domingo, 7 de fevereiro de 2010

O ENGRAÇADO ARREPENDIDO (*)

Monteiro Lobato
Do livro Urupês, de Monteiro Lobato; Editora Brasiliense, 2a. Edição  

(*) Nota da segunda edição: "O ENGRAÇADO ARREPENDIDO" foi publicado na "Revista do Brasil", No. 16 de Abril de 1917, com o título A GARGALHADA DO COLECTOR


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Francisco Teixeira de Souza Pontes, galho bastardo duns Souza Pontes de trinta mil arrobas afazendados no Barreiro, só aos trinta e dois anos de idade entrou a pensar seriamente na vida.

Como fosse de natural engraçado, vivera até ali á custa da veia comica, e com ela amanhara casa, mesa, vestuario e o mais. Sua moeda corrente eram micagens, pilherias, anedotas de inglês e tudo quanto bole com os musculos faciais do animal que ri, vulgo homem, repuxando risos ou matracolejando gargalhadas.

Sabia de cor a Enciclopedia do Riso e da Galhofa de Fuão Pechincha, o autor mais desaborido que Deus botou no mundo; mas era tal a arte do Pontes, que as sensaborias mais relamborias ganhavam em sua boca um chiste raro, de fazer os ouvintes babarem de puro gozo.

Para arremedar gente ou bicho, era um genio. A gama inteira das vozes do cachorro, da acuação aos caitetús ao uivo á lua, e o mais, rosnado ou latido, assumia em sua boca perfetibilidade capaz de iludir aos proprios cães  - e á lua.

Também grunhia de porco, cacarejava de galinha, coaxava de untanha, ralhava de mulher velha, choramingava de fedelho, silenciava de deputado governista ou perorava de patriota em sacada. Que vozeiro de bipede ou quadrupede não copiava ele ás maravilhas, quando tinha pela frente um auditorio predisposto?

Descia outras vezes a prehistoria. Como fosse d'alguma luzes, quando os ouvintes não eram pecos ele reconstituia os vozeirões paleontologicos dos bichos extintos - roncos de mastodontes ou berros de mamutes ao avistarem-se com peludos homos repimpados em fétos arboreos - coisa muito de rir e divulgar a ciencia do sr. Barros Barreto.

Na rua, se pilhava um magote de amigos parados á esquina, aproximava-se de mansinho e - nhoc! - arremesava um bote de munheca á barriga da perna mais a jeito. Era de ver o pinote assustado e o - passa! - nervoso do incauto, e logo em seguida as risadas sem fim dos outros, e a do Pontes, o qual gargalhava dum modo todo seu, estrepitoso e musical - musica d'Offenbach.

Pontes ria parodiando o riso normal e espontaneo da criatura humana, unica que ri alem da raposa bebeda; e estacava de golpe, sem transição, caindo num sério de irrestivel comico.

Em todos os gestos e modos, como no andar, no ler, no comer, nas ações mais triviais da vida, o raio do homem diferençava-se dos demais no sentido de amoleca-los prodigiosamente. E chegou a ponto de que escusava abrir a boca ou esboçar um gesto para que se torcesse em risos a humanidade. Bastava sua presença. Mal o avistavam, já as caras refloriam; se fazia um gesto, espirravam rios; se abria a boca, espigaitavam-se uns, outros afrouxavam os cóses, terceiros desabotoavam os coletes. E se entreabria o bico, Nossa Senhora! eram cascalhadas, eram rinchavelhos, eram guinchos, engasgos, fungações e asfixias tremendas.

- É da pele, este Pontes!

- Basta homem, você me afoga!

E se o pandego se inocentava, com cara palerma:

- Mas que estou fazendo? Se nem abri a boca...

- Quá, quá, quá - a companhia inteira, desmandibulada, chorava nos espasmos supremo dos rios incoerciveis.

Com o correr do tempo não foi preciso mais que seu nome para deflagrar a hilaridade. Pronunciando alguem a palavra "Pontes", acendia-se logo o estopim das fungadelas pelas quais o homem se alteia acima da animalidade que não ri.

Continua...
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