sábado, 3 de julho de 2010

A EXPLICAÇÃO DO MERCADOR DE COBRE PARTE IV



Logo Mamina se levantou e preparou-se para sair. O fio dourado caiu no chão. As pulseiras tilintaram em seus tornozelos.

“Ele tinha uma estrela na testa”, falou baixinho “e muitos consideram a estrela um símbolo da Verdade, e, meu senhor; bem sabes que não sou de mexericos.”

As cortinas caíram e ouvi seus passos tornarem-se cada vez mais fracos à medida que ela ia em direção a seus aposentos. O cheiro de rosas e jasmins ainda pairava no ar.

“Ela ainda sonha com sua querida princesa,” disse Ali Shazar. “Não posso impedir. Ela se agarra a esse estranho manto verde, embora nunca o tenha usado e espera como ela diz; o chamado...” disse assim e sorriu com indulgência.

O vento frio da noite soprou na sala e a chama da lamparina tremulou... Eu nunca tinha visto Mamina tão triste... “Uma estrela, símbolo da verdade?!”

Ali Shazar sorriu novamente, e pôs o braço em volta dos meus ombros.

“Ela fala assim com freqüência, mas não me importo... não deve haver mal nenhum nessa fantasia.”

Ele era um homem bom, que amava sua esposa com uma gentileza que deveria ser um exemplo para todos os devotos muçulmanos, pois conheço muitos que, a essa altura já teriam tirado toda essa tolice poética de suas mulheres com o açoite. Mas, Ali Shazar, apenas sorria.       

Afinal, sahib, oito anos se passaram sem sequer um único sinal... (o mercador de cobre fez uma pausa, e, rapidamente mudei de posição. Sentar no chão onde um forno acha-se enterrado torna-se desconfortável quando não se nasceu para isso. Inclinou-se para frente e num gesto cortês colocou uma almofada em minhas costas.

No dia seguinte, sahib, eu estava conversando com um moldador de fôrmas no lado norte do bazar... ao ouvir um grunhido de camelo, virei-me de repente e dei um pulo. Ele estava apenas ajoelhando-se à sua posição desajeitada para receber a carga, e eu ri do meu susto. Mas o riso morreu no mesmo instante, pois no outro lado da rua, à luz do sol, vi a figura de uma mulher coberta da cabeça aos pés... de verde. Nas mãos protegidas pela roupa – pois seu manto não tinha nenhuma abertura – segurava um pequeno embrulho de pano que brilhava, um tecido cor de ouro. Estava prestes a entrar numa carruagem fechada, à qual se atrelavam dois magníficos corcéis brancos... um criado negro, de um salto, fechou a porta assim que a mulher de véu verde entrou... seria possível?

Disparei para o sol, piscando como uma coruja. A carruagem já havia partido numa velocidade perigosa, seguida pelos gritos e imprecações das pessoas espalhadas pela rua.

Fiquei parado, a poeira baixando à minha volta, como que hipnotizado, a boca aberta, ouvindo os gritos zangados do bazar como se estivessem a milhas dali... um distante zumbido de abelhas... Mamina! 

Continua...     


             

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