domingo, 20 de junho de 2010

A EXPLICAÇÃO DO MERCADOR DE COBRE PARTE III



 Bazar_Cidade de Isfahan
Foto: ?

   
Quatro anos atrás, sahib, estive na cidade de Peshawar, visitando meu nobre cunhado. Estávamos à mesa. Ali Shazar – este é seu nome – estava feliz. O comércio de camelos de Bokhara estava prosperando, seus cofres estavam bem cheios, e seu filhinho de oito anos era, e ainda é, uma fonte de alegria para ele.

Estávamos no aposento superior da casa, e, à medida que a noite se aproximava, o clamor do bazar diminuía até um murmúrio entorpecedor. Atrás de nós, separada por uma pesada cortina de purdha, estava Mamina, trabalhando numa camisa bordada para seu filho. Ela cantarolava baixinho. Ali Shazar levantou-se com um sorriso e chamou-a pra que se reunisse a nós enquanto tomávamos nosso café. Timidamente ela entrou e, atrás dela, a cortina baixou com um ruído surdo. Um aroma de rosa e jasmim encheu a sala. Sinos de um templo pareciam estar tocando à distância: seus tornozelos... Beijei-a na testa e notei que seus olhos sombreados pareciam graves e distantes. Sentou-se a meu lado e esperou que me dirigisse a ela – pois tal é o costume, shaib.

“Bênçãos e saudações, minha irmã. Como vai o meu sobrinho?”

“Bem, meu irmão. No momento ele dorme no terraço.”

Ela desviou o olhar e suspirou. Fiquei imaginando se esse aspecto triste lhe tivesse sido dado pela vida que levou, vergada pela servidão que tão cedo lhe foi imposta e pelo cativeiro – pois, sahib, não somos uma família de serviçais, o sangue dos príncipes uzbeques corre em nossas veias. No entanto, ela havia sido bem tratada. Ali Sahzar também observou sua mulher e falou:

“Minha amada, mãe de meu filho, por que você está tão triste esta noite?”

Um criado entrou com uma lamparina e rapidamente Mamina cobriu o rosto com seu véu de musselina. Quando ele saiu e a porta se fechou novamente, ela ergueu os olhos, deixando o véu escorregar entre suas mãos adornadas com jóias... Notei um longo fio de ouro estendido em seu colo sobre seu pijama de seda branco... da camisa do pequeno Ali, sendo bordada em ouro enquanto ele dormia sob as cândidas estrelas...

“Não, meu senhor, não estou triste,” ela respondeu, “apenas, talvez, um pouco cansada, pois esta camisa que estou bordando para o nosso filho requer olhos firmes e dedos cuidadosos.”

“Onde está sua antiga senhora, a linda princesa Zarhil?” perguntei.

Mamina lançou um olhar espantado para mim.

“Meu irmão, eu... eu não sei com certeza. Dizem que ela ainda vive em seu palácio, no alto da cidade, onde morava com Hassan. Dizem as pessoas da cidade, que, quando sai ela deixa a carruagem na porta das lojas e vai a um certo lugar atrás do mercado, perto de um antigo caravançarai, onde fica, muito quieta, às vezes por uma hora, como um monumento velado, escutando... esperando captar o ruído das asas do corcel de seu príncipe... Contei-lhe do sonho que ela teve, há muitos anos meu irmão. As pessoas pensam que ela é louca, mas não acredito. Um dia saberei... quando ela mandar chamar-me. Isso já lhe contei também.”     

‘Bah!”sorriu Ali Shazar com descrédito, “tudo isso é loucura. Fantasias de mulher. Onde você ouviu esse boato? A princesa Zarhil agora deve estar casada com outro e em segurança. Um fruto tão bonito não fica muito tempo sem ser colhido. Já faz oito anos ou mais que você a viu.”

Mamina ficou em silêncio. Parecia estar olhando além de nós, além da cidade de Peshawar, para dentro da noite, lá longe onde ficam as montanhas do Norte, como gigantes adormecidos.


Continua...                            

domingo, 13 de junho de 2010

A EXPLICAÇÃO DO MERCADOR DE COBRE PARTE II



Mamina, disse ele, “a fiel servidora da princesa Zarhil, era minha irmã. Capturada durante um ataque a uma caravana, o que custou a vida de meu pai, ela – que tinha apenas três anos de idade – e minha mãe tornaram-se propriedades de Hassan. Nesse tempo ele era apenas um príncipe, um rapazote. Minha mãe morreu quase em seguida, dos maus tratos que recebeu nas mãos desses saqueadores – que Allah faça queimar suas almas impiedosas! Eu, sahib, na idade de dez anos, fiquei órfão e tornei-me um aprendiz de Habib Alam, o oleiro cego de Tiflis, um devoto servidor de Allah e amigo de meu pai.

Mamina cresceu servindo a Hassan. Nós nos encontrávamos duas vezes por ano, sempre que eu tivesse juntado dinares suficientes para fazer, em lombo de camelo, a viagem de Tiflis até Kabul... já faz quase vinte anos.

Quando Hassan tomou Zarhil por esposa, Mamina tornou-se sua serva e amiga pessoal.

Hassan agora está morto... Mamina, três anos depois, com a idade de vinte e três anos, casou-se com um nobre proprietário de camelos e usa a burqha de seda preta das ricas senhoras de Peshawar. Ela o encontrou... bom, mas isso não importa, essa é uma outra historia, sahib, e o mundo está cheio de histórias, não estou contando uma? Muito tempero estraga até o melhor carneiro... isso foi há doze anos. O filho de minha irmã traz alegria aos meus últimos anos ajudando-me na loja.

Na noite em que Mamina partiu para a zenana de seu marido, a princesa Zarhil ficou muito triste. De seus olhos, Mamina contou-me, rolavam lágrimas grandes e belas como as pérolas do Ceilão... Ah, como ela devia estar bonita, sahib... O s olhos, sempre escuros de saudade, brandos de paciência, enternecidos de amor pelo Príncipe das Estrelas... enchendo-se facilmente de lagrimas... Ela tirou o manto verde do baú de cedro e entregou-o à minha irmã.

“Minha fiel amiga,” falou com suavidade, “leve isso, o símbolo do confinamento em que tenho vivido, e memória inesquecível de meu sonho de verdadeiro amor. Se for a vontade de Allah que esse sonho se torne realidade; pedirei a você, através de uma mensagem, que me faça outro ainda mais belo, num brilhante tecido de ouro, e que o traga para mim; e você deve aparecer trajando o manto verde que eu tanto estimo. E então veremos. Não me decepcione, Mamina.”

E assim Mamina partiu, com o brilhante manto da imunidade escondido sob a burqha... Sem saber o que pensar, com soluços apertados na garganta.


Continua...