terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O ENGRAÇADO ARREPENDIDO PARTE III





Um dia, bem maturados os planos, resolveu mudar de vida. Foi a um negociante amigo e sinceramente lhe expôs os propositos regeneradores, pedindo por fim um lugar na casa, de varredor que fosse. Mal acabou a exposição, o galego e os que espiavam de longe á espera do desfecho torceram-se em estrondoso gargalhar, como sob cocegas. 

- Esta é boa! É de primeirissima! Quá! quá! quá! Com que então... Quá! quá! quá! Você me arruína os fígados, homem! Se é pela continha dos cigarros, vá embora que me dou por bem pago! Este Pontes tem cada uma...

E a caixeirada, os fregueses, os sapos de balcão e até passantes que pararam na calçada para “aproveitar o espirito”, desbocaram-se em quás de matraca até lhe doerem os diafragmas.

Atarantado e seriissimo, Pontes tentou desfazer o engano.

- Falo sério e o senhor não tem o direito de rir-se. Pelo amor de Deus não zombe de um pobre homem que pede trabalho e não gargalhadas.

O negociante desabotoou o cós da calça.

- Fala sério, pff! Quá! quá! quá! Olha Pontes, você...

Pontes largou-o em meio da frase, e se foi com a alma atenazada entre o desespero e a colera. Era demais. A sociedade o repelia, então? Impunha-lhe uma comicidade eterna?

Correu outros balcões, explicou-se como melhor pôde, implorou. Mas por voz unânime o caso foi julgado como uma das melhores pilherias do “incorrigivel” e muita gente comentou com a observação do costume:

- Não se emenda o raio do rapaz! E olhem que já não é criança...

Barrado no comercio, voltou-se para a lavoura. Procurou um velho fazendeiro que despedira o feitor e expôs-lhe o seu caso.

Depois de ouvir-lhe atentamente as alegações, conclusas com o pedido do lugar de capataz, o coronel explodiu num ataque de hilaridade.

- O Pontes capataz! Ih! Ih! Ih!

- Mas...

- Deixe-me rir, homem, que cá na roça isto é raro. Ih! Ih! Ih! É muito boa! Eu sempre digo: graça como o Pontes, ninguem!

E berrando para dentro:

- Maricota, venha ouvir esta do Pontes. Ih! Ih! Ih!

Nesse dia o infeliz engraçado chorou. Compreendeu que não se desfaz do pé p’r’a mão o que levou anos a cristalizar-se. A sua reputação de pandego, de impagavel, de monumental, de homem do chifre furado ou da pele, estava construída com muito boa cal e rijo cimento para que assim esboroasse de chofre.       

Continua...
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