quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O ENGRAÇADO ARREPENDIDO PARTE IV


Monteiro Lobato
 
 Urgia, entretanto, mudar de tecla, e Pontes volveu as vistas para o Estado, patrão comodo e unico possivel nas circunstancias, porque abstrato, porque não sabe rir nem conhece de perto as celulas que o compõem. Esse patrão, só ele, o tomaria a serio – o caminho da salvação, pois, embicava por ali.

Estudou a possibilidade da agencia do correio, dos tabelionatos, das coletorias e do resto. Bem poderados os prós e contras, os trunfos e naipes, fixou a escolha na coletoria federal, cujo ocupante, major Bentes, por avelhantado e cardíaco, era de crer não durasse muito. Seu aneurisma andava na berra publica, com rebentamento esperado para qualquer hora.

O az de Pontes era um parente do Rio, sujeito de posses, em via de influenciar a política no caso da realização de certa reviravolta no governo. Lá correu atrás dele e tantas fez para move-lo á sua pretensão que o parente o despediu com promessa formal.

- Vai sossegando, que, em coisa arrebentando por cá e o teu coletor rebentando por lá, ninguem mais ha de rir-se de ti. Vai, e avisa-me da morte do homem sem esperar que esfrie o corpo.

Pontes voltou radioso de esperança e pacientemente aguardou a sucessão dos fatos, com um olho na política e outro no aneurisma salvador.

A crise afinal, veiu; caíram ministros, subiram outros e entre estes um politicão negocista, socio do tal parente. Meio caminho já era andado. Restava apenas a segunda parte.

Infelizmente, a saude do major encruara, sem sinais patentes de declinio rapido. Seu aneurisma, na opinião dos medicos que matavam pela alopatia, era coisa grave, de estourar ao menor esforço; mas o precavido velho não tinha pressa de ir-se para melhor, deixando uma vida onde os fados lhe conchegavam tão fofo ninho, e lá engambelava a doença com um regime ultra-metodico. Se o mataria um esforço violento, sossegassem, ele não faria tal esforço.

Ora, Pontes, mentalmente dono daquela sinecura, impacientava-se com o equilibrio desequilibrador dos seus cálculos. Como desembaraçar o caminho daquela travanca? Leu no Chernoviz o capitulo dos aneurismas, decorou-o; andou em indagações de tudo quanto se dizia ou se escreveu a respeito; chegou a entender da materia mais que o doutor Iodureto, medico da terra, o qual, seja dito aqui á puridade, não entendia de coisa nenhuma desta vida.

O pomo da ciencia, assim comido, induziu-o á tentação de matar o homem, forçando-o a estourar. Um esforço o mataria? Pois bem, Souza Pontes o levaria a este esforço!

- A gargalhada é um esforço, filosofava satanicamente de si para si. A gargalhada, portanto, mata. Ora, eu sei fazer rir...

Longos dias passou Pontes alheio ao mundo, em dialogo mental com a serpente.

- Crime? Não! Em que código fazer é crime? Se disso morresse o homem, culpa era de sua má aorta.

A cabeça do maroto virou picadeiro de luta onde o “plano” se batia em duelo contra todas as objeções mandadas ao encontro pela consciencia. Servia de juiz a sua ambição amarga e Deus sabe quantas vezes tal juiz prevaricou, levado de escandalosa parcialidade por um dos contendores.

Continua...    
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