segunda-feira, 26 de abril de 2010

O MANTO VERDE DA IMUNIDADE



 

A Travessia Dourada; Sirdhar Ikbal Ali Shah; Edições Dervish

Achei muito estranho quando o mercador de cobre; como todos nós, houvesse arrumado as suas coisas menos um manto de seda verde.

Já tínhamos viajado algumas milhas, quando ele me entregou o pacote.

“Já estou sobrecarregado, meu irmão de fé”, disse-lhe eu, “você não pode acomodar nem esse pequeno embrulho no seu camelo?”

Ele poderia, mas desejava que eu ficasse com aquele manto.

“Depois de viajar e, na vastidão do deserto, pensar e pensar”, disse ele com um brilho estranho nos olhos, “prefiro não ficar com este manto que venerei mais que minha própria vida, pois ele traz-me reflexões que deixam meu coração inquieto. Pegue esta burqa”, continuou, “para que eu possa esquecê-la e a tudo o que representa para mim. Assim poderei morrer com preces de paz em meus lábios.”

Nem eu nem o sheik pudemos esquecer o que o mercador de cobre tinha para nos contar sobre a vestimenta, e não foi sem um pouco de angústia no coração que ele relatou sua história. Deixem-me repeti-la com as suas palavras:

No antigo vale de Sharabad, que se estende entre o grande deserto do Irã e as Montanhas Azuis da Cordilheira do Hindustão, ficava a cidade de Shamshad. Em um palácio sobre a colina que guardava a cidade, vivia a princesa Zahril. A beleza de seu rosto e de suas formas eram tão grandes, que, o próprio deus da Lua deve tê-la criado; assim falavam as línguas dos infiéis. Seu marido, Hassan, o sultão, não permitia que ela fosse vista pelos olhos vulgares das pessoas comuns, pois a gente dos bazares não merecia lançar os olhos sobre tão nobre senhora.

Sempre que a princesa queria sair, só podia fazê-lo numa carruagem fechada, puxada por dois cavalos brancos. Quatro eunucos acompanhavam-na: dois na frente conduzindo os cavalos e dois atrás seguindo a carruagem. Quando chegava ao seu destino, fossem os banhos, os velhos vendedores de tapetes ou ainda os adivinhos que liam a sorte, a porta da carruagem era rapidamente aberta por um dos eunucos e a figura da princesa envolta em sua burqa deslizava para fora e, como um raio, num instante desaparecia de vista. Desta forma, o mundo podia ver muito pouco da princesa e ela, pobrezinha, menos ainda podia ver o mundo. Vivia, portanto, triste, muito triste.

À noite, costumava sentar-se no telhado de seus aposentos no palácio, e contemplava com olhos desejosos o piscar das luzes da cidade a seus pés, suspirando, ao ouvir ao longe o som dos habitantes que cantavam e riam; som que o vento da noite, soprando das montanhas trazia colina acima até ela.

Continua...
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