quarta-feira, 9 de novembro de 2011


Art Gallery_Daniel Dell'Orfano


Chuva cumprimenta tarde
Que se cansa do não fazer
O sol se foi sem se despedir
Saiu à francesa
À mor de não ter que dar explicações
Embaraçosas talvez
A nuvem cinza que percorria o espaço
Aproveitou-se e descarregou seu mau-humor
Em forma de raios e trovões
Parecia mesmo muito zangada
Agora, a chuva que cai, tão morosa
Atrapalha o passeio de quem tem o que fazer
Neste domingo preguiçoso
Eu cato meus cacos
E desacato o tempo
Teimo em não misturar minhas lágrimas
Com a cantata da chuva sem graça
Que logo passa e se perde além ...
Vai-se, solitária e trágica
Agitar em algum outro porto
Não tão distante de aqui

sábado, 10 de setembro de 2011

LÁZARO





O sol escondia-se por trás do alto muro envelhecido. Raios dourados, preguiçosos, recolhiam-se mansamente ao encontro da bola de fogo, que agora, não parecia mais tão flamejante. O que acontecera? O mundo novamente era-lhe um lugar estranho, sombrio... Surreal seria a palavra para descrevê-lo neste momento... mórbido pesadelo que começara numa certa manhã de agosto, e o frio e a noite que há tempos moravam em sua alma a envolveram de vez. Não sabia o que fazer a jovem senhora... sentiu o peso da absoluta solidão, cada vez maior, cada vez mais abrangente. Saber que teria que continuar cada vez mais só... não perdera apenas o marido.. perdera o amigo, o irmão, o amante... Deixou-se cair prostrada no divã da sala. A casa tão grande ... os dias cinzentos, mesmo com e apesar do sol... Como dirigir-se å pequena câmara mortuária na capela da família? Como velar, como olhar para aquela pessoa amada, já sem vida, como aceitar isso? Ainda não parara de chorar ... nenhum trunfo nas mãos?.. nada ?... apenas o sacrifício de ter que continuar vivendo?.. só .. completamente só... cobriu o rosto com o pequeno véu, tomou a rosa vermelha de pétalas cintilantes e aveludadas que lhe dera na noite anterior, ainda exalava perfume, segurou-a entre as mãos como quem guarda um segredo ...  dirigiu-se å capela... não ousaria perguntar mais... não discutiria com Deus... mas havia ... a palavra... a palavra que se não lembrava ... anos de estudo de magia para quê?! Ao chegar o momento, nada poder fazer? Quais os propósitos da vida? Como alguém tão bom, tão especial poderia partir assim, simplesmente, num momento de desatino, ter sua vida ceifada por um inútil saído das profundezas do inferno ... o desespero era gritante e tão grande ... ai, finalmente... lembrou-se ... a palavra... a palavra então veio-lhe å mente ... ainda tinha sim, um recurso, um último recurso... não poderia errar... Aproximou-se vagarosamente do caixão... aproximou-se mansamente do morto... eram tantas rosas... tantos prantos convulsivos.. tantos amigos... a rosa em suas mãos brilhou com uma luz sobrenatural... abaixou-se e sussurrou em seus ouvidos ... nada .. esperou a eternidade num instante ... nada... uma fraqueza... de repente, um subito desfalecimento ... a rosa ofuscante quase se desprendendo de suas mãos... agonia ... um estremecimento... um estalo ... seria seu coração... não ... um respirar ainda pesado ... uma mão que se estende para fora e segura a borda do caixão ... o corpo se levanta ... os olhos se abrem .... as flores caem ... o morto vive!

domingo, 28 de agosto de 2011

A Vida é um Blues


por Moysés Mota


Moysés Mota - Na reunião do Greens

O horizonte era total escuridão. A noite, inóspita, de sentir e, principalmente… ver. Apertou os olhos para melhor percepção do céu. Partiu através do que via – ou não via -, para a dedução: “Essa escuridão são pesadas nuvens de chuva; encobriram a lua, as estrelas, o firmamento; tão logo o céu se torne róseo, a chuva desabará!“ Envolveu-lhe um manto de tristeza e depressão. Pensara e repensara a sua vida: “ Muito mais erros que acertos; não acertava uma; não acertava nada, nada”, disse entre irritado e resignado, a si mesmo. Perambulara de bar em bar, mergulhando profundamente no âmago de vários copos de uisque, articulando, concatenando, caindo em si. Vivera o bastante para ver e fazer muita coisa. Mas, agora, meio a madrugada, via-se sem saber aonde ir (“Para casa? Mais um uisque noutro bar? Assistir um strip?…“ Caminhou… Uma, duas ruas, anúncios luminosos de neón; taxis caçavam-lhe como se fora a última alma viva a vagar. Haviam poucas pessoas nas ruas. A maioria abrigava-se nos bares, como ele, que acabara de sair de um, de dois, de vários… Perdera a conta. Lembrou da infância pobre; começara a trabalhar aos 11 anos de idade, estudara bastante, também. Advogado já aos 25 anos, passara a vida defendendo pessoas; ganhara muito mais causas que perdera, acumulando bom patrimônio para uma vida tranquila; conhecera inúmeras mulheres que fizeram de tudo, tudo mesmo, para envelhecer com ele… Era isso! Estivera de bar em bar festejando seu aniversário. Primeiro, com dois velhos amigos. Beberam, brindaram, relembrando infância, adolescência, alegrias, tristezas; sorriram, gargalharam, sentiram saudades… Os amigos, cansados, exaustos de festejar, com dificuldade entraram num taxi e partiram, extasiados de felicidade ”A vida é bela!”, exclamaram na despedida, com as linguas perceptívelmente pesadas, os corpos ligeiramente arqueados. Ficara, como sempre, só. “Fiz ontem 70 anos! Minha vida é só passado. Nunca houve futuro. Hoje, pelo menos – nesse momento um raio rasgou o céu verticalmente como se este fora uma negra cortina, em seguida, um estrondo medonho ecoou… A idade, o alcool, um ou os dois juntos – não soube precisar – imunizaram-lhe do susto que abalou toda a cidade. “Sinto e vejo agora o presente. É negro, mas há raios a iluminá-lo, e trovão a trombetear, nos alertar.” A escuridão tornara-se cinzenta e, agora, rósea… ventania em redemoinho anunciou-se… fria garoa estabeleceu-se. “É isso! Vou a outro bar. Um piano, um saxofone, um contrabaixo, uma bateria é tudo que preciso… Minha vida é um blues! Não… A vida é um longo blues! Sentiu-se feliz como nunca. Seguiu em direção aos acordes de sax. Sorrindo, respirando fundo o orvalho e o cheiro de chuva, lamentou-se, apenas, por entender a vida só após os 70 anos.  A VIDA É UM BLUES!

domingo, 17 de julho de 2011

JANELAS







JANELAS

Jefferson Nunes/Virgínia Allan

Adoro Billie
esta me faz chorar
sei que somos dois 
vc e eu
somos dois 
melancólicos aos extremos 

Sim!

E hoje está um dia lindo
Billie
não combina com um dia assim
faz tempo que não a escuto
tem vento

Fora do seu escritório o mundo continua a girar 
O céu está azul e cheio de pipas 

Siim!

E hj, mais do que nunca, precisavas ver
como está lindo aqui...

Pela minha janela aberta
a luz entra e invade a sala
invade a mim...
O vento entra sem pedir licença e me invade também

As pipas lá no alto serão mais livres do que vc ou do que eu? 

Penso que não

As pipas lá no alto do espaço azulado são apenas nossos reflexos dispostos em cores

domingo, 3 de julho de 2011

Greenstube 04 - Sayonara Melo (Virgínia Allan)



Sayonara Melo é escritora, autora de vários livros e blogs, entre eles o "Vai me toca um blues" um dos Blogs nacionais mais importante sobre o Blues. Nesta entrevista exclusiva ela fala sobre o Blues, sobre sua vida e trabalho.

Mais sobre a entrevistada em:
http://vaimetocaumblues.blogspot.com/
http://virginiallan-cantilenadocorvo.blogspot.com/
http://mardehistoriassemfim.blogspot.com/
http://www.facebook.com/sayonara.melo
http://www.facebook.com/virginiaallan

Sayonara Melo é atualmente uma das administradoras da página do Projeto Greens no Facebook:
http://www.facebook.com/pages/Projeto-The-Greens/134372476597993

Link para o texto "Só o Blues Salva", citado na entrevista acima (a história do Brasileiro que começou a gostar de Blues na prisão) e disponibilizado no Blog "Vai me Toca um Blues":
http://vaimetocaumblues.blogspot.com/2010/05/so-o-blues-salva.html





Quero deixar meu agradecimento ao Anfremon D' Amazonas, pelo trabalho que tem realizado ao registrar a memória musical de nossa cidade. Grata pelo contacto, carinho e oportunidade de falar sobre nós e nossa cultura manauara! Um abraço


Uma correção: o blues tem raizes africanas.. mas não dava pra entrar em detalhes... claro, que a essência é africana, mas o gênero em si, o que chamamos de blues, é um caldeirão de misturas


Ao falar de André e da Banda Veneno da Madrugada, a foto em que aparece os três amigos juntos, na verdade, tratam-se de Leonardo Pimentel, que entrou na banda tempos depois, como baterista, Matheus Gondim, guitarra e vocal e André Gomes, contrabaixo.. Denys Rangel aparece apenas na foto de jornal, sentado ao lado de André e Matheus, no pátio da casa de Matheus no começo dos anos 90! Achei importante esclarecer. :))

Sobre a fala dos escravos muçulmanos e o blues, para entender melhor a relação, consultar os links

terça-feira, 28 de junho de 2011



Foste atacado por um bluedevil?!
 Presente de meu amigo Leandro Franco!
 Amei! Nós e nossos demônios azuis!






segunda-feira, 13 de junho de 2011

SOBRE ONTEM


Chuva caiu rapidinho
assim como caiu, passou
molhou o quintal do vizinho
mas não molhou o meu amor

terça-feira, 17 de maio de 2011

A INENARRÁVEL HISTÓRIA DO CAVALEIRO LEONARDO CABEÇA DE DRAGÃO, Uma aventura medieval Parte VI





Memé, o dragão

O jovem cavaleiro, por sua vez, tremeu, nunca vira algo tão poderosamente assustador. Este sim valia por mil dragões. Não seria nada fácil matá-lo; só com uma de suas sete cabeças o dragão poderia engoli-lo num abrir e fechar de olhos; por isso era preciso cuidado para que o monstro não o visse, deveria, antes de tudo, acertá-lo no coração.

Puxou Claralua da bainha, mas quando estava perto o bastante para o ataque, percebeu quão bela era a pele do dragão; cheia de riscos e imagens que contavam antigas histórias e os segredos de um tesouro fabuloso; hipnotizado, fechou e abriu os olhos, a fim de quebrar o encanto, porém, o tormento continuou e sua mente, atordoada, não conseguia mais pensar, foi então que ouviu uma voz, uma voz suave de mulher, que até parecia vir de dentro dele, entretanto, ele não sabia, era Seele, a filha do rei que falava, a voz vinha de um lugar que no momento não podia ver, porém percebeu que era perto demais.

“Rápido”, disse ela “eu irei cantar para o dragão e assim que ele adormecer use a espada e corte-lhe a cabeça negra. Não conseguirás matá-lo num confronto, mesmo que o golpeies no coração. O dragão já possui o coração ferido e pouco adiantará o golpe certeiro de tua espada, a solução é decepar as sete cabeças agora, neste momento em que formam uma só. Assim que o dragão adormecer deverás então, decepar-lhe as cabeças, retirando de cada uma delas as draconitas, pedras mágicas, cuja alvura natural e perfeita é motivo de ambição entre os homens.”

“Ouça o que digo, não hesite... acabe com isso de uma vez.”
                          
Tão pronto a princesa começou a cantar, o horroroso dragão ficou a escutar, pois sua voz era tão linda, densa e extremamente consoladora... tão cheia de promessas, tão profunda e misteriosa... havia chegado a hora, agora ele podia adormecer... O monstro fechou os olhos e foi mansamente baixando as horrendas cabeças; Memé, o diabólico dragão, finalmente, adormeceu; dormiu pela primeira e última vez... A canção subiu pelas paredes, chegando ao alto da torre da Garça aonde os sábios e alguns outros, eram mantidos prisioneiros. A voz da cantora encheu aquele ambiente sombrio de luz; então, as correntes foram partidas e as portas das celas escancaradas.

A jovem parou de cantar, mas a lembrança da canção inesquecível continuou a ecoar por toda cidade, penetrando nas profundezas do vale onde até o ogro de pés tortos e cabelos pegajosos a ouviu e pela primeira vez sorriu, e Leonardo desembainhou a espada. Sem perda de tempo, cortou as sete cabeças em uma retirando delas as sete pedras que imediatamente guardou dentro de uma pequena bolsa que trazia a cintura. Arrancou-lhe também o couro com os estranhos desenhos, que de tão belos quase o enfeitiçara, uma parte dele serviria como sua manta de cela, a ser usada em momentos apropriados, pois assim aquele que estivesse doente, sofrendo de algum transtorno da mente ou do coração e a notasse, poderia recuperar a saúde e a razão, pois era mágica e hipnotizante e ao mesmo tempo, por isso mesmo, não poderia ser vista por qualquer um. Como manta de seu cavalo serviria a ambos os propósitos, estaria à mão sem ser realmente notada por quem não estivesse extremamente necessitado, senão o resultado seria inverso.

Com coração ferido da fera que ainda palpitava entre as suas mãos, mas o cavaleiro sabia que precisava destruí-lo, e, apertando-o, espremeu-o feito um fruto maduro até que não lhe restasse mais uma só gota de sangue.

Das gotas caídas ao chão do coração ferido, brotaram flores e frutos; borboletas e pássaros... Feito isso, o cavaleiro envolveu o coração ressequido em um pedaço da própria pele do dragão e guardou-o consigo quem sabe um dia viesse a precisar e lançou o que sobrou do couro lustroso e colorido no vasto deserto salgado onde antes havia estado o mar. No mesmo instante, um mar esbravejante, sibilante, jogando longe as ondas verde-azuladas repleto de peixes e algas e de tudo o mais que num mar podia existir, voltou a surgir.

O sangue do dragão, vermelho, quente e borbulhante, jorrou do seu corpo decapitado, penetrando todos os recantos esquecidos, tornando novamente fecundas as terras estéreis. A vida explodiu das sete cabeças em mil cores e formas.

Aí foi que Leonardo viu a pobre Seele, aprisionada numa rocha, agora desfeita em pó perto do fosso; era ela a dádiva do dragão, a noiva do monstro das profundezas marinhas; sujeitara-se a isso para manter a salvo o povo e o reino de seu pai enlouquecido.  Encantou-se com sua grande beleza e enfim entendeu o seu sonho e qual era o real desejo de seu coração.

Continua...

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A INENARRÁVEL HISTÓRIA DO CAVALEIRO LEONARDO CABEÇA DE DRAGÃO, Uma aventura medieval Parte V




A chegada, o confronto

Em frente aos portões, que pareciam feito de sonhos, o cavaleiro resolveu apear e se aproximar, porém, ao fazer isso, um pouco tonto, por causa da experiência, tropeçou em algo que parecia uma pedra, mas, era um homem que, cabisbaixo, examinava a terra grão por grão.

“Será possível?! Outro escavador de terra?! Estarei eu na cidade dos garimpeiros?! O que procuras, homem. Enlouquecestes?”

"Ah... jovem cavaleiro leve a sério este sujeito”, disse o homenzinho, “pois é mesmo um louco... um louco perdido de amor.”

 Leonardo levantou-se, limpando-se da sujeira e enquanto assim o fazia lembrou-se de si mesmo. Teve pena do “louco” que, com certeza, “não sabia o que estava a fazer.”

 “Ora; ora...” disse o louco, levantando-se também, “se não é o jovem cavaleiro prometido, matador de dragões. Quantos já mataste?! Eu matei sete; sete de uma vez só...”

 “Sete...?! E de uma só vez?!” Disse Leonardo, arregalando os olhos de espanto e incredulidade.

 “Sim... sete...; sete moscas que não me deixavam dormir em paz. Isso faz muito tempo, porque agora eu sou esperto e não durmo mais.”

 O homenzinho sorriu mais uma vez da cara de bobo de Leonardo, que desta vez, mais por orgulho, não se fez de rogado.  “Louco, o que procuras?” indagou.

 “O que procuro? Claro está que não procuro a ti. Procuro a minha estrela no fim do horizonte; procuro a amada de meu coração; minha busca por ela não há de ter fim.” 

 “Que estranha forma de procurar jóia tão preciosa. Será que tal beleza rara se esconderia sob a poeira?”

 O louco, com o olhar perdido; replicou: “Eu a procuro em todos os lugares. Na lua, no céu povoado de estrelas; no vento e na poeira; busco-a no sol; no mar; no principio da tarde e no silêncio da noite. A tudo e a todos, pergunto por ela, pedindo-lhes notícias, na esperança de um dia a encontrar; um dia a hei de encontrar...”

 Ao terminar sua estranha confissão de amor, o louco, de um jeito deveras assustador, pôs-se a perguntar: “Tu não a viste? Nada tens a me dizer? O que procuras? Desejas o verdadeiro significado de tudo ou só tens a pretensão? Pensas que não existe o verdadeiro significado das coisas? Não procuras o que deves procurar, nem de dia; nem de noite. O que é tua amada para ti? Apenas um sonho? Quem é o louco? Tu ou eu? Acho que és tu...Vai, vai cavaleiro, vai matar o teu dragão...mas, antes, de bateres a porta, verifica se ela está realmente fechada.”

 Ora saltitando e sacudindo-se todo; ora rodopiando e rindo como criança, o homem era mesmo um espanto. De repente tornou-se sério e voltou a catar a terra.

 Impressionado, mas pensando sobre tudo o que o “louco” acabara de lhe dizer, Leonardo voltou-se para os portões da cidade; e estes mesmos portões, que pareciam feito dos tecidos com o qual se tecem os sonhos, guardavam uma sombria expectativa. Mal tocou-o e o portão abriu-se e então, no mesmo instante, ouviu-se, como que vinda do alto, uma voz misteriosa que disse:”

Aqui ó estrangeiro, começa tua jornada.
Do lado de fora, deixa a cobiça, a ira e a auto-compaixão,
pois, somente os puros de coração,
a verdade, alcançarão”.

 Mesmo sendo ainda dia, Olímpia estava fria; escura e silenciosa. Não havia risos de crianças; nem mães preocupadas. Silêncio! Um silêncio absoluto e assustador. Apenas isso... Silêncio e neblina... neblina e silêncio Nem o barulho das patas de Borak se conseguia ouvir  pela estrada. Andavam sobre névoa. Nenhum animal; nenhuma pessoa atravessava-lhes o caminho. Enfim, era uma cidade fantasma, pois vez ou outra; espectros horríveis tentavam intimidá-los, porém, bastava que o homenzinho lhes estendesse a mão, para que eles, rapidamente, se desvanecessem.

 Leonardo encarou tais visões como uma espécie de delírio sufocante. Desejou algo para beber, e, puxando do seu farnel tomou uns goles da garrafinha dourada com a água do rio Jordão. Como num passe de mágica, olhou para dentro de seu coração e nele vislumbrou a imensidão e a beleza do universo; era um senhor de segredos, mas almejava conhecer o segredo dos segredos, o maior de todos; o segredo da eterna beleza e perfeição. Atônito, ainda tinha os lábios secos; armado de coragem se fosse necessário, seria capaz de matar mil dragões. Distinguiria ele fidelidade de infidelidade, se ambas se oferecessem para levá-lo ao encontro de seu destino? Não... aliás, receberia as duas, de muito bom grado, pois quando as  portas lhe foram abertas, ele não encontrou nenhuma nem outra e sua paciência nem estava esgotada. Perdido em seu devaneio, quase esqueceu-se de si,  de onde viera e por tudo o que passara; onde estava e o porquê de estar ali.  Foi acordado pela voz do homenzinho.

 “Nossa cidade não era assim... tão escura e sombria; sempre coberta por esta névoa misteriosa que teima em não se desfazer. Antes, era formosa e cheia de vida. As casas, amplas e confortáveis; com sacadas e jardins com todo tipo de flores em que pássaros vinham cantar e descansar. Crianças e velhos, costumavam sentarem-se ao entardecer ao redor daquela fonte ali, onde hoje a água cristalina já não canta mais, para ouvir o contador de histórias. O mercado, cheio de mercadorias raras,  recebia os viajantes que por lá se detinham algum tempo em busca do objeto desejado... e o que são os desejos agora? Nada além de sonhos... recordações.... Saiba cavaleiro, quão pesada é a tarefa que repousa em teus ombros.”

 “Farei o melhor que puder.” Respondeu Leonardo.

 “Acredito. Vem até minha casa. Precisamos descansar. Terás que estar muito bem preparado para enfrentares o dragão.”

 O homenzinho conduziu Leonardo por uma viela estreita, a uma casa graciosa, que de tão irreal, parecia suspensa no ar. Antes de entrarem, porém, guardaram e alimentaram Borak que, assim como eles; precisava de cuidados. O que é um cavaleiro sem o seu cavalo? Instantes depois, Leonardo e o homenzinho entraram na casinha. Poucos móveis e enfeites compunham a mobília, tudo muito limpo e arrumado, como se a casa sempre estivesse à espera de alguém. Na hora de dormir, o homenzinho mostrou a Leonardo um quarto aconchegante, entretanto, ele preferiu o couro gasto e macio de uma velha poltrona da sala que ficava perto da lareira. Assim acomodado perdeu-se em pensamentos. A recordação aqueceu-lhe o coração, fechou os olhos... mas  não adormeceu.

 De manhã, bem cedo, a cidade foi perturbada por violentos tremores. Era o dragão que despertava e faminto, despejava sua fúria pelo ar.

 Leonardo levantou-se e correu a janela, porém, a neblina, mais densa ainda que no dia anterior a sua chegada e nuvens de fumaça, o impediam de ver qualquer coisa que fosse. Apenas de vez em quando, em momentos não muito longos, um clarão de luz, aqui e ali, rasgava a neblina, tornando tudo, nesse meio tempo, impressionantemente nítido... era preciso saber aproveitá-los e se esforçar em memorizar o que fosse possível, pois seriam estes clarões momentâneos e o imprescindível apoio do homenzinho, que o ajudariam a tomar as mais certas e justas decisões.

 “Vamos, cavaleiro, apresse-se” disse o homenzinho. “Nosso tempo se esgota.... O rei passeia em sua carruagem enquanto o dragão cospe fogo.”

 Leonardo respirou profundamente, pôs o elmo à cabeça e foi em busca de Borak e rapidamente o montou. O homenzinho, na forma de coruja, saiu voando à frente, lhe indicando o caminho. O medo e a aflição pairavam no ar.

 Os prédios e as casas, cujos telhados pontudos surgiam acima da neblina, davam à Olímpia um ar sepulcral. Eis que então, entre um e outro clarão, não muito longe, ele avistou uma pequena multidão que se aglomerava numa das esquinas. Era o cortejo real que passava, com o corpo de guarda pedindo passagem, gritando a plenos pulmões: “Abram passagem para o rei; abram passagem...” Os mais afoitos tentavam manifestar-se, porém eram retirados pelos guardas de forma assaz truculenta.

 A carruagem real logo desapareceu atrás dos portões de ferro do palácio; uma sólida construção fortificada, sob uma colina à beira-mar, cujas duas maciças torres com balestreiros guardavam a entrada, entrada esta que era por sua vez, defendida por uma ponte levadiça. Certamente, se os inimigos surgissem seriam rechaçados por seteiras postas de cada lado e também através de buracos feitos no teto, os famigerados buracos da morte.

 Ao redor do fosso, enrodilhado, estava Memé, o maléfico guardião, que com suas sete cabeças e sete pares de olhos, parecia uma planta feia e retorcida que havia crescido demais. As cabeças tinham cores diferentes e fundiam-se umas às outras, formando uma só; uma medonha e negra cabeçorra com olhos de cima abaixo, até à altura do coração. O monstro não deixava nada nem ninguém se aproximar, ai daquele que ao menos ousasse tentar. Leonardo procurava um jeito e procurando ficou até o anoitecer. 

 No alto da fatídica Torre da Garça, onde se encontravam aprisionados os membros do conselho, pousou a coruja à espera de uma tomada de decisão do cavaleiro.    

 O dragão só acalmou a sua fúria, quando foi alimentando e instantes depois jazia imóvel, parecendo dormir, mas Memé jamais dormia e talvez, nada neste mundo seria capaz de fazê-lo dormir. De repente, desconfiado, farejou o ar.

 Um galo cantou, anunciando a meia-noite e a coruja deixou a torre e indicou a Leonardo uma solução. Quando um castelo era atacado, a guarnição contra-atacava saindo para o exterior por uma porta traseira, a chamada porta da traição, surpreendendo o inimigo na retaguarda enquanto estes se ocupavam do portão principal. Assim, a coruja piou três vezes, avisando a Leonardo de sua intenção e ele sem mais perda de tempo, avançou com Borak, cautelosamente, para os fundos do palácio. Com cautela, Leonardo foi se aproximando, andou metade do caminho sob o dorso de Borak e depois achou melhor desmontar e seguir, pé ante pé para perto do monstro. Sem fazer qualquer ruído, Borak, o seguiu. O nobre animal estava ciente da necessidade do silêncio.
  
 Memé pressentiu o perigo e girou de um lado para o outro as sete horrendas cabeças, os olhos varrendo a escuridão com uma luz sobrenatural.

 O monstro soltou fogo pelas narinas e numa incrível agilidade para um corpo tão grande e pesado, ergueu-se sobre as patas traseiras; as cabeçorras quase tocando o céu.

 A coruja revoava nervosa, de um lado para outro; ao longe, o canto de um galo anunciava a meia-noite. 

Continua...

quarta-feira, 16 de março de 2011

A INENARRÁVEL HISTÓRIA DO CAVALEIRO LEONARDO CABEÇA DE DRAGÃO, Uma aventura medieval Parte IV




A caminho de Olímpia, a cidade esquecida


O resto do caminho foi percorrido em silêncio.  Leonardo nada quis falar, mas ia sobressaltado, pois coisas terríveis surgiam a sua frente. O Vale era um lugar que, a cada instante, passava-se por cem provações; somente um instante que, infelizmente, pareciam longos e penosos anos. Lembrou-se que, anos atrás havia abandonado tudo atrás de um sonho impossível, agora sofria; seu coração atormentado boiava num charco de sangue, porém ele sentia que estava a salvo da perdição. Fechou os olhos e procurou se desligar de tudo o que existia para ver brilhar a luz. Ainda que houvesse mil outros vales a atravessar, ele o faria movido por um amor brotado nos sonhos. Seria louco? Sim, louco de amor. Era consumido por um fogo interior; um fogo invisível.

Um sacolejo de Borak fez Leonardo abrir os olhos e ele pode ver que realmente, a beleza, que tanto lhe chamara a atenção à entrada do vale, era cada vez mais rara. Os pássaros haviam deixado de cantar e apenas uma estranha desolação, disfarçada pela neblina, continuava a assombrar o longo percurso. Percebeu que não pararam para descansar ou sequer se alimentar, pois a pressa e a preocupação haviam tomado lugar.

Borak tomou água num riacho que encontraram quase seco e sem vestígios de qualquer vegetação à sua margem. Curiosamente, um menino, usando uma bateia, continuava a lavar a areia, procurando entre os cascalhos do riacho, pepitas de ouro. Ao seu redor, montículos de terra não paravam de surgir e assim entretido, mesmo ouvindo passos, o pequeno, a cabeça, não levantou, mas, antes que se fossem, Leonardo retirou de seu próprio pulso um precioso bracelete e o ofertou ao menino.

“Menino, toma esta pulseira. Ela é tão valiosa que daria para alimentar o mundo inteiro. Ela só já bastaria por toda a tua vida. Pára de escavar a terra. Compra um reino e torna-te rei.”  

Porém, o menino, sem mesmo sequer olhar para Leonardo ou mesmo para a preciosa pulseira, lhe disse: “Já sou um rei; filho de rei, mas não abandonarei o meu oficio enquanto viver. Foi escavando a terra que ganhei tão rico bracelete; foi escavando a terra que me tornei senhor de mim, portanto, é meu dever dele me ocupar até o fim de meus dias. O riacho logo tornará a se encher. Segue tu o teu caminho e deixa-me em paz.”

O homenzinho sorriu, mas Leonardo não se abalou. Deixou o menino pegado em seu oficio e seguiram adiante.  
            
“Veja jovem cavaleiro, é quase finda a nossa jornada. Já está amanhecendo, como te disse que aconteceria. Eis a cortina de fogo que protege a cidade. Não devemos temê-la e sim, ultrapassá-la; agiremos como a mariposa, que dança ao redor das chamas antes de perder-se nela...”

“Não precisas arriscar-te comigo. Toma a forma de coruja e voa daqui.”

“A tarefa compete a ti, porém, sou teu guia nesta viagem e não te abandonarei. Não saio de tua garupa, atravesso contigo a cortina de fogo.”

Leonardo preparou-se para pular e num abrir e fechar de olhos, tudo aconteceu.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A INENARRÁVEL HISTÓRIA DO CAVALEIRO LEONARDO CABEÇA DE DRAGÃO, Uma aventura medieval Parte III


 


O mago

 A coruja voou do galho até a garupa de Borak, e tomou a forma do homem velho. “Devemos ir”. Disse ele. “Se formos agora, talvez, cheguemos à Olímpia antes do dia clarear. A cidade está em polvorosa..."

“Onde é Olímpia e por que estaria em polvorosa? Por quê?!” Quis saber Leonardo, que após pegar seus pertences, estava também pronto para montar e partir, retomando o caminho que os conduziria para fora  ou mais adentro da floresta?!

“Tão logo saberás. Espera só um instante...” De repente, o homenzinho soltou três longos e fortes espirros, que por pouco não o fizeram cair do cavalo. “Atchiiimm... atchiiimm... atchiimm... por aqui tem dente-de-leão... minha alergia voltou a me importunar... Bem, a história é a seguinte: Nosso rei é um homem justo; altivo e generoso e também um mago poderoso, mas como deves saber; nem tudo se resolve com magia e ele, de uns tempos para cá, na verdade, desde a morte da rainha parece ter enlouquecido. Mergulhou num estado de profunda melancolia. Deseja desesperadamente encontrar a cura para o seu mal, entretanto, apesar de seus esforços, nada, até agora, adiantou.” 

“Mas, por que o rei não consegue aceitar a morte da rainha? Ele deve saber que não podemos viver para sempre. Somos folhas ao vento”

“Sim... ele sabe disso e talvez até tivesse aceitado a morte de sua consorte se ela tivesse ocorrido de forma natural... é muito triste pensar que alguém desistiu de tudo... de viver; de amar... deixando aos que ficam a imaginar os motivos; as razões, que levaram a este ser querido agir assim? E ele, não diferente de qualquer um nesta situação, se culpa constantemente, perguntando-se que tipo de gente ele é que não conseguiu nem sequer proteger a amada esposa de seu coração, se lá no fundo de si mesmo estava certo de que esse tipo de desgraça poderia suceder.”

“Estás a me dizer que a rainha procurou seu próprio fim...?”  
    
“Estou. Mas, o rei comete um grave erro ao se culpar, já que a sobrevivência do reino e do povo, assim como de sua jovem filha está em suas mãos. Infelizmente, algumas pessoas parecem mesmo ”predestinadas” a um triste fado que nada, nenhum amor, nenhuma magia ou sabedoria é capaz de desfazer, há não ser por elas mesmas, mas dificilmente conseguem encontrar uma saída, uma solução.”

“Predestinação”, disse Leonardo “oras, é o desconhecimento dos fatos. O que somos? Seres complexos que qualquer descuido pode danificar. A mente se perde, o corpo se desgasta; o medo nos acorrenta... e quem pode saber ao certo o que se passa dentro de cada um?”

“Bom, meu rapaz” continuou o homenzinho, “verdade é que desde jovem a rainha sofria de uma instabilidade nervosa que só fez piorar com o passar dos anos. O rei pensou que o seu amor a poderia curar e proteger; ele ousou pensar que tanto amor seria suficiente ah... o amor humano... quão pretensioso ele é, quantos desatinos em seu nome os faz cometer. Os homens chamam de amor este encanto, este apego, muitas vezes perigoso, que se tem por coisas, por lugares... e principalmente, por pessoas... Um dia, ela levantou-se e sem nada dizer a ninguém subiu a torre mais alta do castelo e de lá, atirou-se ao mar. O rei, que muito a amava, ficou tão transtornado que não mais voltou a ser o que era antes. O medo, o cansaço e a solidão apossaram-se de seu coração. Eu, apesar de todos estes anos dedicados ao estudo da natureza humana não consigo entender esta estranha escuridão que se abate sobre tantos. Certas pessoas só conseguem ir até um determinado ponto, depois disso são como alguns instrumentos, cujas cordas, se forem muito ajustadas ou pressionadas, acabam por se arrebentar. Será isto uma distorção da vontade ou uma demonstração de incapacidade causada por alguma espécie de doença interior?”

“Seja doença ou não, fazemos aquilo que podemos fazer; caminhamos até onde agüentam nossos pés.” Disse Leonardo, que apesar de sua resposta, deixou visível sua insatisfação, pois tampouco ele conseguia entender a força negra que espreitava escondida, dentro de cada coração e então, sem fazer mais perguntas, deixou que o homenzinho continuasse a falar.

“Tens razão. Fazemos aquilo que podemos. Deixemos de devaneios filosóficos e voltemos a nossa história. Às vezes, quando se sente um pouco menos melancólico, o rei passeia pelo reino, mas, na maior parte do tempo, está tão irado que desconta no povo e na filha a “injustiça” que lhe recaiu sobre os ombros; ele está cego e só. Os sábios do reino; meus companheiros e membros do conselho, na tentativa de contornar a situação, procuram um modo de lhe aliviar a dor, já que somente ele pode curar a si mesmo. Entretanto, o rei e o senescal, que tem se valido desta difícil situação, acusou-nos de negligência e conspiração e mandou-nos prender na mesma torre da qual a rainha havia se lançado, a Torre da Garça, e então, através de sua arte, convocou Memé, o grande dragão do mar, que possui sete cabeças para guardar as portas do castelo; deu-nos um ultimato: se, até a meia-noite do dia de seu aniversário, que será daqui a três dias, não encontrarmos uma solução para o seu mal, ele nos matará e destruirá toda a cidade e para isso basta que o dragão balance a cauda e cuspa fogo pelas ventas. A maldade deste monstro é indescritível. Ele já matou quase toda espécie de vida que se espalhava pelo vale; quanto mais perto chegarmos da cidade, mais isto será notado. A beleza morreu e até há poucos dias não havia nada que pudéssemos fazer ou alguém a quem recorrer. Mesmo o mar já não tem peixes; o povo está faminto e desiludido. Seele, a princesa e herdeira do trono, não sabe o que fazer e teme ser dada ao monstro como dádiva também, coisa bem passível de suceder  se o rei não mostrar compaixão para com todos, mas seu coração empedernido não deixa entrar a luz! Logo, todos, sem exceção, viraremos comida do monstro e o rei selará dessa forma seu próprio destino; destino atroz... Graças a minha habilidade em disfarces, habilidade esta desconhecida por grande parte do povo, capaz de enganar até o rei; consegui escapar e procurar ajuda, pois, como dizem, a ‘esperança é a última a morrer’ embora eu particularmente pense que a esperança é um sentimento extremamente desesperador. Exatamente, há um mês, a bola de cristal, mostrou-nos a chegada de um jovem cavaleiro que nos libertará do terror ao matar o dragão eu fui o escolhido para conferir a veracidade do fato, que, se, uma vez comprovado; devo servir-lhe de guia e apontar-lhe a direção...”

“E por acaso este jovem cavaleiro”...

“Sim. ‘Por acaso’, se existe acaso, tu és este jovem cavaleiro, apesar de todos os sinais já o terem indicado, somente após teres enfrentado o ogro é que obtive a plena confirmação.”

“Pobre de mim... um único cavaleiro para um monstro que possui sete cabeças... como darei cabo de tal tarefa, que mais me parece uma tremenda consumição?! Devo ter feito algo de muito errado para tamanho castigo; certamente estou a ser punido!”
  
“Não encare como uma punição” disse o mago “mas sim como uma preparação para feitos maiores e mais responsáveis.”


Continua...