sexta-feira, 16 de abril de 2010

SAYONARA

 Arabic_woman


"É saudade então
E mais uma vez
De você fiz o desenho mias perfeito que se fez: 
Os traços copiei do que não aconteceu
As cores que escolhi entre as tintas que inventei
Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos
De um dia sermos três"
(Legião Urbana)

***








Um conto de Gian Danton



<3


A verdade é que nem me lembro ao certo de quando a vi pela primeira vez. O que me recordo é de uma tarde cinzenta, com nuvens escuras no céu, anunciando a chuva. 

Estava andando pelas ruas movimentadas do centro quando a vi em meio a multidão. As vestes árabes cobriam todo o corpo e escondiam a maior parte do rosto. Passaram-se apenas alguns segundos antes que eu a perdesse de vista, mas foi como se ritmo das coisas tivesse se alterado. Como se um único segundo durasse todo um século. Diante dela, até mesmo os pássaros do céu pareciam movimentar-se lentamente. Abriam e fechavam vagarosamente as asas, e lançavam através das nuvens um pio estridente que se perdia no horizonte. 

Inclinei a cabeça para o lado e a acompanhei com os olhos até que desaparecesse na multidão de cabeças anônimas. Só então o mundo voltou ao normal.

Mas não eu.

Não dormi naquela noite e nem nas seguintes. Mergulhei numa orgia de vinhos e jogos. Durante o dia, tendo os sentidos enevoados pelo sono e pela bebida, caminhava trôpego até a mesquita e permanecia lá, em estado de completa letargia. Era perseguido por um mal que perseguia desde o nascimento. Eu tinha medo. Não de fantasmas, bandidos, armas ou feras...

Eu tinha medo de gente.

Desde a mais tenra idade eu fugia delas. Evitava multidões, e, corria de aglomerações. Colocaram-me num colégio interno.

Foi na época da expansão cultural árabe. A religião de Mohammed se espalhava pelo mundo através de missionários e crescia com a mesma rapidez com que suas mesquitas eram construídas. A Amazônia, última área verde do planeta, oferecia grande campo de difusão. Assim, os minaretes despontavam por entre as árvores...

Apesar disso, meus pais decidiram me internar num colégio tradicional, de fé católica. Antes não o fizessem. Os outros alunos me repugnavam. Eu permanecia em minha carteira, no canto mais escondido da sala, remoendo considerações sobre algum detalhe novo no solo. Uma minúscula formiga era o bastante para despertar minha atenção por longos minutos.

Qualquer tentativa de aproximação dos outros internos se revelava infrutífera. Era como se não existissem.

Esse comportamento, evidentemente, despertou a atenção daqueles que fazem do sofrimento alheio a sua própria alegria. Tornei-me alvo de brincadeiras e insultos que me magoavam profundamente quando meu estado de torpor me permitia percebê-los.

Comecei, então, a acreditar que todos que se aproximavam de mim tinham a mesma intenção e me afastei mais completamente de todos.

Passei vários anos assim, apartado do mundo, mergulhado nos livros, até que a morte súbita de meu pai e, posteriormente, de minha mãe, me levassem a assumir a herança.

Comprei uma velha casa de dois andares e me enfurnei nela. Amava a noite pela sua solidão e odiava o dia. Ganhei com isso um horror doentio ao sol. O dia e eu convivíamos apenas quando nuvens escuras escondiam o astro-rei, como naquele em que encontrei Sayonara.

Esse era seu nome. Visitei vários dias a Mesquita, até que ouvisse chamá-la pelo nome. Vislumbrei seus dedos brancos, pequenos e finos manipulando uma espécie de terço. Calculei a branquitude do corpo por debaixo das roupas. Extasiei-me com seus cabelos quase loiros e lisos, que eu entrevia por debaixo do véu. Gastei nisso uma semana, observando-a, indiferente ao que acontecia à minha volta. Só então reuni coragem para falar-lhe.

Como descrever o que vi? Como dar idéia dos sentimentos que me arrebatavam enquanto eu ouvia sua voz fina, quase infantil?

Seu jeito meigo, seus gestos suaves, mas firmes... como descrevê-los?
Passava os dias assim, observando-a rezar o terço de osso de camelo incrustado de pequenas pedras douradas, que seguiam nas mais variadas direções, compondo desenhos geométricos de incrível beleza. 

Dominado pelo mal que me assolava, passei a ver naquele conjunto de pedras a própria essência de Sayonara.

Dormia pouco de noite. Passava as noites cambaleando pelos bares, sentado nos cantos mais escuros e úmidos, degustando vinho plebeu em canecas de ferro que pareciam nunca ter visto água.

Foi numa dessas noites que ela me encontrou. O chão de pedras reboou os passos de suas botas de couro com pontas finas. Ela andou até o balcão e resmungou algo para o atendente. Pegou, então, uma caneca com os dedos finos e brancos e me olhou. Segundos depois a calça jeans apertada roçava a cadeira ao meu lado. Ela se inclinou - a camisa preta revelando um tórax tão ou mais branco que os dedos, e disse algo.

O álcool tinha galopado pelo meu sangue na direção do cérebro. Com efeito, tudo que minha maldita memória me permitia recordar é de seus olhos injetados de sangue. Pareciam olhos velhos. Velhos como o mundo... como se tivessem presenciado todas as desgraças de todos os tempos: os horrores da guerra dos cem anos, a morte dos inocentes na Revolução Francesa, o massacre de estudantes na Praça da Paz Celestial, em Pequim. Olhos velhos e cansados...

Parecia ouvir uma canção, vinda sabe Deus de onde:

"Uma nuvem encobre o céu, uma sombra envolve o seu olhar.
Você olha ao seu redor e acha melhor parar de olhar.
São olhos iguais aos seus, iguais ao céu ao seu redor..."

Algumas canecas de vinho depois; perdi a consciência. Acordei num quarto escuro e ela ao meu lado. Ficamos abraçados, sentindo a pele um do outro: sua epiderme conseguia ser ainda mais branca que a minha, fazendo crer que o sol jamais a havia maculado.

Por todo o resto da noite mergulhamos um no outro. Fizemos tudo que a torpeza do álcool nos permitia, ou nos exigia. Em pouco tempo, não diferenciava o meu corpo do dela. Escorria como mercúrio pela sua pele alva, seus seios pequenos, seus cabelos lisos brancos iluminados pela luz mórbida de uma vela...

Acordei no dia seguinte com o estômago embrulhado, a cabeça martelando e um gosto de ácido na boca. Depois de uma longa caminhada, cheguei em minha casa e despenquei sobre uma poltrona. Fiquei lá, sem coragem para me levantar. Pensava em Sayonara, e na outra, da qual não sabia nem mesmo o nome...

O vinho arrancou de mim todo e qualquer remorso pela traição. Continuei visitando Sayonara de dia, ouvindo sua voz fina de criança, deliciando-me com seu jeito virginal...

Amava Sayonara de dia e me encontrava com a outra de noite. Dividia minha paixão entre as duas: a beleza infantil de uma na aurora e a segurança e a sensualidade de outra ao crepúsculo. Esta fazia de mim um objeto de seus prazeres. Dominava-me por completo e desaparecia antes que o sol nascesse, deixando-me completamente exausto e bêbado.

O tempo se encarregou de ir tornando essa relação ainda mais doentia. Quis fugir. Entrava nos bares mais escondidos, nos locais mais obscuros... mas ela sempre me achava.

Como um viciado, que não pode prescindir de seu próprio veneno, eu a seguia... e terminávamos as noites, inevitavelmente, em orgias descontroladas.

Uma noite resolvi não sair, estava decidido a resistir. No céu uma tempestade se formava com imensas nuvens de chuva juntando-se em grandes trovões que retumbavam nos alicerces do casarão. Um vento forte uivava, fazendo com que as árvores sacudissem violentamente seus galhos.

Um barulho metálico chamou minha atenção. Era ela que, de alguma maneira, abria a porta. Perseguia-me!

Um relâmpago entrou pela janela e iluminou seu rosto branco, as pequenas rugas nos cantos dos olhos injetados de sangue, os lábios quase transparentes...

Então o ódio se apossou de minha alma. Lembrei de Sayonara, do seu jeito angelical, do amor puro que sentia por ela, e envolvi o pescoço da outra com meus dedos trêmulos. Ela tentou lutar, agitou os braços, escorregou. Seus olhos ficaram ainda mais injetados de sangue. Depois cedeu, deixando cair os braços ao longo do corpo. Antes de morrer ela me lançou um último olhar de carinho...

Seu corpo  amoleceu e eu o segurei. Foi quando meus dedos tocaram em algo no bolso de sua calça, pequenas protuberâncias...  Nervoso, retirei o objeto... Era o terço, o terço de Sayonara, incrustado de pedrinhas douradas. Olhei para o corpo em meus braços e vi nele a expressão virginal de Sayonara, os dedos pequenos, a pele branca... 

Só então compreendi!

Envolvi-a com meus braços e depositei em seus lábios um último beijo de adeus...

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Em nome dos velhos tempos e de uma bela amizade que se perdeu (V. A)


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