quinta-feira, 22 de abril de 2010

MISTÉRIOS NO OCIDENTE-O CIRCULO CAVALHEIRESCO


Texto extraído do livro OS SUFIS, Idries Shah; Editora Cultrix  




MISTÉRIOS NO OCIDENTE

O CIRCULO CAVALHEIRESCO



“Quando ainda estás fragmentado,
e inseguro — que diferença
faz quais sejam as tuas decisões?”
(Hakim Sanai, O jardim murado da verdade)


Um grupo de sufis está formulando uma associação que lhes permita levar a cabo o trabalho de desenvolvimento no sentido da própria perfeição. O trabalho, como acontece com todas as atividades dos sufis, tem três partes. O próprio indivíduo precisa mostrar-se à altura de certos padrões pessoais, e eles escolhem o ideal medieval de cavalaria para seu modelo. Isso, por sua vez, dá-lhes a oportunidade de formar uma elite visível. A existência e o aparecimento dessa elite preenche a segunda função: o impacto sobre a humanidade em geral. O terceiro elemento, a reverência ao professor, reside na figura sufista do “rei”, que conduz a comunidade.

Os sufis escolhem como forma externa, o manto de lã azul, com capuz, que é o seu traje normal. Como simbolismo das cores adotam o ouro e o azul, para significar a essência do corpo ou da mente — o sol no céu ou o “pingo de ouro no mar”, como o descreve o sábio sufi Attar. A unidade básica do sufi é o círculo, o halka. Nos rituais comemorativos eles executam os exercícios ou movimentos coletivamente conhecidos como “dança”. Por divisa, adotam um moto árabe a respeito de um escanção, traduzido nos ramos persas por uma sentença rimada, com os mesmos sons, praticamente, do lema da Ordem da Jarreteira.

O santo padroeiro deles é Khidr, o Verde.

Compõem-se os halkas de treze pessoas. Há duas razões para o emprego do número. Em primeiro lugar, os sufis desejam enfatizar que o seu ensinamento interior é idêntico ao de todas as religiões. E o segredo, a mensagem oculta de todas as crenças — a necessidade de um desenvolvimento organizado. Neste caso, a outra religião que mais interessa a tais sufis muçulmanos é o cristianismo. A aceitação da identidade do cristianismo e do islamismo transmite-se pela simples numerologia.

A “unidade”, explicam os sufis da Ordem de Khidr com o seu simbolismo, é igual a “3” para propósitos práticos. E demonstram-no assinalando que a palavra árabe “unidade” (ahad) o adjetivo usado para designar Alá, o Único — se compõe das três letras em árabe: AHD. Por conseguinte, 3 é 1, porque a diferença entre o monoteísmo e o cristianismo é uma diferença de terminologia.

Mas onde entra em cena o 13? Muito simples. Na notação árabe, A é igual a 1, H tem o valor numérico de 8, e D é igual a 4. Adicionem-se esses números e ter-se-á um total de 13. Treze, portanto, passa a ser um número importante para o citado grupo de sufis.

Assim sendo, os halkas desse credo estão sempre agrupados em treze. Treze homens formam uma unidade.

A formação dessa organização verificou-se por volta do ano 1200 da era cristã.

Um século e meio depois, mais ou menos (ninguém tem absoluta certeza da data), surgiu na Inglaterra uma organização misteriosa, inspirada pelo próprio rei, cujos membros foram divididos em dois grupos de treze cada um — o primeiro sob as ordens do rei Eduardo III, o outro sob as do Príncipe Negro. 

Ostentavam as cores azul e ouro, trajavam mantos de lã com capuz, perseguiam metas francamente cavalheirescas. O seu santo padroeiro era São Jorge, equiparado na Síria, onde nasceu o culto, à misteriosa figura de Khidr dos sufis. Denominava-se, de fato, Ordem de São Jorge, o que se traduziria diretamente na fraseologia sufista por Tarika-i-Hadrat-i-Khidr (a Ordem de São Khidr). Tornou-se conhecida como a Ordem da Jarreteira. A palavra “jarreteira”, em árabe, é a mesma que empregam os sufis para designar o seu laço ou elo místico, e também “ascetismo religioso ou monacal”. A palavra designativa da unidade sufista básica (balka), intercambiável no jargão sufista, tem o mesmíssimo radical de que deriva a palavra inglesa “garter” (jarreteira).

Os primeiros registros da Ordem da Jarreteira perderam-se, substituídos pela especulação acerca das derivações e origens da ordem. A bonita história que se conta de que a ordem foi instituída por haver alguém escarnecido de uma jarreteira real, embora descartada por alguns historiadores sérios, pode ter, com efeito, uma base muito interessante nos fatos. Lembremo-nos de que se afirmou que o incidente aconteceu durante um baile. Se olharmos para os fatos do ponto de vista histórico sufista, poderemos fazer uma pergunta que talvez não tenha acudido a outros. Que espécie de baile era aquele? Todo o incidente se parece com uma tentativa de explicar um ritual de dança interrompido, cuja interrupção precisava ser justificada. E provável que nos tenha chegado uma versão truncada. Por que razão, por exemplo, se exibiria uma jarreteira num baile, se foi isso mesmo o que aconteceu? Ou porque a jarreteira fora escolhida para representar, de forma visual, o “laço” da ordem, ou porque “caíra ao chão a jarreteira de alguma dama”.

Qual é a divisa da Ordem da Jarreteira, e que conexão teria ela com a Ordem de Khidr? Superficialmente, não existe conexão alguma entre “Maldito seja quem fizer disso mau juízo” e a frase secreta do “escanção”. Se abordarmos a matéria pelo método convencional, nunca veremos a conexão. Mas se nos deixarmos conduzir mais pelo som do que pelo sentido, um fato estranho se manifestará. A versão francesa da divisa e o som das divisas árabe e persa soam quase como se fossem as mesmas palavras.

Os que tiverem lido boas traduções de poetas sufistas persas, com seus escanções como meio de iluminação do sufi, perceberão a conexão.

O processo pelo qual uma palavra ou frase estrangeira é adotada por outra língua está bem estabelecido na literatura e nos costumes. Existem exemplos numerosos, e o sistema até recebeu um nome, tendo sido dicionarizado como Hobson-Jobson. O interminável cântico religioso da Índia, Ya Hasan Ya Hussein (Ó Hasan! Ó Hussein!) é aceito na Inglaterra com o som de Hobson-Jobson, tentativa dos soldados britânicos de reproduzi-lo. O dicionário clássico de termos e expressões anglo-indianas contém inúmeros exemplos do processo e é realmente chamado de Hobson-Jobson. Na África Ocidental a palavra árabe el-ghaita (cornamusa) foi anglicizada para alligator (jacaré). E sem ir muito longe, todos os londrinos estão familiarizados com o nome de certa taberna, a Elephant and Castie (Elefante e Castelo), originariamente denominada “Infanta de Castela”.

Recentemente, um amigo meu do Oriente Médio deu de presente a um espantado adeleiro, que empurrava a sua carrocinha por uma rua de Londres, um xelim. O homem estivera repetindo com fervor, no tom gemebundo do bufarinheiro: "Any old iron?” (Algum ferro velho?) Para o meu amigo, o modo como ele emitia os sons era indistinguível do grito do dervixe mendicante: O Imã Reza! que os dervixes repetem centenas de vezes por dia e que é ouvido por toda a gente em algumas áreas.

O nome de Shakespeare traduz-se, às vezes, num persa perfeitamente correto e aceitável, por Sbeikh-Peer, “o antigo sábio”.

Uma sociedade que tivesse frases secretas, ou cujo ritual viesse a sofrer uma interrupção, teria tido necessidade de explicar o significado de uma expressão bárbara e dizer exatamente em que se baseava para exaltar a jarreteira. Grande quantidade de outros materiais liga os dois movimentos, mas, como boa parte deles é de caráter iniciatório, não podem ser reproduzidos aqui. Diga-se, todavia, que um nome alternativo para um ramo da Ordem de Khidr é el-mudawwira (o edifício redondo), relacionado com o grande palácio de Bagdá, que pertenceu a Harum el-Raschid. Toda a cidade de Bagdá foi construída em 762 d.C., com certas proporções geométricas baseadas na roda. Grupos sufistas tradicionais, como os maçons do Ocidente, associam a sua dedicação a esse edifício redondo. Pode ser apenas por coincidência que a Ordem da Jarreteira estivesse empenhada na revivência da Távola Redonda, e que o rei Filipe de Valois ansiasse também por dar início a um novo grupo da Távola Redonda.

Até o tempo de Eduardo VI (morto em 1533) a ordem foi chamada de São Jorge, santo padroeiro da Inglaterra, embora a conexão tradicional com a jarreteira remonte às origens da ordem. É possível que duzentos anos depois da sua primeira instituição, o significado da palavra “jarreteira” fosse tão bem compreendido que ela se tornou o nome verdadeiro da ordem. Alterações sucessivas do ritual e do número dos cavaleiros modificaram virtualmente a coincidência sufista original.

Hoje em dia, a Ordem da Jarreteira é ainda a instituição mais importante e altiva da Inglaterra. A idéia de que possa ser de origem estrangeira não é bem aceita por algumas pessoas. Estas, contudo, apenas não compreenderam que, sejam quais forem suas origens, foi na Inglaterra que a ordem atingiu a maior distinção, mantendo digna- mente um seleto rol de membros.

Aqueles que procuraram na Jarreteira uma conexão com a estranha tradição das feiticeiras talvez não estejam tão equivocados quanto se possa imaginar. Pelo menos um ramo desse culto fragmentário na Grã-Bretanha sofreu pesada influência da transmissão hispano-sarracena de um tipo sufista deteriorado, onde uma vaga idéia de “poder mágico” faz as vezes do tema da baraka.

Há uma razão muito coerente para o grupo sufista combinar em sua formulação os elementos azul, ouro, realeza, Khidr (São Jorge) e a proteção das mulheres. Tudo isso tem por base uma única raiz e sua manipulação, se bem não se encontre a mesma coerência na Ordem da Jarreteira, o que nos permíte supor que a Jarreteira é uma tradução das qualidades essenciais do grupo Khidr, que se acham reunidas na raiz KHDR.

Todos os elementos usados no modelo e nos rituais do grupo encontram-se aqui:

KHaDIR = ser verde (islamismo, a matriz do grupo)

KHuDDiR la fi hi = foi abençoado nele (a bênção do grupo)

KHiDaR, KHiDiR = São Jorge, Elias, o padroeiro dos sufis, Khidr

EIKHuDRat = o mar (o oceano da vida, em que o sufi encontra a verdade; o mar, do qual o sufi é uma vaga, muito usado em poesia; o azul em que está o ouro)

AKHDaR = desconfiado; mulher bonita (cavalaria, referindo-se à primeira ordem islâmica de cavalaria, quando Maomé, no princípio do século VII, fundou um corpo de homens para proteger mulheres e caravanas)

KHaDRa = chefe de tribo

ElKHaDRa = o céu, firmamento (do qual emerge o sol, outra alusão ao ouro no azul)

ElaKHaDiR = ouro, carne e vinho. (O elemento ouro do céu ou do mar — a comida e o vinho, denominadores comuns do ritual cristão. O próprio ritual cristão é visto como símbolo da totalidade da comunidade e do desenvolvimento individual, de modo que os sacramentos da Igreja são para o sufi simples fragmento do empreendimento total.)

O emblema do grupo é a palmeira, que deriva da raiz khadar, cortar uma palmeira. A própria árvore, como já tivemos ocasião de observar neste livro, significa baraka e outros elementos básicos do sufismo, gravada, a modo de brasão, no misterioso manto de coroação Hohenstaufen dos reis da Sicília e do Sacro Imperador Romano, que tinham, sabidamente, contatos sufistas.

A época de Eduardo III na Inglaterra assistiu, por certo, a uma extensão dos elementos sarracenos na Europa. A dança nacional inglesa, a morris, há de provir dessas origens. Cecil Sharp — autoridade em dança popular inglesa — ligou a dança “mourisca” européía à provável data da sua chegada à Inglaterra:

“A morris, portanto — que também já se chamou, em outros tempos, moresc da Inglaterra; le morisque e morisco da França; a moresca da Córsega. . . segundo todas as probabilidades razoáveis, é de origem mourisca: não importa que em nosso país tenham se tornado tão inglesas quanto o pugilato... A Holanda, como nos conta Engel, também foi contagiada; uma investigação criteriosa nos mostrará, provavelmente, que a morris, desta ou daquela forma, era conhecida em toda a Europa, e além dela. Não se pode determinar com certeza a data da sua introdução na Inglaterra; a maior parte das autoridades, porém, aponta para o tempo de Eduardo III. Pode ser que, quando John of Gaunt regressou da Espanha, tenha sido a primeira vez na Inglaterra que dançarmos da morris foram vistos”( 1 ) .

Essas danças podem ter sido importadas diretamente da Espanha mourisca daqueles tempos, mas talvez remontem a confrarias sufistas muito anteriores. A ação de montar um cavalo de pau (o zamalzain basco, do árabe zamil el-zain, “cavalo manco de gala”[ 2 ]) é apenas parte do ritual sufista. Esses jograis não são mera “reminiscência dos menestréis árabes”; são representantes dos poetas humorísticos de trajes berrantes, cabelos compridos e rostos pintados que ainda hoje encenam certos ensinamentos metafísicos entre os sufis. De vez em quando montavam em cavalos de pau, às vezes em varas de bambu, simulando idiotia, como “bobos de Deus”. Uma dessas personagens dos dervixes, que costumava cavalgar bengalas, foi entrevistada por Rumi em seu Mathnawi. Esta é uma conexão com as BRSH (bruja = feiticeira), cavaleiras espanholas.

O primeiro registro sufista de uma viagem de instrução à Inglaterra( 3 ) consta das viagens de Najmuddin (Estrela da Fé) Gwath-ed-Dahar Qalandar, nascido por volta de 1232, ou talvez antes. Seu filho, ou outro sucessor (Najmuddin Baba), “seguiu as pegadas do pai” da Índia à Inglaterra e à China em 1338.

O primeiro Najmuddin foi discípulo do ilustre Nizamuddin Awlia, de Deli, que o enviou a Rum (Turquia) para estudar sob a direção de Khidr Rumi. O nome completo de Khidr Rumi era Sayed Khidr Rumi Khapradari — o Escanção — do Turquestão. Não nos esqueçamos de que a Ordem de Khidr (equiparada à Ordem da Jarreteira) tem por divisa uma saudação ao copeiro, cuja taça possui qualidades milagrosas.

Quer a lenda que esse dervixe tenha levado consigo a interpretação do sinal sufista boa (que, na caligrafia estilizada, se parece com o número 4) — a marca do maçom encontrada nos edifícios góticos do Ocidente. Além de formar uma estrutura para o Quadrado Mágico sufista, é também usado pelos Qalandars como diagrama das três posições devocionais (de pé, ajoelhado e prostrado), que podem equivaler aos “instrumentos” dos maçons.

O professor de Najmuddin, Sayed Khidr, era companheiro do professor sufista Suha Suhrawardi (do Caminho da Rosa, às vezes identificado com os rosa-cruzes); de Abdul Qadir, Rosa de Bagdá; e do pai de Jalaluddin Rumi (algumas de cujas histórias se encontram em Chaucer, e que estava escrevendo na época da pretensa viagem à Inglaterra); além de outros professores sufistas muito importantes, como Fariduddin Shakarganj e Shah Madar. Shah Madar ensinou a unidade essencial de todas as religiões, especialmente o caminho esotérico do islamismo e do cristianismo. Seguiu os ensinamentos de Tayfuri e a formulação do Rei ou Senhor do Peixe, Dhu’l-Nun, o egípcio, ou o “Negro”.

Fariduddin Shakarganj (Pai Farid do Suave Tesouro) pertencia à escola chis(h)ti de sufis, e provinha de uma família nobre do Afeganistão. Morreu na Índia, em 1265, onde a sua tumba é reverenciada por pessoas de todas as crenças. Tinha por funções curar os outros e praticar a música. Os músicos chis(h)tis que agueavam pela Ásia munidos de pífaros e tambores, juntando o povo e contando histórias de significação sufista, podem estar ligados ao chistu ou bufão espanhol cujas vestes eram surpreendentemente semelhantes às dos músicos.

Os sufistas itinerantes, chamados qalandars e chis(h)tis, devem ter trazido para o Ocidente outras danças, além dos ritmos rituais e dos que são representados, em parte, pelos dançarmos da morris.

Em sua Weltchronik de 1349, citada pelo dr. Nettl, Hugo de Reutlingen, por exemplo, faz referência à canção em fá maior utilizada pelos bandos de dançarmos que “nos recordam a dança árabe dos dervixes” ( 4 ).

Notas:

( 1 ) C. J. Sharpe e H. C. Macilwaine, The morris book, Londres, 1907, pág. 15.

( 2  ) Legacy of Islam, edição de Arnold e Guillaume, Oxford, pág. 372.

( 3 ) Johu A. Subhan, Sufism, its saints and shrines, Lucknow, 1938, págs. 311 e seguintes, provavelmente citando Kitab-i-Qalandaria, em que essa viagem é descrita circunstanciadamente.

( 4 ) Paul Nettl, The story of dance music, Nova York, 1947, pág. 49.


Postar um comentário