domingo, 30 de maio de 2010

A EXPLICAÇÃO DO MERCADOR DE COBRE





A Travessia Dourada; Sirdhar Ikbal Ali Shah; Edições Dervish


Como disse antes, o mercador de cobre presenteou-me com o manto da imunidade, que pertencera a linda princesa Zarhil, e eu ainda o guardo. De alguma forma, no entanto, senti que sua história não havia terminado. De fato, que história na vida termina senão com a morte? E, mesmo depois dela, quem saberá? Assim, certo dia, ao cair da tarde, procurei-o novamente. O sol estava a rumar pro seu descanso e as ruas de Konia estavam impregnadas de ouro, com sombras escuras de cor púrpuras. Uma multidão passava por mim, indo e vindo, apressada, conversando; camelos surgiam do meio da multidão, grunhindo sob o peso das mercadorias, condutores gritavam... e apesar disso, a suave luz dourada do entardecer reduzia essa barulheira desordenada e desarmônica a um murmúrio quase harmonioso... Duas mulheres trajando impenetráveis burqhas brancas passaram em silencio, e uma delas voltou seu invisível rosto protegido pelo manto e observou-me através da estreita tira de renda que se estendia no lugar onde deveriam estar seus olhos... Zarhil? Poderia ser... Não, a burqha de Zarhil era azul, um azul claro, de sonho.

Finalmente cheguei ao sarai do mercador de cobre. O irrecusável café foi servido depois das saudações inevitavelmente elaboradas. Lá fora, o dourado mudava suavemente para azul. Outra mulher passou, parou e voltou-se para pegar uma pequena panela de cobre com sua mão firmando a burqha em volta de sua cabeça sem rosto. O mercador de cobre fez menção de se levantar, mas a mulher pôs de lado a panela e foi-se.

“Diga-me,” perguntei “o que aconteceu afinal à princesa Zarhil?”

Agha, na realidade, o que poderia acontecer?” Sonhos, dizem, orientam-se pelos opostos, e a princesa Zarhil teve um sonho muito agradável... um lindo sonho!”

“Mas, e o manto verde que você me deu,” eu insisti “você o obteve depois da morte de Zarhil, ou como?

“Vocês são curiosos,” suspirou o mercador de cobre, alisando a barba, “não conseguem abandonar uma história em seu final poético. Deixamos Zarhil no terraço de sua zenana, envolta no brilhante manto verde, suspirando por seu Príncipe de Sonho, numa tristeza, que, ao mesmo tempo a deleitava e lhe rompia o coração. Então, como senti queseu interesse na história não era vã curiosidade, mas algo um pouco mais elevado, como , digamos um amor pelo improvável ou impossível, dei-lhe aquele manto verde, para que ficasses imaginando. Acho natural você querer saber mais, embora eu – e também já fui jovem, Agha sahib – preferisse ignorar os fatos que se seguiram e deixar a minha fantasia pintá-los como desejasse...”

“Vamos lá, sábio ancião, a menos que os fatos subseqüentes sejam tediosos e desinteressantes, por que omiti-los?”
“Quem pode julgar o que é interessante ou não? Apenas o destino, a mente do ouvinte ou, talvez, a voz do narrador; enquanto que, aquilo que não é dito está sempre repleto de interesse. Não é assim? E o que faz você estar tão certo de que existe um prosseguimento?”

“O manto que tenho...” falei gentilmente.

O mercador de cobre esvaziou sua xícara e colocou-a na escuridão atrás dele.


Continua...    

            

sábado, 29 de maio de 2010

O MANTO VERDE DA IMUNIDADE PARTE FINAL

 



Ayab, minha ama, acorde, ou será tocada pelo sol malvado, pois ele já está bem alto no céu.”

Zarhil abriu os olhos e encontrou-se deitada em seu terraço em plena luz da manhã. Mamina estava abaixada ao seu lado, apertando seu ombro gentilmente.

A princesa estava só. Soltou um grito abafado... um sonho, um sonho, exatamente o que seu príncipe havia temido... e o manto da imunidade?

“Mamina, Mamina, onde está meu manto da imunidade?”

“Senhora, não existe tal manto” respondeu Mamina “Nós temos apenas a nova burqha preta que trouxe meu amo.”

“Não, não! Ah, desgraça. Estou como estava antes. Allah é justo. Allah é misericordioso,” e, baixando a cabeça, a princesa chorou amargamente. De repente, parou. Por que não descrever a roupa para Mamina? E, então, uma poderia ser feita e ela poderia repetir na realidade o que havia sonhado. Não havia motivos para que o senhor Hassan não desse seu consentimento. Allah era generoso, pois abençoou-a com uma ideia enquanto dormia.

Assim, o manto da imunidade foi realmente confeccionado por Mamina, e a princesa Zarhil, após vesti-lo, foi até seu marido e implorou com seu jeito mais sedutor pela limitada liberdade que ela. Pobrezinha, desejava. Infelizmente, minha história termina aqui, uma vez que o sultão foi inflexível, e não deixou que ela saísse a não ser em sua carruagem.

Portanto, toda noite, quando a lua estava sobre as montanhas, a princesa andava no terraço de sua zenana, envolta no lindo manto da imunidade e com voz desalentada cantava sobre seu belo príncipe desconhecido... a brisa fresca da noite empurrava as dobras de seda do manto de sonho contra seu corpo enfraquecido, e ela tentava com todo esforço acreditar que eram os braços de seu príncipe, que, pelo que se sabia, ainda estava junto ao corcel alado naquela planície salpicada de flores.

Continua...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O MANTO VERDE DA IMUNIDADE PARTE V



“Venha,” disse o desconhecido. “Finalmente a encontrei. Nenhum véu é capaz de ocultar de mim a sua beleza.”

Rapidamente ele tomou em seus braços a forma envolta da princesa e saltou para a sela. O cavalo resfolegou uma vez e logo subiram no ar, navegando para além do minarete e dos bazares, onde as pessoas, como tontas formiguinhas agitavam-se de um lado para o outro.

“Erga sua burqa e coloque os braços a minha volta,” disse o desconhecido, “e você estará mais confortável.”

“Não posso,” sussurrou Zarhil, “tenho outro véu sob a burqha, e não posso esticar meus braços, pois estão confinados num manto interior impenetrável, sem nenhuma abertura.”

O estranho baixou os olhos para aquele rosto invisível e sorriu.

“Uma beleza como esta está bem guardada,” murmurou, “mas já veremos.”

Assim viajaram em silêncio por muitas horas. O coração de Zarhil encheu-se de uma estranha alegria. Logo ela sentiu estar caindo e tentou agarrar o braço do príncipe.

“Descansaremos aqui,” disse ele.

O corcel alado desceu suavemente e o desconhecido com maneiras de príncipe ergueu Zarhil da sela e colocou-a no chão. A lua crescente estava sumindo no horizonte, e a aurora derramou seus pálidos raios sobre eles.

“Venha, deixe-me ver seu rosto, amor,” e ele retirou a burqha da princesa, que tremia diante dele. Então, desatou o manto da imunidade, que caiu como uma cascata cintilante aos seus pés.

O dia estava nascendo e a luz crescente mostrou-lhes que estavam numa planície fértil,, pontilhada por pequenos bosques de palmeiras. O lugar estava coberto de lindas flores brancas, cujo leve aroma enchia o ar com um estranho e envolvente perfume.

“Meu amor...,” murmurou o desconhecido, “o êxtase que tomou meu coração me impede de falar... Você é bela demais para ser real... Nós estamos em um sonho. Ó luz do meu desejo, vamos nos amar antes que o sol, em seu afã pela realidade, lance seu olhar sobre nós e nos faça desaparecer.”

“Não fale assim, meu príncipe,” suspirou Zarhil, enlaçando os dedos nos cabelos dele, “pois esperei muito tempo por isso para que passe assim. Muitas vezes, no terraço mais alto de minha zenana, cantei sua chegada, nunca ousando ou esperando que isso pudesse ser verdade. Meu senhor é tão rígido, e eu sou jovem e, como você diz, bonita... É estranho eu não estar envergonhada por estar sem véu, pois sempre estive tão velada e de um modo tão severo; mas se alguma forma, sinto que sempre o amei, meu nobre e desconhecido príncipe. Veja, o sol está surgindo, e eu tenho medo que você me abandone...”

Eles deixaram-se cair sobre as flores brancas a seus pés. O vento leve da manhã ergueu o manto da imunidade de onde a princesa o havia deixado cair espalhou-o sobre seus pés. A vida para Zarhil havia apenas começado. As horas pareciam passar depressa, sussurrando entre si...

Continua...        

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O MANTO VERDE DA IMUNIDADE PARTE IV















Ela estava muito excitada e, embora com todos os seus véus a pobrezinha mal pudesse ver, era o suficiente para fazer com que seu coração batesse forte dentro do peito.

Pelas avenidas de palmeiras, onde as crianças brincavam alegres ao sol do fim da tarde, caminhava a princesa, segurando sua burqa da melhor forma possível, bem junto ao rosto, para que seu olhos nada perdessem... Novamente a brisa da noite sussurrava pela esquina da praça do mercado e pressionou levemente suas vestes contra um dos lados do seu corpo. Ela sentiu uma sensação de aconchego, de estar bem resguardada dos males do mundo e dos olhares lascivos, e encolheu-se prazerosamente como alguém numa cama quente em noite fria.

Em silêncio andou pelas ruas e bazares, onde outras mulheres muçulmanas envoltas em branco ou negro regateavam em voz baixa e monótona e levantavam a barra de suas burqas para pegar suas compras, recolhendo-se novamente como tartarugas.

A princesa dobrou uma esquina entrando numa alameda, e avistou meio indistinta, a lua crescente acima de um alto minarete. Balcões de zenanas, que se projetavam a pouca altura sobre as ruas – todos fechados como ela, para olhos curiosos – lançavam sombras densas à sua frente e atrás dela. De repente sentiu medo, estava tão indefesa; totalmente sem liberdade de movimentos...

A luz do dia parecia diminuir e começava a desaparecer do céu. Ela continuou andando sem destino, espiando pelas portas abertas, onde mercadores de tapetes e artesãos joalheiros guardavam calmamente suas mercadorias, sentados com as pernas cruzadas sobre algum tapete de valor inestimável... Então, das sombras purpúreas atrás de um estábulo em ruínas surgiu um vulto alto de homem. Estava vestido de branco; como névoa e o rosto, sob o turbante, era o mais belo que a princesa Zarhil jamais havia visto – nem mesmo em sua juventude, antes de se tornar purdah. Uma estrela parecia irradiar de sua testa. O coração de Zarhil parou e ela se encolheu. O olhar do homem queimava através de todos os seus véus...

Seria este o estranho príncipe de quem falavam suas canções? Onde estavam seu cavalo?

Mal esse pensamento lhe veio à mente, viu atrás do jovem o corcel, com as asas reluzentes na luz que se extinguia.


Continua...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O MANTO VERDE DA IMUNIDADE PARTE III





“Será?!” murmurou a princesa Zarhil. “Parece ser realmente impenetrável, e deverá proteger-me contra qualquer golpe de vento. Venha, vamos experimentá-lo.

Mamina ajudou-a a entrar na roupa, que, ingenuamente chamou de manto da imunidade, e ajustou-a em volta da cabeça de sua senhora. A princesa mirou-se num espelho alto, observando cada detalhe de sua figura envelopada em verde e seus olhos cintilaram de esperança e prazer através da abertura da parte que lhe cobria a cabeça... o manto verde caia em pregas suaves da cabeça aos pés. Suas mãos encobertas faziam ondular os reflexos de luz sobre as dobras do tecido à medida que ela as agitava com uma alegria infantil... Seus pequenos pés surgiam através dos buracos na parte inferior do traje como tímidas crianças rosadas.

“Não há duvida de que estou bem segura dentro disso aqui”  pensou a princesa, “pois o vento não pode soprá-lo nem para cima nem para o lado já que estou fechada da cabeça aos pés e não posso mostrar as mãos mesmo que quisesse. E, se, além disso, usar minha burqa sobre o manto verde de segurança, meu senhor, com certeza, permitirá que eu passeie lá fora a pé... Vou visitá-lo agora e mostrar-lhe isso.”

Ela afastou-se do espelho e foi andando, uma encantadora visão de graça envolta em verde, na direção dos aposentos dosultão...

O príncipe Hassan, precedido por um criado, entrou e examinou o enigma enroupado que estava diante dele.

“Senhor” disse a princesa Zarhil, “nós fizemos este manto e assim vestida vim até vossa presença para rogar-lhe que me permita sair a pé, uma vez que este manto é feito de tal maneira que não poderá ser levado pelo vento ou expor qualquer parte de meu indigno corpo. Veja...”

Zarhil movimentou-se de um lado para outro, dando voltas e mais voltas, mexendo-se bastante para mostrar que realmente não havia nenhuma abertura escondida no manto de seda verde.   

Hassan ficou extasiado. Ali estava sua doce princesa, cuja beleza e meiguice incomuns, ninguém, a não ser ele, conhecia. Ali estava, diante dele, uma figura tremeluzente de sedutor abandono. Suas mãos sob a roupa erguiam-se para ele num gesto de súplica, e a luza que vinha da seda brincava em sua silhueta para cima e para baixo, como fogo mágico... Nesse momento Hassan sentiu muito amor por ela, e apaixonadamente agarrou o pano esticado debaixo do qual se encontravam seus dedos tingidos de henna. Zarhil retribuiu seu toque com um aperto caloroso, inclinando-se para ele. Seus olhos, através da estreita abertura na capa, estavam escuros e suplicantes.

“Meu senhor” disse ela num sussurro, “também usarei a minha burqa sobre o manto, então, certamente o senhor me deixará ir.”

O sultão meneou vagarosamente a cabeça, concordando: “Vá, mas tenha o cuidado de não falar com ninguém.”

E assim, finalmente, a princesa Zarhil pôs-se a pé, a caminho da cidade. Já estava no fim da tarde quando sua forma duplamente velada passou rapidamente pelos portões do palácio. Uma brisa noturna enrolou sua burqa azul clara em torno de seus joelhos, mostrando, por um instante um raio verde brilhante: o manto da imunidade, para ela um maravilhoso manto de liberdade.  


Continua...