domingo, 12 de setembro de 2010

A EXPLICAÇÃO DO MERCADOR DE COBRE PARTE FINAL


“Adeus... Adeus minha fiel servidora e amiga. Vou com meu amante para o Vale da Felicidade que esse mundo nunca conheceu ou sequer mesmo sonhou. Ele veio buscar-me, como eu já sabia, e você me confeccionou esta roupa, um emblema de minha fé e confiança nele e ficou ao meu lado nessas últimas horas de espera... Indefesa e muito feliz por estar assim, sei que não poderei mostrar meu rosto ou usar livremente minhas mãos até que o Príncipe do Amor remova este maravilhoso emblema dourado de minha devoção quando estivermos no terraço mais alto de seu palácio... E pela última vez Mamina, vejo-a como a vi uma vez no espelho, antes de vagar em sonho lá fora do palácio... Talvez eu tenha envelhecido durante a espera, mas sinto-me rejuvenescer por baixo de meu véu... No momento em que alcançarmos o terraço do palácio, serei como meu príncipe conheceu-me pela primeira vez.”

Com um grito de impaciência, seu amante saltou para a cela e estendeu os braços para receber Zarhil envolta em seu manto dourado. Então, por alguma mágica dos sentidos, o encanto terminou. A luz do dia pairou sobre nós numa nuvem de torvelinho... Príncipe e cavalo desapareceram no meio dela, mas à medida que minha visão se reajustava, vi Zarhil em pé, cintilando sobre a mureta, antes de oscilar e desaparecer sobre a borda.

Ali Shazar inclinou-se para fora da mureta olhando para baixo, enquanto Mamina estava caída aos seus pés como uma trouxa amarrotada de seda. A cabeça do pequeno Ali repousava tranqüila e satisfeita sobre sua almofada como tinha estado antes, antes de tudo isso acontecer.

Cambaleando, passei pela naja murmurante e juntei-me ao meu cunhado na mureta.

Bem lá embaixo – pois esse pátio havia sido construído no topo de dois lados escarpados de um desfiladeiro rochoso – jazia algo brilhante, perto de um fio prateado de rio.

Inclinamos a cabeça – assim decreta Allah, louvado seja Seu Nome – e, logo em seguida afastamo-nos. Os quatro negros estavam voltados para nós, rostos empalidecidos sob a pele escura.   
Finalmente, sahib, a pedido de Mamina, Ali desceu com eles por um caminho fora do palácio, eu fiquei e com os dedos trêmulos libertei Mamina de sua verde prisão. Seu rosto estava contraído de dor, mas ela nada disse. O pequeno Ali ainda dormia.

Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, meu cunhado voltou sozinho, seguido pelos negros que tremiam da cabeça aos pés. Um deles trazia o manto dourado no braço. Ali Shazar foi até sua esposa, sorrindo.

“Não tema, meu amor,” disse ele com carinho. “Ela não estava lá... Encontramos apenas o manto que você fez para ela... vazio de sue conteúdo, sem manchas, nem rasgado... Zarhil está feliz, e quem pode censurar o príncipe por não ter esperado até que estivessem a sós, em seu palácio para desfazerem-se deste emblema dourado de sua devoção?”

E isso é tudo, sahib. Talvez agora estejas satisfeito.

Saí maravilhado para a escuridão da noite, mas também lembrando do turbante verde de meu amigo, o mercador de cobre, o cobiçado privilegio do peregrino à Meca, que o colocava acima de inverdades deliberadas.          


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