segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O ENGRAÇADO ARREPENDIDO PARTE II


Um conto de Monteiro Lobato

Abaixo: cena do especial apresentado pela Rede Globo em 1994



Assim viveu Pontes até a idade do Cristo, numa parabola risonha, a rir e fazer rir, sem pensar em nada sério - vida de filante que dá mômos em troca de jantares e paga continhas miudas com pilherias de truz.

Um negociante caloteado disse-lhe um dia entre frouxos de riso babado:

- Você ao menos diverte, não é como major Carapuça que caloteia de carranca.

Aquele recibo sem selo mortificou seu tanto ao nosso pandego; mas a conta subia a quinze mil réis - valia bem a pelotada. Entretanto, lá ficou a lembrança dela espetada como alfinete na almofadinha do amor proprio. Depois vieram outros e outros, estes fincados de leve, aqueles até a cabeça.

Tudo cansa. Farto de tal vida, entrou o hilarião a sonhar as delicias de ser tomado a sério, falar e ser ouvido sem repuxo de musculos faciais, gesticular sem promover a quebra da compostura humana, atravessar uma rua sem pressentir na peugada um côro de - "Lá vem o Pontes"  em tom de quem se espreme na contenção do rios ou se ajeita para uma barrigada das boas.

Reagindo, tentou Pontes a seriedade.

Desastrre.

Pontes sério mudava de tecla, caia no humorismo inglês. Se antes divertia como o Clown, passava agora a divertir como o Tony.

O estrondoso exito do que toda a gente se afigurou uma faceta nova da sua veia comica verteu mais sombras na alma do engraçado arrependido. Era certo que não poderia traçar outro caminho na vida além daquele, ora odioso? Palhaço, então, eternamente palhaço á força?

Mas a vida de um homem feito tem exigencias sisudas, impõe gravidade e até casmurrice dispensaveis nos anos verdes. O cargo mais modesto da administração, uma simples vereança, requer na cara a imobilidade da idiotia que não ri. Não se concebe vereador risonho. Falta ao dito de Rabelais uma exclusão: o riso é proprio á especie humana, fóra o vereador.

Com o dobar dos anos a reflexão amadureceu, o brio cristalizou-se, e os jantares cavados deram a saber-lhe a azedo. A moeda pilheria tornou-se-lhe dura ao cunho; já a não fundia com a frescura antiga; já usava dela como expediente de vida, não por folgança despreocupada, como outrora. Comparava-se mentalmente a um palhaço de circo, velho e achacoso, a quem a miseria obriga a transformar reumatismo em caretas hilares como as quer o publico pagante.

Entrou a fugir dos homens e despendeu bons meses no estudo da transição necessaria ao conseguimento de um emprego honesto. Pensou no balcão, na industria, na feitoria duma fazenda, na montagem de um botequim - que tudo era preferivel á paspalhice comica de até ali.


Continua...
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