quinta-feira, 29 de abril de 2010

O MANTO VERDE DA IMUNIDADE PARTE II





Zarhil não se importava de ter que usar véu, pois fora criada dentro desse costume. Mas o que realmente desejava era poder andar até a cidade em sua burqa, que, de qualquer modo a cobria por inteiro, em vez de ter de viajar numa carruagem dura e quente, aos solavancos, cujas janelas impediam-lhe a visão de todas as coisas interessantes das ruas. Seu marido, porém, era um homem rigoroso e dizia que as cenas da cidade não eram para ela. Havia ainda o risco de que o vento soprasse para longe sua burqa, rasgando-a e expondo a jovem a todos os olhos impuros.

Assim, a princesa Zahril sentava-se no terraço e cantava tristes canções para a lua, uma grande pérola suspensa no céu aveludado.

Mamina, sua fiel criada, chorava baixinho, pois as canções eram cheias de anseio por algo que, dadas as circunstâncias, dificilmente se poderia esperar que acontecesse: o canto da princesa, vejam só, falava de um belo e jovem príncipe desconhecido que um dia surgiria do meio de duas estrelas, montado num corcel de asas douradas, e a levaria em seus braços para um lugar onde as mulheres não fossem mantidas ocultas de forma rigorosa.

Nesse ponto, no entanto, ela parava de cantar, pois não tinha conhecimento de tal país, nem sua imaginação conseguia concebê-lo. Aí, fechava seus brilhantes olhos escuros e adormecia só então Mamina aquietava seu pranto.

As estrelas desapareciam, o céu empalidecia, e a noite afastava-se sorrateira, desapercebida.

Um dia, quando Zahril estava perdida em seus pensamentos, ao lado da fonte azul-turquesa no centro do pátio de sua zenana, distraidamente jogando migalhas de doce aos delicados peixinhos dourados que nadavam na água rasa, Mamina aproximou-se e inclinou-se em reverência diante dela.

“Ó princesa, acho que encontrei uma saída.”

“Para o quê, Mamina?” respondeu Zarhil, voltando-se. As pulseiras de ouro em volta de seus tornozelos tilintaram suavemente.

“Fiz uma roupa, princesa, que acho irá agradar ao seu amo e senhor e abrandar sua determinação de modo que você possa ir andando até a cidade.”

“Ai de mim, Mamina. Acho que isso de nada adiantará.” A princesa ergueu seu lindo rosto e olhou para o quadrado de céu azul acima dela.

“Venha ver”, insistiu a escrava. E elas entraram no harém.

Sobre um divã estava estendida uma coisa brilhante de cor verde. Tinha a forma de um saco largo e comprido com duas pequenas aberturas para os pés na parte de baixo e uma abertura na parte superior pela qual uma pessoa podia entrar e, uma vez dentro, o pano ajustava-se em volta da cabeça e do rosto deixando apenas uma estreita fresta para os olhos.


Continua...

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