segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A EXPLICAÇÃO DO MERCADOR DE COBRE PARTE VIII


Talvez estivesse sorrindo... Senti que estava, embora nada pudesse ver de seu rosto e do resto de seu corpo, exceto os pés, pois a vestimenta reluzente não possuía aberturas e a envolvia completamente, mesmo sua amplidão permitindo algum movimento limitado às suas mãos aprisionadas. Atrás dela, um vulto vestido de quase idêntica maneira, mas em seda verde, com certeza era Mamina... Ali Shazar erguera-se da sombra ao meu lado e, com o filhinho agarrado ao seu braço direito, andava meio inclinado para o lado em direção à sua mulher... Mas, as mãos dela, ocultas pela roupa, agitaram-se num gesto de silêncio e ela lhe falou baixinho, com os olhos cheios de amor e receio. A princesa Zarhil parecia estar a ouvir alguma coisa. O lugar, então, foi tomado, inundado por uma luz sobrenatural, não deste mundo, e eu sonhei que o estrangeiro da coroa de estrela havia chegado no seu corcel voador...

“Por fim, minha amada; voltei.”

A profunda musicalidade na voz do estrangeiro; e o sorriso divino, a brincar em seu rosto, fez meu coração estancar enviando um forte jato de sangue gelado pelas minhas veias, e tive medo... Não éramos deste mundo, nenhum de nós... Por um momento meu corpo lutou para despertar os sentidos, mas o encanto ainda não podia ser quebrado... Afinal, estávamos realmente adormecidos?

“Vamos! Tempo demais esperamos; meu palácio está preparado e o terraço onde dorme a Aurora nos aguarda... Lá você se despirá do seu manto dourado de fé e eu verei o que não vejo desde a noite na planície, ao pé da montanha... Seu rosto e seus ternos braços macios, cujas caricias sempre recordei com ma dor aguda de amor e saudade... Venha minha princesa, minha Zarhil, meu único desejo.”

O estrangeiro não parecia ver ninguém a não ser sua amada. Nos deveríamos estar invisíveis... Zarhil moveu-se lentamente para ele, com os braços encobertos lutando para esticarem-se e tremendo de modo que as dobras de sua capa dourada pareciam estar tomadas por uma radiante fogueira de luz fria. Seu rosto oculto erguia-se na direção do rosto dele, e seus olhos eram duas poças profundas de amor... Mamina começou a segui-los, mas Ali Shazar, com os músculos do rosto contraindo-se de uma forma estranha, deteve-a... O pequeno Ali estremeceu de excitação e espanto.

O desconhecido Príncipe das Estrelas conduziu Zarhil até a mureta onde, sobre o parapeito, estava o seu corcel celestial. A princesa voltou-se e, pela primeira vez, falou numa voz tão doce e comovente que dispensava a ajuda da expressão facial pra transmitir a intensidade de sua paixão... A máscara dourada parecia dissolver-se, e pude ver uma beleza de coração e de formas como nunca, jamais tornarei a ver.           

Continua... 
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