domingo, 18 de julho de 2010

A EXPLICAÇÃO DO MERCADOR DE COBRE PARTE V


 


Comecei a correr. De onde viera a carruagem? Como ela recebera a mensagem? Havia uma mensagem? Então parei. A carruagem atravessara o Portão Norte e partira. Apenas uma nuvem de poeira apinhada de gente permanecia.

Finalmente consegui encontrar Ali Shazar. Ele estava no mercado de camelos, examinando um filhote, branco como o leite. Contei-lhe tudo o que havia visto. Ele riu e disse que eu era tão sonhador e romântico quanto minha irmã; no entanto apressamo-nos para sua casa.

Sahib, ela havia partido... Ali ficou perplexo. Entrando na ala feminina da casa, demos uma busca nos aposentos de Mamina. Sob um vaso de perfumadas rosas do Himalaia, havia um bilhete que, pelo que me lembre, dizia o seguinte:

“Ali, meu senhor... Fui chamada pela princesa Zarhil ontem pela manhã, e parti para cumprir o trato que fizemos há oito anos. Ontem à noite eu havia acabado de fazer o manto dourado da imunidade, e talvez esta tenha sido um pressentimento estranho acerca de tudo isso. A carruagem da princesa aguarda-me agora no bazar. Se você quiser saber como o chamado chegou até mim, lembre-se de que as estrelas às vezes nos fazem confidências e o príncipe vinha das estrelas. Pulyah está segurando o manto verde para mim... querido e fiel negro; ele também está amedrontado. Ficou feliz em me ver depois de oito anos e disse que a minha princesa está mais bela do que nunca.”

“Estou indo. Peço que me perdoe; marido, e, você também, meu irmão. Voltarei logo que puder, ansiando por sua benevolência. Isto não é uma tolice, embora eu não tivesse coragem de lhe contar ontem a noite, quando soube... Beije meu filho por mim.”

O fio de ouro... caindo no chão... ontem à noite quando ela estava sentada ao meu lado, tão triste... Era aquele estranho manto dourado que ela estivera fazendo, não a camisa do pequeno Ali. Se eu tivesse percebido claramente, poderíamos ter impedido essa jornada insensata na mesma hora.

Naquela tarde cavalgamos para fora de Peshawar, Ali e eu, à procura de Mamina. O rosto de meu cunhado estava pálido de raiva e angústia. De alguma forma senti que Zarhil não lhe faria nenhum mal deliberadamente e foi o que lhe falei. Ali resmungou e pressionou suas esporas no cavalo, mas percebi que partilhava a minha opinião.

Não sabíamos pra onde ir, a não ser em direção ao palácio do falecido príncipe Hassan, perto das montanhas do Norte. Cavalgamos sem parar, com uma leve esperança agitando-se no peito de que ainda pudéssemos a carruagem e sua indefesa e enroupada ocupante.

O sol pôs-se fora de nossas vistas e o céu cobriu-se de verde e ouro, e verde outra vez. Ali Shazar estremeceu quando olhou para as cores.

A noite caiu, e também nosso ânimo... Ao lado de um pequeno fogareiro que havíamos trazido nos agachamos, enrolados em nossas mantas de viagem feitas de lã persa – pois nas montanhas, shaib, as noites são muito frias. De súbito, uma estrela saltou de seu lugar e, mudando de direção, caiu arás da linha negra entrecortada dos montes a nossa frente.

Continua...       

sábado, 3 de julho de 2010

A EXPLICAÇÃO DO MERCADOR DE COBRE PARTE IV



Logo Mamina se levantou e preparou-se para sair. O fio dourado caiu no chão. As pulseiras tilintaram em seus tornozelos.

“Ele tinha uma estrela na testa”, falou baixinho “e muitos consideram a estrela um símbolo da Verdade, e, meu senhor; bem sabes que não sou de mexericos.”

As cortinas caíram e ouvi seus passos tornarem-se cada vez mais fracos à medida que ela ia em direção a seus aposentos. O cheiro de rosas e jasmins ainda pairava no ar.

“Ela ainda sonha com sua querida princesa,” disse Ali Shazar. “Não posso impedir. Ela se agarra a esse estranho manto verde, embora nunca o tenha usado e espera como ela diz; o chamado...” disse assim e sorriu com indulgência.

O vento frio da noite soprou na sala e a chama da lamparina tremulou... Eu nunca tinha visto Mamina tão triste... “Uma estrela, símbolo da verdade?!”

Ali Shazar sorriu novamente, e pôs o braço em volta dos meus ombros.

“Ela fala assim com freqüência, mas não me importo... não deve haver mal nenhum nessa fantasia.”

Ele era um homem bom, que amava sua esposa com uma gentileza que deveria ser um exemplo para todos os devotos muçulmanos, pois conheço muitos que, a essa altura já teriam tirado toda essa tolice poética de suas mulheres com o açoite. Mas, Ali Shazar, apenas sorria.       

Afinal, sahib, oito anos se passaram sem sequer um único sinal... (o mercador de cobre fez uma pausa, e, rapidamente mudei de posição. Sentar no chão onde um forno acha-se enterrado torna-se desconfortável quando não se nasceu para isso. Inclinou-se para frente e num gesto cortês colocou uma almofada em minhas costas.

No dia seguinte, sahib, eu estava conversando com um moldador de fôrmas no lado norte do bazar... ao ouvir um grunhido de camelo, virei-me de repente e dei um pulo. Ele estava apenas ajoelhando-se à sua posição desajeitada para receber a carga, e eu ri do meu susto. Mas o riso morreu no mesmo instante, pois no outro lado da rua, à luz do sol, vi a figura de uma mulher coberta da cabeça aos pés... de verde. Nas mãos protegidas pela roupa – pois seu manto não tinha nenhuma abertura – segurava um pequeno embrulho de pano que brilhava, um tecido cor de ouro. Estava prestes a entrar numa carruagem fechada, à qual se atrelavam dois magníficos corcéis brancos... um criado negro, de um salto, fechou a porta assim que a mulher de véu verde entrou... seria possível?

Disparei para o sol, piscando como uma coruja. A carruagem já havia partido numa velocidade perigosa, seguida pelos gritos e imprecações das pessoas espalhadas pela rua.

Fiquei parado, a poeira baixando à minha volta, como que hipnotizado, a boca aberta, ouvindo os gritos zangados do bazar como se estivessem a milhas dali... um distante zumbido de abelhas... Mamina! 

Continua...