domingo, 18 de abril de 2010

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-CARMEM DOIDA

CARMEM DOIDA


 Mady Benzecry



Carmem-doida! Gritava
a criançada da antiga
praça da prefeitura,
a Carmem-doida endoidava
mandava banana pra todos,
cuspia a dentadura
xingava a mãe e a família
da garotada e berrava
os piores palavrões...

Carmem-doida! E a tua mãe,
está no hospício também?
"No céu! Seus mizerentos
rebentos do Satanás,
na paz do Senhô, ela está!"
E ia ao "Juizado
de Menores" se queixar!

"Seu juiz, não é prussive,
tanta, tanta bandalheira,
eu sou muié de respeito
e não ardimito brincadeira!
A gente tem de acabá
com esses moleque de rua,
já é a quinta dentadura
que eles me faz quebrá,
entonces esta, foi cara,
ganhei ela de natar
e tinha um dente de ouro
bem na frente, seu dotô
eles tem de me pagá!"

E lá se iam dois guardas
a garotada autuar...

Um dia, foi no Natal
uma "vaquinha" correu
na praça da prefeitura
e Carmem-doida ganhou
um presente dos meninos
com cinco dentes de ouro
uma nova dentadura!
E desde então Carmem-doida,
muito mais doida, ficou...

(Mady Benzecry [1] In: Sarandalhas, 1967)

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O que foi feito de Carmem doida...?! A famosa louca que andava solta, nua ou enfeitada, pelas ruas da cidade, a vagar solitária por tão incompreensíveis e estreitos caminhos de sua mente em torvelinho?
Guardo comigo uma única lembrança de Carmem doida, uma lembrança dolorosamente nítida, que encheu-me de terror nos meus tempos de criança. Descobri como alguns seres humanos podem ser apenas carcaças sem compaixão; desprovidos da centelha de luz divina que ilumina e aquece o espírito, um poço de pura e total escuridão.
Carmem Doida costumava vir muito ao nosso bairro; especialmente a nossa rua, pois, muitas vezes ia à casa de G. C. onde sua esposa, sempre a sua revelia, lhe preparava um prato de comida. Carmem Doida, após saborear a comida e beber um copo de água, lá se ia, contente da vida, ladeira cima. Nós, crianças, ficávamos quietinhas, olhando aquela pobre moça, ainda jovem, tão perdida.
Um dia, para desprazer de todos o velho G. feito o ”ogro” dos contos infantis, chegou quando ninguém o esperava, surpreendendo a esposa no generoso ato de “repartir o pão”, como reza o ensinamento cristão.
O homem sem dó nem piedade, bateu em Carmem Doida com as próprias mãos, aplicando-lhe socos e pontapés. Era tamanha a sua fúria, que ninguém ousou defender a pobre louca e impressionou-me tanto, que eu nunca mais a esqueci. Até hoje me recordo da cena de violência explicita e gratuita. Carmem doida, já tão surrada pela vida, não suportou mais este desacato e  desapareceu, sumiu para sempre do bairro assim como também de nossas vidas e eu, nunca mais soube o que lhe aconteceu.    

<3

Bairro de São Geraldo_ Uma História em Duas Conjugações_Passado e Presente_Virgínia Allan, Edições Governo do Estado        


[1] Mady Benoliel Benzecry, poetisa, nasceu em Manaus em 19 de Fevereiro de 1933, no seio de uma família tradicional do Estado do Amazonas. Viveu por muitos anos no Rio de Janeiro; onde se dedicava, junto com seu marido, o entalhador pernambucano Eugênio Carlos Batista, as artes plásticas. Deixou duas obras publicadas: De Todos os Crepúsculos (1964) e Sarandalhas (1967), sendo, ambos os livros ilustrados pelo pintor Moacir Andrade. Mady Benoliel Benzecry veio a falecer no dia 11 de Julho de 2003

 
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CARMEM DOIDA 
por Moysés Arruda  


"Era uma mulher alta, magra, morena, olhos esprimidos, dos quais saíam ou faíscas de ódio ou uma tristeza cinza orvalhada. Gostava de dançar na rua, sozinha, infensa à curiosidade dos transeuntes."

O ódio nascia da provocação dos estudantes, que eram os principais autores do sobrenome indesejado: "Carmen Doida!" A resposta era imediata, furiosa e em forma de insultos diversos, normalmente atingindo a genitora dos interlocutores. "É a tua mãe, filha da putinha, vagabundo." E voltava à sua dança. Se a ofensa persistia, Carmen partia para a pedrada ou para a perseguição, e os estudantes tratavam de se safar como podiam. Sorte deles que sua indignação era passageira e o seu desejo de dançar era maior.

Na verdade, a atitude dos estudantes era uma vingança contra um hábito de Carmen. Ela não podia ver um casal de namorados entregue aos carinhos que logo falava aos berros: "Tapa, tapa logo!", ao mesmo tempo que fazia gestos obscenos. O incentivo servia de denúncia ao público e constrangimento ao casal. Carregava consigo um saco de estopa, que era jogado ao chão nos momentos de raiva. Porém, nas recordações da minha mãe e de outros, sua loucura não era uma ameaça a ninguém em momentos de normalidade, embora sua figura fosse usada pelos pais para garantir a disciplina das crianças. Carmen perambulava por toda a cidade, sempre que conseguia escapar do manicômio do bairro de Flores.

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Fonte: Mello, Thiago de. Manaus, amor e memória. Philobiblion, 1984. Foram úteis também os depoimentos no Blog do Rogelio Casado rogeliocasado.blogspot.com  Aproveito para parabenizar o autor do blog pelo magnífico trabalho na área da saúde mental que realiza em Manaus.  Agradeço a poetisa Rosa Clement pela permissão de reproduzir aqui o fruto do seu trabalho de pesquisa.

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