale da Independência, O Vale da Unidade, O Vale da Estupefação, e, por último, aquele que nos parece mais assustador, causa de temor; repulsa e dor, o Vale da Morte. Nem a viagem ao país da canção, que fica atrás das verdes montanhas, às margens do rio dos sonhos, seria mais distante ou mais aterrorizante.”
         “Escuta menina”, disse o pássaro, “na solidão de uma noite escura, o rei-pássaro percorreu os céus da China e eis que uma de suas penas caiu ao chão. Desde então, aquele que ouviu dela falar imaginou um desenho que tomou como verdadeiro em seu coração, portanto, não é por acaso que sempre se diz: Busca o conhecimento, nem que seja na China. Mas, com o passar do tempo, o homem foi dominado pelo esquecimento. Quanto mais crescia, quanto mais evoluía, mais se esquecia de si mesmo. O desenho impresso em seu coração está, agora, quase apagado, portanto, distante ou não, comigo deves vir para que eles se recordem do porquê de estarem aqui... Vem, chamemos todas as crianças e todas as criaturas e sigamos pela estrada afora, atrás do reino mágico em que habita o rei dos pássaros. Sou o guia ideal, acredites, pois trago comigo, como emblema, a coroa da verdade e conheço bem os caminhos que nos levarão direto ao nosso destino.”
         Anna, então, não perguntou mais nada, pois a certeza em seu coração fez morada, aí, ela pulou a janela e seguiu o pássaro que abriu as asas e riscando o céu, partiu, num vôo baixo e ligeiro.
         Pelo caminho, Anna quase pisou numa folha aonde uma aranha teceu a sua teia e a qual viera prender-se uma mosca distraída. Sem pressa, a aranha preparava-se para saborear a sua refeição quando viu Anna passar de olho pregado no céu.
         “Aonde vais; menina, e por que olhas tanto para o céu? Por pouco não me esmagastes em tua distração...”
         “Sigo o pássaro de belas asas; de vôo baixo e ligeiro que me levará até a morada do rei dos pássaros que fica além dos sete vales...”
         “O rei dos pássaros?” Gemeu a mosca, “Ó, liberte-me dona aranha que eu quero conhecê-lo também. Afinal, não sou eu quase um pássaro?!”
         “Quase um pássaro... Você?! uma mosca de nada...?! Só porque podes voar?! Que pretensão!... Não chegarás muito longe com as tuas asinhas... Ainda mais à morada do rei dos pássaros... São sete estradas a percorrer. Ora, não me amoles... não passas de ração de aranha. Por outro lado, quisera eu também chegar ao rei dos pássaros do qual fala a bendita lenda. Talvez pudesse tecer para ele um lindo manto com meus fios de seda e prata...”
         “Sim, sim dona aranha”, falou a mosca entusiasmada, “partamos com a menina que segue o pássaro de belas asas e vôo baixo e ligeiro; partamos com eles pelos sete caminhos que estão para além do horizonte.”
         Assim, lá se foram Anna, a mosca e dona aranha, que aproveitou e chamou a sua vizinha, a abelhinha, que por sua vez, chamou a formiguinha que chamou a cigarra e o feliz beija-flor.
         Pelo caminho, às margens de um rio de águas cantantes onde viviam três peixinhos dourados, encontraram um Martim-pescador, um rato e uma rã, estes dois últimos, por insistência do rato, haviam acabado de jurar eterna amizade; assim como também o gato e o cachorro, que, como sempre, estavam a discutir...
         “Ei, aonde vão com tanta pressa?” Perguntaram em coro ao ver a pequena caravana de viajantes.
         “Seguimos o pássaro de belas asas e vôo baixo e ligeiro que nos levará até a morada do rei dos pássaros que fica além dos sete vales; das sete estradas; dos sete caminhos... Venham... venham conosco.”
         “Humm...” disse o cachorro, rosnando, “não sei não. Bem que eu gostaria de conhecer o rei dos pássaros, já ouvi muito dele falar, mas dizem que ele mora no alto do monte Káf... a lendária montanha que circunda a terra... huumm... não... não é o monte Káf... é o monte Meru....! não, não, não... é o monte Olimpo?!... não... não... é no alto do Himalaia?!.... hummm, não.. não... não... ah... sei que é um desses montes inacessíveis à maioria dos mortais e que para lá se chegar é preciso, antes, atravessar sete vales de perdição ou serão sete estradas?! ... não... não... são  sete lagos?!... huummm... ou serão sete oceanos?... Humm... Não sei... De qualquer forma é preciso atravessar o mundo inteiro e são tantos os perigos?...”
         “O monte certo também não sabemos, disseram em coro os três peixinhos, porém, certamente não são sete estradas, nem sete vales ou sete oceanos; são sete rios...”
         “Nada disso... estão todos enganados... nada de atravessar sete rios, sete vales, sete oceanos ou sete caminhos... para se alcançar a morada do rei dos pássaros é preciso percorrer os sete céus”; disse cheio de marra, o Martim-pescador, “e quanto a vocês, peixinhos”, continuou ele, quero ver valentia e combate é na longa jornada em busca do rei dos pássaros!”
         “Somos nós três irmãos amigos dedicados e de muita coragem que juntos combatemos e assim para sempre viveremos. É nosso desejo empreender a jornada em busca da morada do rei dos pássaros.”
         “Miauuu...” disse o gato lambendo o pêlo e as patas... “Valentia e combate são dois requisitos muito necessários... que importa se são sete céus; sete rios, sete estradas; sete oceanos ou sete vales a percorrer...?! ou se a morada do rei-pássaro fica no alto do monte Káf, do monte Olimpo, do monte Meru ou em cima do Himalaia ou qualquer outro monte inacessível?!” e voltando-se para o cachorro... “Ora, seu cão medroso! O que temos a perder? É preciso empreender a jornada... comecemos já.”
           “E tu amiga, o que achas?” Perguntou o rato à rã; “vou aonde tu fores... Se decidires ir até a morada do lendário rei dos pássaros; eu te seguirei!”
         “Então vamos...” disse a rã “e para que jamais nos separemos, amarremos um na perna do outro, este fio de barbante.”
         Assim fizeram o rato e a rã, e o que muitos julgaram uma imprudência eles tomaram como sinal de amor. Mas a saparia que cantava num brejo ali perto e há muito desejava um rei, achou boa a idéia da viagem e pulando e coaxando, juntaram-se aos viajantes.
         Eis que, de súbito, para surpresa de todos, da copa de uma árvore na beira da estrada, desce o orgulhoso gavião, que, há dias, espreitava o rato e a rã.
         “Esperem, esperem que eu também vou”; disse ele, muito afoito. 
         Mais adiante, os viajantes encontraram a tartaruga e o coelho que estavam a apostar uma corrida, o curioso bem-te-vi, e o folgado urubu, tocador de viola, que, de inicio, pensou que haveria outra festa no céu, mas, aí, quando soube a verdade, todo contente, enfiou a viola no saco.
         Na varanda de uma casa pequenina, um casal de idosos se deleitava com a paisagem, mergulhados em lembranças de dias que há muito haviam ficado para trás. A recordação era o seu orar constante, mas ao ver passar caravana e ao saber ao certo o seu destino, o casal deixou a casinha e lá se foi, pois encontrar o rei dos pássaros era um sonho de juventude que, como tantos outros, havia ficado perdido pelo caminho.
         Depois de um certo tempo os andarilhos encontraram a vaca, o boi, o cavalo, o burro e o homem, trabalhando arduamente no campo.
         “Ei... aonde vão?” Perguntou o homem ao ver a já não mais tão pequena e diversificada caravana.
         “Vamos em busca do rei dos pássaros cuja morada fica no mais alto dos montes e para isso seguimos o pássaro de belas asas e vôo baixo e ligeiro!” Disse Anna.
         “O rei dos pássaros?!” Espantou-se o homem, pondo a mão na cabeça, “que sonho distante... Dizem que para se chegar a sua morada é preciso atravessar sete cidades... ou serão sete montanhas...? Tu, ó pássaro de belas asas e vôo baixo e ligeiro, tu, que tanto viajaste e que conheces todos os segredos, podemos mesmo acreditar na existência de um rei-pássaro? E que terras são estas; tão difíceis em se alcançar? Pelo que sei somente tu, estiveste lá.”
         “Homem, é bom duvidar mas não é bom na dúvida permanecer. O rei-pássaro é um rei para todos e só ele tem todas as respostas”. Disse o pássaro de belas asas, pousando no ombro de Anna.
         “Nos reuniremos então a vocês e seguiremos juntos para o mesmo destino. Nem que para isso seja preciso atravessar sete cidades ou sete montanhas...”
         “Se o anseio é verdadeiro, sigamos sim, juntos, pelo mesmo caminho.”
         “Muuu...” fizeram a vaca e o boi; parecendo concordar, o cavalo relinchou e o burro zurrou.
         O homem imediatamente abandonou o campo e o trabalho pesado e o mesmo fez a vaca, o burro, o cavalo e o boi e livres de pás, cangas e arreios, juntaram-se à caravana. Porém, antes que partissem surgiu detrás de uma pedra uma serpente, que, escondida, ouviu toda a conversa.
         “Ei, ei... me esperem... eu também quero ir. Não perderei a oportunidade de viajar ao fabuloso reino do rei-pássaro que dizem se encontrar no fim dos sete horizontes ou será das sete colinas?”
         No caminho encontraram um pastor de ovelhas, que entretido, tocava flauta. Ao ver a multidão e saber o seu destino quis ir também e prontamente tocou o rebanho. Mas, no meio do rebanho havia um lobo em pele de cordeiro que dela logo se desfez, assim que começaram a caminhar.
         Perto da floresta da Solidão, encontraram o leão, o tigre e o elefante, empenhados em uma luta voraz de vida e morte. Rei da floresta só podia haver um, entretanto, mal ouviram aonde todos iam, deixaram as desavenças e seguiram lado a lado, embora soubessem que teriam que atravessar sete florestas; sete horizontes, sete cidades; sete montanhas; sete céus, sete vales, sete mares; sete rios, sete estradas, sete colinas...
         Um jardim bem cuidado e uma casa singela e uma moça donzela de voz bonita e suave deteve os viajantes, que embevecidos, olhavam um pedaço do paraíso.
         “Aonde vão, gentis viajantes? Para onde se dirigem com tanta alegria?” Quis saber a donzela.
         “Vamos atrás da morada do rei dos pássaros, que fica na mais alta das montanhas, além das sete cidades; das sete estradas, dos sete céus; dos sete oceanos; dos sete horizontes; dos sete vales; dos sete rios; das sete florestas, das sete colinas...” respondeu-lhe o homem, cujo coração, por causa dela, encheu-se de encanto.
         “Oh... então é verdade... é mesmo possível alcançar a morada do rei dos pássaros?” Disse a moça, sonhadora; pensando na força e na majestade daquele rei. Mas, passado o primeiro momento de entusiasmo, percebeu o quão longa e perigosa seria essa jornada e apesar da aparente boa vontade, justificou-se, dando uma desculpa para não se comprometer.
         “Vejam, eu tenho uma voz tão bela que quem me ouve me compara ao rouxinol. Meu canto desvenda os mistérios do amor, devolvendo felicidade a um coração partido. Possuo um jardim onde cultivo uma rosa rara que encanta os meus dias, pois suas pétalas macias me induzem à paixão e sem paixão eu nada sou. Não posso abandoná-la. Morrerei se não puder mais vê-la. Almejar as terras do infinito está aquém de minhas forças. Só penso na minha bela rosa e, ai, ela só pensa em mim.”
         Anna, após ouvir o discurso, não se conteve: “Moça, sabemos que perseguimos o impossível, mas, e tu? Que só se preocupa apenas com aquilo que podes ver? Se quiseres, fica para trás. Mas, lembra-te que a beleza de tua querida rosa poucos dias durará e logo a tua também se dissipará. Almejas a perfeição? Por que então prender-se a um amor tão fugaz e mesquinho?”
          Ao longe, um rouxinol cantou e a moça cantou de volta como dando uma resposta e em seguida, segurou a mão que o homem lhe estendia e juntos foram atravessar as sete cidades; sete vales; sete oceanos; sete florestas; sete rios; sete céus, sete horizontes; sete estradas, sete jardins, sete colinas... em busca da morada do rei dos pássaros que ficava na mais alta montanha do mundo.    
         A caravana crescia a cada instante. Uma longa fila, cujo começo e fim não se podia definir, se estendia por todo o comprido caminho.
        Passaram pelo grande deserto, o maior de todos que existe sobre a face da terra. À sombra de um oásis um camelo e um dervixe haviam parado para um descanso. Em sua vigília, o dervixe quase adormeceu, pois estava cansado demais e ainda tinha sete desertos para atravessar, mas foi acordado pela voz ruidosa do camelo que dançou sem parar ao ver a caravana chegar.
         Agora, todo tipo de ser participava dessa jornada em busca do rei dos pássaros e nada os detinha, fosse chuva constante ou sol escaldante, fosse a neve fria ou o vento violento; tinham muitas perguntas a fazer e muitos assuntos a resolver; cada ser, conforme a sua natureza, ia pensando no tão ansiado encontro. Que rosto o rei-pássaro haveria de ter?    

Continua...



1Simorgh: Em persa, significa trinta pássaros.
2Káf: Lendária cadeia de montanhas que circunda a terra, limitando os dois horizontes. Representa também, em essência, o eixo fixo em torno do qual ocorre a revolução de todas as coisas. (A Linguagem dos Pássaros; Farid ud-Din Attar; Attar Editorial.)