sábado, 13 de fevereiro de 2010

O ENGRAÇADO ARREPENDIDO PARTE V


 



Como era de prever, a serpente venceu, e Pontes ressurgiu para o mundo um tanto mais magro, de olheiras cavadas, porém com um estranho brilho de resolução vitoriosa nos olhos. Também notaria nele o nervoso dos modos de quem o observasse com argucia – mas a argucia não era virtude sobeja entre seus conterraneos, alem de que estados d’alma do Pontes eram coisas de somenos porque o Pontes...

- Ora o Pontes...

O futuro funcionario forjicou, então, meticulosos planos de campanha. Em primeiro era mister aproximar-se do major, homem recolhido consigo e pouco amigo de lérias; insinuar-se-lhe na intimidade; estudar suas venetas e cachacinhas até descobrir em que zonas do corpo tinha ele o calcanhar d’Aquiles.

Começou frequentando com assiduidade a coletoria, sob pretextos vários, ora para selos, ora para informações sobre impostos, que tudo era ensejo de um parolar manhoso, habilíssimo, calculado para com balir a rispidez do velho.

Tambem ia a negocios alheios, pagar cisas, extrair guias, coisinhas; fizera-se muito serviçal para os amigos que traziam negócios com a fazenda.

O major estranhou tanta assiduidade e disse-lho, mas Pontes, escamoteou-se à interpelação montado numa pilheria de truz, e perseverou num bem calculado dar tempo ao tempo que fosse debastando as arestas agressivas do cardiaco.   

Dentro de dois meses já se habituara Bentes áquele serelepe. Como lhe chamava, o qual, em fim de contas, lhe parecia um bom moço, sincero, amigo de servir e sobretudo inofensivo... Daí a lá em dia d’acumulo de serviço pedir-lhe um obsequio, e depois outro, e terceiro, e te-lo afinal como especie de adido á repatição, foi um passo. Para certas comissões não havia outro. Que diligencia! Que finura! Que tacto! Advertindo certa vez o escrevente, o major puxou aquela diplomacia como lembrete.

- Grande pasmado! Aprenda com o Pontes, que tem jeito para tudo e ainda por cima tem graça.

Nesse dia convidou-o para jantar. Grande exultação na alma do Pontes! A fortaleza abria-lhe as portas.

Aquele jantar foi o inicio de duma serie em que o serelepe, agora factotum indispensavel, teve campo de primeira ordem para evoluções tácticas.

O major Bentes entretanto possuia uma invulnerabilidade: não ria, limitava suas expansões hilares a sorrisos ironicos. Pilheria que levava outros comensais a erguerem-se da mesa atabafando a boca nos guardanapos, encrespava apenas os seus lábios. E se a graça não era de superfina agudeza, ele desmontava sem piedade o contador.

- Isso é velho, Pontes, já num almanaque Laemmerte de 1850 me lembra de o ter lido.

Pontes sorria com ar vencido; mas lá por dentro consolava-se, dizendo, dos figados para os rins, que se não pegara daquela doutra pegaria..

Toda a sua sagacidade enfocava no fito de descobrir o fraco do major. Cada homem tem predileção por um certo genero de humorismo ou chalaça. Este morre por pilherias fesceninas de frades bojudos. Aquele péla-se pelo chiste bonacheirão da chacota germânica. Aquel’outro dá a vida pela pimenta gaulesa. O brasileiro adora a chalaça onde se põe a nú a burrice tamancuda de galegos e ilheus.

Mas o major? Por que não ria á inglesa, nem á alemã, nem á francesa, nem á brasileira? Qual o seu genero?


Continua...
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