sexta-feira, 24 de setembro de 2010



Volto-me para dentro de mim
 E percebo que há cantos ainda por demais obscuros...
Ouço o silêncio da tarde que se perde
Ao longe, o pio do gavião...
O vento passa, em rodopios e assobios...
a mente vaga, absoluto vazio...
há uma saída desse fatal labirinto...?
O gato transformou-se em um tigre faminto
que ruge a minha porta...
arranha as janelas e se esfrega nas paredes do meu cérebro...        

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

RECOMEÇAR

 

Khuffaash, o Vigilante, do tronco oco da velha amendoeira, olhou para o vale pensamento, perdido, lá embaixo, nas entranhas profundas do tempo, esquecido entre as dobras do passado e do presente. Não tinha mais pressa. Havia achado um lugar, um bom lugar! Finalmente, daqui para o porvir renasceriam e novamente se propagariam sobre a face da terra, para o mundo inteiro sem mais a perseguição ignorante e mortal dos humanos que acreditavam, outrora, que eles não passavam de ratos velhos ou raposas voadoras, cheios de doenças como a raiva, ou mesmo meros cadáveres amaldiçoados transformados em vampiros... seres híbridos, ambivalentes, meio pássaros, meio mamíferos, impuros, amigos de bruxas e demônios, associados a má-sorte, a tristeza e a melancolia e, que, pelo fato de dormirem de ponta-cabeça, seriam avessos à ordem natural das coisas, inimigos da luz, representantes da inveja escondida, mensageiros da morte!

Balelas... apenas balelas! Mitos, lendas, superstições, que ficarão para sempre no passado. É preciso ser justo, nem todos os trataram tal mal assim... Em muitas culturas, nós, os morcegos somos abençoados, sagrados, venerados, tidos, compreendidos como símbolos de inteligência, felicidade, esperança... e, neste momento em que quase toda a Terra mergulha em sombras, esperança, é o que os humanos hão de necessitar agora... urge, então, um harmônico recomeço, antes que tudo se acabe de vez.

A péssima idéia que os humanos tinham a respeito de sua espécie, de qualquer uma delas, repousará no passado; o período em que Khuffaash passara entre eles, entre os humanos, como um deles, lhe foi proveitoso, pois ajudou-os a verem as coisas exatamente como são, ajudou-os a perceberem o erro em que haviam caído, julgando-os de maneira tão maldosa, tão descabida... muitos humanos já sabiam, já conheciam o poder de sua espécie... Já a estudavam a gerações; conheciam suas famílias, seus habitats e seus hábitos alimentares... alguns humanos se tornaram verdadeiros e leais amigos e, ao contrário do que fora propagado por séculos, aprenderam que eles também não eram imortais, portanto, haveria a partir desse novo alvorecer, o reconhecimento e o respeito,  embora tardios, mas justamente devidos, de que os humanos deles precisavam; os humanos necessitavam urgentemente de sua ajuda para salvarem o mundo e assim a sua própria raça e existência, posto que, eles, em sua ambição desenfreada, por pouco não puseram tudo a perder. Até mesmo o último santuário, o ultimo refúgio verde que ainda havia sobre a  Terra, considerado como o “pulmão do mundo”, e que seria o patrimônio, o legado, a herança de todos, quase fora dizimado... a ambição falara mais alto aos seus empedernidos corações... Os humanos foram cegos durante um longo tempo e durante este longo tempo, eles os acusaram de cegueira absoluta... usavam a expressão “cego como um morcego” e no entanto eles é que não conseguiam enxergar a um palmo adiante, cegos à realidade ameaçadora que se descortinava diante de seus olhos. Cegos, eles, os morcegos?! Não eram... nunca foram, aliás, enxergavam muito bem... são os vigilantes; vigiam, enquanto dormem os resto dos seres, como faz Khuffaash neste exato instante... dormem os seres na incerteza dos dias e na inquietudes das noites... dormem sob as asas limitadas, ignorantes e protetoras da negra e inconsciente escuridão do não-ser...            

No cúmplice silêncio da noite, a lua cheia clareava tudo, inundando de luz e beleza o vale do pensamento escondido, que se estendia tranqüilo, além da imaginação.

 Khuffaash abriu as longas asas e aguçou o olfato e a audição... no ar captou o barulho de água, uma nascente de um rio que certamente estaria repleto de peixes, e cheiro de fruta madura... Porém, Khuffaash é um morcego hematófago, ou seja, um morcego vampiro, a espécie mais temida e menos compreendida pelos humanos, precisava mesmo era de sangue para viver, mas, depois... teria tempo suficiente para se alimentar mais tarde, quando a ordem estivesse pelo menos parcialmente restabelecida... três dias seriam suficientes para recomeçar...
        
Khuffaash, o Vigilante, estava cansado, entretanto sabia que a tarefa não podia mais esperar, era chegada a hora... havia tanto a fazer... nuvens de insetos e milhares de pequenos animais roedores já começavam a se espalhar pelo vale, não tardariam a se transformarem em pragas totalmente sem controle... árvores carregadas de frutos maduros, muitos caídos, apodrecendo no chão, já requeriam o transporte de sementes para a fertilização de novas florestas que voltariam a crescer por toda a superfície do globo terrestre, graças ao adubo natural contido em suas fezes, nas fezes dos seus, nas fezes dos morcegos, tudo isso sem esquecermos, é claro, a polinização das flores, que através do vôo direcionado, guiados pelo sentido adicional do biosonar, daria vida a centenas de outras espécies de plantas...

Khuffaash sabe que no futuro que surge, promissor, a saliva de sua espécie, a saliva do tão temido, odiado e perseguido morcego vampiro, de forte ação anticoagulante, ajudará os humanos a tratar várias de suas doenças vasculares; percebem como isso é importante, e, certamente, devem ter ficado mais sábios após tão dura provação, tudo ficou por um triz. De agora em diante, humanos e morcegos, viveriam em paz, em perfeito equilíbrio e equilíbrio, isto pode até soar como redundante e óbvio, é falta de desequilíbrio e vice-versa... para o bem de ambas as partes, os humanos entenderam que eles eram elos importantes, imprescindíveis da cadeia alimentar. Eram seres tão importantes quanto os próprios humanos, ou qualquer um dos outros... cada espécie tinha a sua missão, mesmo os seus inimigos, predadores naturais como corujas, falcões e gambás... era assim que a vida se perpetuava.

Khuffaash olhou para o céu e sentiu seus irmãos se aproximando, o rumor das asas era inconfundível. Desta vez nada havia pelo caminho para os impedir; logo, todas as famílias estariam ali... deixariam as ruínas, os escombros das cidades destruídas para o ambiente fresco, seguro e protetor da mata, para o escuro acolhedor do oco das árvores e das grutas... não demoraria também a chegada dos humanos, e, rapidamente, toda a terra seria novamente um lugar habitável, assim esperava Khuffaash, o Vigilante, e para que isto acontecesse, ele faria o que fosse necessário, até mesmo voltar a ser um deles e outra vez participar da roda viva do seu viver; se fosse necessário... mas, agora, o grande morcego, de longas asas brancas, precisava de descanso... Voltou-se para dentro do tronco; voltou-se para dentro de si mesmo...o sol, amarelo olho do dia, estava prestes a se abrir... esticou e recolheu as asas, manto protetor, cobrindo-se com elas... ao longe, rasgando a quietude do espaço, o canto piedoso de um falcão peregrino.         

       


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

INAPTIDÃO PARA VIVER


Haaa... as esquisitices dos seres... Foi de repente, assim num desatino, descri de qualquer boa intenção. Espanta-me a mesquinhez dos sentimentos que se revela sem querer; uma palavra mal pensada, mal colocada... um revolver de olhos, um dar de ombros, indiferença. Dói na alma estas constatações de pobreza de espírito, não a mesma pobreza de que nos fala um dos livros sagrados, no qual está escrito “que os pobres de espírito herdarão a terra”... Onde está a diferença entre uma e outra, sendo que, em si, a frase, basicamente é a mesma? Feliz é aquele que tem olhos para ver e sabedoria pra entender o que eu cá não posso explicar. Sei apenas que os interesses que nos ligam aos outros são dos mais inúteis, variados e escusos, claro está, que, sendo assim, duvido até de mim. Contar com ajuda de vizinho, parente, amigo ou irmão, é esperar que se importem e esperar soa-me demais penoso e abstrato... Portanto sou adepta do "faça você mesmo" embora seja isto também algo bem difícil e algumas vezes constrangedor, quiçá, simplesmente impossível! Que se há de fazer? Amoldar-me à forma, à fôrma à força? Melhor a forca! Vive-se num constante “Deus nos acuda”, um “entre a cruz e a caldeirinha.” Falo com propriedade, que tudo, tudo me dá nos nervos, sensibilidade à flor da pele, banho-me em suor e tem dias insuportáveis pela sua lentidão e calor, mas cada dia a sua vez e penso na vida e penso na morte e penso na morte e penso na vida e, por fim, em como viver, daí então, depois de tanto pensar e não chegar a nenhuma conclusão, repenso tudo novamente. Ai... dá um cansaço carregar o mundo nas costas! Concluo, finalmente, que sou uma tola, que sofro de inaptidão para viver! Se a pele se rasgasse por inteiro sairia de dentro dela um pássaro ou um tigre faminto? Talvez, em verdade, nenhum dos dois. Sairia sim, uma noite escura, despida de estrela, ferida de lua, afogada em solidão

domingo, 12 de setembro de 2010

A EXPLICAÇÃO DO MERCADOR DE COBRE PARTE FINAL


“Adeus... Adeus minha fiel servidora e amiga. Vou com meu amante para o Vale da Felicidade que esse mundo nunca conheceu ou sequer mesmo sonhou. Ele veio buscar-me, como eu já sabia, e você me confeccionou esta roupa, um emblema de minha fé e confiança nele e ficou ao meu lado nessas últimas horas de espera... Indefesa e muito feliz por estar assim, sei que não poderei mostrar meu rosto ou usar livremente minhas mãos até que o Príncipe do Amor remova este maravilhoso emblema dourado de minha devoção quando estivermos no terraço mais alto de seu palácio... E pela última vez Mamina, vejo-a como a vi uma vez no espelho, antes de vagar em sonho lá fora do palácio... Talvez eu tenha envelhecido durante a espera, mas sinto-me rejuvenescer por baixo de meu véu... No momento em que alcançarmos o terraço do palácio, serei como meu príncipe conheceu-me pela primeira vez.”

Com um grito de impaciência, seu amante saltou para a cela e estendeu os braços para receber Zarhil envolta em seu manto dourado. Então, por alguma mágica dos sentidos, o encanto terminou. A luz do dia pairou sobre nós numa nuvem de torvelinho... Príncipe e cavalo desapareceram no meio dela, mas à medida que minha visão se reajustava, vi Zarhil em pé, cintilando sobre a mureta, antes de oscilar e desaparecer sobre a borda.

Ali Shazar inclinou-se para fora da mureta olhando para baixo, enquanto Mamina estava caída aos seus pés como uma trouxa amarrotada de seda. A cabeça do pequeno Ali repousava tranqüila e satisfeita sobre sua almofada como tinha estado antes, antes de tudo isso acontecer.

Cambaleando, passei pela naja murmurante e juntei-me ao meu cunhado na mureta.

Bem lá embaixo – pois esse pátio havia sido construído no topo de dois lados escarpados de um desfiladeiro rochoso – jazia algo brilhante, perto de um fio prateado de rio.

Inclinamos a cabeça – assim decreta Allah, louvado seja Seu Nome – e, logo em seguida afastamo-nos. Os quatro negros estavam voltados para nós, rostos empalidecidos sob a pele escura.   
Finalmente, sahib, a pedido de Mamina, Ali desceu com eles por um caminho fora do palácio, eu fiquei e com os dedos trêmulos libertei Mamina de sua verde prisão. Seu rosto estava contraído de dor, mas ela nada disse. O pequeno Ali ainda dormia.

Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, meu cunhado voltou sozinho, seguido pelos negros que tremiam da cabeça aos pés. Um deles trazia o manto dourado no braço. Ali Shazar foi até sua esposa, sorrindo.

“Não tema, meu amor,” disse ele com carinho. “Ela não estava lá... Encontramos apenas o manto que você fez para ela... vazio de sue conteúdo, sem manchas, nem rasgado... Zarhil está feliz, e quem pode censurar o príncipe por não ter esperado até que estivessem a sós, em seu palácio para desfazerem-se deste emblema dourado de sua devoção?”

E isso é tudo, sahib. Talvez agora estejas satisfeito.

Saí maravilhado para a escuridão da noite, mas também lembrando do turbante verde de meu amigo, o mercador de cobre, o cobiçado privilegio do peregrino à Meca, que o colocava acima de inverdades deliberadas.          


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A EXPLICAÇÃO DO MERCADOR DE COBRE PARTE VIII


Talvez estivesse sorrindo... Senti que estava, embora nada pudesse ver de seu rosto e do resto de seu corpo, exceto os pés, pois a vestimenta reluzente não possuía aberturas e a envolvia completamente, mesmo sua amplidão permitindo algum movimento limitado às suas mãos aprisionadas. Atrás dela, um vulto vestido de quase idêntica maneira, mas em seda verde, com certeza era Mamina... Ali Shazar erguera-se da sombra ao meu lado e, com o filhinho agarrado ao seu braço direito, andava meio inclinado para o lado em direção à sua mulher... Mas, as mãos dela, ocultas pela roupa, agitaram-se num gesto de silêncio e ela lhe falou baixinho, com os olhos cheios de amor e receio. A princesa Zarhil parecia estar a ouvir alguma coisa. O lugar, então, foi tomado, inundado por uma luz sobrenatural, não deste mundo, e eu sonhei que o estrangeiro da coroa de estrela havia chegado no seu corcel voador...

“Por fim, minha amada; voltei.”

A profunda musicalidade na voz do estrangeiro; e o sorriso divino, a brincar em seu rosto, fez meu coração estancar enviando um forte jato de sangue gelado pelas minhas veias, e tive medo... Não éramos deste mundo, nenhum de nós... Por um momento meu corpo lutou para despertar os sentidos, mas o encanto ainda não podia ser quebrado... Afinal, estávamos realmente adormecidos?

“Vamos! Tempo demais esperamos; meu palácio está preparado e o terraço onde dorme a Aurora nos aguarda... Lá você se despirá do seu manto dourado de fé e eu verei o que não vejo desde a noite na planície, ao pé da montanha... Seu rosto e seus ternos braços macios, cujas caricias sempre recordei com ma dor aguda de amor e saudade... Venha minha princesa, minha Zarhil, meu único desejo.”

O estrangeiro não parecia ver ninguém a não ser sua amada. Nos deveríamos estar invisíveis... Zarhil moveu-se lentamente para ele, com os braços encobertos lutando para esticarem-se e tremendo de modo que as dobras de sua capa dourada pareciam estar tomadas por uma radiante fogueira de luz fria. Seu rosto oculto erguia-se na direção do rosto dele, e seus olhos eram duas poças profundas de amor... Mamina começou a segui-los, mas Ali Shazar, com os músculos do rosto contraindo-se de uma forma estranha, deteve-a... O pequeno Ali estremeceu de excitação e espanto.

O desconhecido Príncipe das Estrelas conduziu Zarhil até a mureta onde, sobre o parapeito, estava o seu corcel celestial. A princesa voltou-se e, pela primeira vez, falou numa voz tão doce e comovente que dispensava a ajuda da expressão facial pra transmitir a intensidade de sua paixão... A máscara dourada parecia dissolver-se, e pude ver uma beleza de coração e de formas como nunca, jamais tornarei a ver.           

Continua...