segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O ENGRAÇADO ARREPENDIDO PARTE V I


Um trabalho sistematico de observação, com a metodica exclusão dos generos já provados ineficientes, levou Pontes a descobrir a frraqueza do rude adversário: o major lambia as unhas por casos de ingleses e frades. Era preciso, porém, que viessem juntos. Separados, negavam fogo. Exquisitices do velho. Em surgindo bifes vermelhos, de capacete de cortiça, roupa enxadrezada, sapatões formidolosos e cachimbo, juntamente com frades redondos, namorados da pipa e da polpa feminina, lá abria o major a boca e interrompia o serviço de mastigação, como criança a quem acenam com cocada. E quando o lance cômico chegava, ele ria com gosto, abertamente, embora sem exagero capaz de lhe destruir o equilíbrio sanguineo.

Quando o caso era longo, porque o narrador o floria no intento de esconder o desfecho e realçar o efeito o velho interessava-se vivamente, e nas pausas manhosas pedia esclarecimento ou continuação.

- “E o raio do bife?” “E daí” “Mister John apitou”

Embora tardasse a gargalhada fatal, o futuro coletor não desesperava, confiando no apologo da bilha que de tanto ir á fonte lá ficou. Não era mau o calculo. Tinha a psicologia por si – e teve também por si a quaresma.

Certa vez, findo o Carnaval, reuniu o major amigos em torno a uma enorme piabanha recheada, presente dum colega. O entrudo desmazorrara a alma dos comensais e a do anfitrião, que estava naquele dia contente de si e do mundo, como se houvera enxergado o passarinho verde. O cheiro vindo da cozinha, valendo por todos os aperitivos de garrafaria, punha nas caras um enternecimento estomacal.

Quando o peixe entrou, cintilaram os olhos do major. Pescado fino era com ele, inda mais cozido pela Gertrudes. E naquele bródio primara a Gertrudes num tempero que excedia ás raias da culinaria e se guindava ao mais puro lirismo. Que peixe! Vatel o assinaria com a pena da impotencia molhada na tinta da inveja, disse o escrevente, sujeito lido em Brillat-Savarin e outros praxistas do paladar.

Entre goles de rica vinhaça ia a piabanha sendo introduzida nos estomagos com religiosa unção. Ninguem se atrevia a quebrar o silencio da bromatologica batitude.

Pontes pressentiu oportuno o momento do golpe. Trazia engatilhado o caso dum inglês, sua mulher e dois frades barbadinhos, anedota que elaborara á custa da melhor matéria cinzenta de seu cerebro, aperfeiçoando-a em longas noites de insonia. Já de dias a tinha de tocaia, só aguardando o momento em que tudo concorresse para leva-la a produzir o efeito Maximo.

Era a derradeira esperança do facinora, seu ultimo cartucho. Negasse fogo e, estava resolvido, metia duas balas nos miolos. Reconhecia impossível manipular-se torpedo mai engenhoso. Se o aneurisma lhe resiste ao embate, então é que o aneurisma era uma potoca, a aorta uma ficção, o Chernoviz um palavrorio, a medicina uma miseria, o doutor Iodureto uma cavalgadura e ele, Pontes, o mais chapado sensaborão ainda aquecido pelo sol – indigno, portanto de viver.

Matutava assim o Pontes, negaceando com os olhos da psicologia a pobre vitima, quando o major veiu ao seu encontro: piscou o olho esquerdo – sinal de predisposição para ouvir.

- É agora! pensou  o bandido – e com infinita naturalidade, pegando como por acaso uma garrafinha de molho, pôs-se a ler o rotulo..

- Perrins; Lea and Perrins.  Será parente daquele lorde Perrins que bigodeou os dois frades barbadinhos?

Inebriado pelo amavio do peixe, o major alumiou um olho concupiscente, guloso de chulice.

- Dois barbadinhos e um lorde! A patifaria deve ser marca X.P.T.O. Conta lá, serelepe.

E, mastigando maquinalmente, absorveu-se no caso fatal.


Continua...  


    



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