segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O ENGRAÇADO ARREPENDIDO PARTE FINAL




A anedota correu capciosa pelos fios naturais até ás proximidades do desfecho, narrada com arte de mestre, segura e firme, num andamento estrategico em que havia gênio. Do meio para o fim a maranha empolgou de tal forma o pobre velho que o pôs suspenso, de boca entreaberta, uma azeitona no garfo detida a meio caminho. Um ar de riso – riso parado, riso estopim, que não era senão o armar bote da gargalhada, iluminou-lhe o rosto.

Pontes vacilou. Pressentiu o estouro da arteria. Por uns instantes a consciencia brecou-lhe a lingua, mas Pontes deu-lhe um pontapé e com voz firme puxou o gatilho.

O major Antonio Pereira da Silva Bentes desferiu a primeira gargalhada da sua vida, franca, estrondosa, de ouvir-se no fim da rua, gargalhada igual á de Teufeldsdrock diante de João Paulo Richter. Primeira e ultima, entretanto, porque no meio dela os convivas, atônitos, viram-no cair de borco sobre o prato, ao tempo que uma onda de sangue avermelhava a tolha.

O assassino ergue-se alucinado; aproveitando a confusão, esgueirou-se para a rua, qual outro Caim. Escondeu-se em casa, trancou-se no quarto, bateu dentes a noite inteira, suou gelado. Os menores rumores retransiam-no de pavor. Policia?

Semanas depois é que entrou a declinar aquele transtorno que toda a gente leva á conta de magua pela morte do amigo. Não obstante, trazia sempre nos olhos a mesma visão: o coletor de bruços no prato, golfando sangue, enquanto no ar vibravam os ecos da sua derradeira gargalhada.
E foi nesse deploravel estado que recebeu a carta do parente do Rio. Entre outras coisas dizia o az: “Como não me avisaste a tempo, conforme o combinado, só pelas folhas vim a saber da morte do Bentes. Fui ao ministro mas era tarde, já estava lavrada a nomeação do sucessor. A tua leviandade fez-te perder a melhor ocasião da vida. Guarda para teu governo este latim: tarde vinientibus ossa quem chega tarde só encontra os ossos – e sê mais esperto para o futuro.”

Um mês depois descobriram-no pendente duma trave, com a lingua de fora, rigido.

Enforcara-se numa perna de ceroula.

Quando a noticia deu volta pela cidade, toda gente achou graça no caso. O galego do armazém comentou para os caixeiros:

- Vejam que criatura! Até morrendo fez chalaça... Enforcar-se na ceroula! Esta só mesmo do Pontes...

E reeditaram em côro meia dúzia de “quás” – unico epitáfio que lhe deu a sociedade.

1916.                  


    



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