domingo, 28 de fevereiro de 2010

ABSINTO




Subversivo é o meu pensar...
Suspiro/respiro
Concentro sonhos em uma garrafa de absinto
Açúcar e láudano pra refrear a dor

Treme em meu rosto um sorriso furtivo
Viva o absinto!
Agora, apenas a “fada verde” me consola
e mais que qualquer droga ajuda-me a des/afogar a solidão

A noite é suave e melancólica...
A lua se esconde na nuvem mais próxima...
Sob o efeito do absinto
Só tu e eu existimos
E entre uma e outra dose do licor
Vou me perdendo/enganando de amor

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

MINHA NOITE NA TAVERNA



Tenho sono!
Procuro descanso no contorno crescente da lua
O cântaro está vazio
O vinho derramado, desperdiçado sobre a mesa
escorreu e misturou-se a água esparramada no chão
Esquecido de mim, te procuro... um rosto por trás do véu...

Mas, meus amigos já se foram ou adormeceram
A taverna está solitária
E a rua deserta

Nem o jovem servente resistiu ao cansaço
Acobertado pela escuridão
Agarrou-se a noite sem estrelas
E por uns instantes pediu...
Silencio!




segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS



 Cabeça de velho 
(Candido Portinari)


Dizem que o lar de um homem é onde está seu coração. Mas onde está meu coração? Já não sei... Porém, de onde estou posso ver o céu... melancólico, tristonho... Nenhum vestígio de sol, nenhuma prece a se estender sobre o veludo azul celeste, agora acinzentado, em que passam nuvens arrastadas, carregadas d’água...Tudo me parece velado, distante, estranho... quase um sonho e sinto a tristeza a pairar no espaço feito grande pássaro agoniado de asas largas, abertas, medonhas, infinitas... tão sombrias... a acolher ao seio os contos desfeitos e as agruras comprimidas de mais um dia. "Dois pesos, duas medidas"... lida cotidiana... leviana. Impressiona-me o silencio! Não mais ouço a tua voz... E longe vai a ânsia de te encontrar, sobrevoar o porto, cruzar o mar e descansar no cimo do monte bem perto de teu olhar. Deixar na curva do rio o cansaço, também o rosário e a oração que desfiava em horas de aflição. Absorto em meu pensar, procuro ar... um relâmpago corta devagar a amplidão do céu, entorpece-me a escuridão... sinto olhos a me observarem no escuro, tenho estranhas sensações, fantasmagóricas visões... Porém, imperturbável, deito minha cabeça no travesseiro e durmo o sono dos justos. Meus pecados vão ficando pelo caminho minhas faltas, aceito-as, como prerrogativa de redenção.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

YouTube - PIL - Rise

YouTube - PIL - Rise

Rise
Subir
I could be wrong, i could be right
Eu posso estar errado, eu posso estar certo
I could be wrong, i could be right
Eu posso estar errado, eu posso estar certo
I could be wrong, i could be right
Eu posso estar errado, eu posso estar certo
I could be black, i could be white
Eu posso ser preto, eu posso ser branco
I could be right, i could be wrong
Eu posso estar certo, eu posso estar errado
I could be white, i could be black
Eu posso ser branco, eu posso ser preto
Your time has come, your second skin
Seu tempo está chegando, sua segunda pele
The cost so high the gain so low
O custo tão alto e o lucro tão baixo
Walk through the valley
Ande por entre o vale
The written work is a lie
O que o trabalho escreveu é uma mentira
May the road rise with you
Poder subir na vida com você
I could be wrong, i could be right
Eu posso estar errado, eu posso estar certo
I could be black, i could be white
Eu posso ser preto, eu posso ser branco
I could be wrong, i could be right
Eu posso estar errado, eu posso estar certo
I could be black, i could be white
Eu posso ser preto, eu posso ser branco
I could be right, i could be wrong
Eu posso estar certo, eu posso estar errado
I could be black, i could be white
Eu posso ser branco, eu posso ser preto
They put a hot wire to my head
Eles puseram um arame quente na minha cabeça
Cos of the things i did and said
As coisas que eu penso, eu falo e faço
They made these feelings go away
Eles fazem esses sentimentos acontecerem
Model citizen in every way
Cidadão modelo em qualquer lugar
May the road rise with you
Poder subir na vida com você
Anger is an energy
Raiva é a energia
Anger is an energy
Raiva é a energia
Anger is an energy
Raiva é a energia
Anger is an energy

INTERLÚDIO



Fugiram-me as palavras
Amanheci vazia de idéias
Vazia de tudo...
Prodiga em abandonos
Pobre de esperanças

Balouçante, vacilante 
O apanhador de sonhos
Vigia-me do teto

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

EM SUSPENSO... LONGA ESPERA...




Enquanto espero, faço versos, 
mas a noite também é longa e eu me canso... 
Deito-me em um chão de estrelas 
e me aconchego com a lua... 
Perdemo-nos, ela e eu, noite adentro... 
alheios ao caminho, como dois bêbados 
abandonados à própria sorte, que em sua necedade, 
vão pregando verdades absolutas e eternas, 
para paus e pedras e velhos lapidados muros...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

SEM PRETENSÃO




Monótonas paragens
Remotas paisagens
Lúgubres pensamentos
Ternos sentimentos
Tristeza no falar
Incerteza no andar
Desgosto no olhar
Onde está a alegria?
Onde dorme a poesia?
Retira-se a fantasia
Consome-se o pranto
Desfaz-se o encanto
Onde está o sábio chinês
Que me disse uma vez
Dorme a fera
Dentro da bela
Ou será a bela
que dorme dentro da fera?
Tudo não passa
De mera fábula
Uma nuvem
Uma quimera
Quem me dera
Perceber a ilusão
Por trás das coisas
Perceber a ilusão
Por trás de tudo
O tempo passa
Os rostos envelhecem
Os sonhos morrem
Desaparecem
Nada permanece

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

DEPOIS DO CARNAVAL...

-->
 













Foi depois do carnaval... Tantos sonhos, tantos planos... mas, apenas para depois do carnaval; depois do carnaval tudo seria diferente. Pedro iria mudar de vida. Tinha para isso um bom motivo... dinheiro guardado no banco, poderia viver bem em qualquer lugar... recomeçar e se possível, com ela ao lado, a sua “branquinha”. Por ora, nada com que se preocupar... logo o baile vai começar e seria sua despedida... despedida do Pedro folgado, mundano, despedida de sua rotina de malandragem, despedida do desamor... 

Quem não gostou nada da história, foi a mulata Valmira... que vivia com fogo nos olhos e no corpo carnudo que ele, Pedro., já não queria mais desfrutar. Mulata Valmira, agora era  só consumição, possuída apenas pelo ódio... ódio de tudo: dos comentários, dos risinhos debochados, do pouco caso dele, de Pedro. “Se ele pensava que ia ser fácil  sair assim”... ah... não perdia por esperar...

Valmira. era paciente e determinada.  Não abriria mão de Pedro. seu único e verdadeiro amor... e não seria uma “branquela, azeda e magricela” que iria roubá-lo, levá-lo dali... pra longe do seu colo quente e dos seus afagos. Não... isso não seria tão fácil assim...          

Pedro, voltou pra casa de manhã e, cambaleando, foi direto para a cama. Sem despir a fantasia, e ainda coberto de purpurina e confete, acendeu um cigarro e ficou devaneando... devaneando, fechou os olhos, devaneando deixou o cigarro aceso cair... Em seu devaneio, viu V. se aproximar, com fogo nos olhos... num instante, cresceram as chamas no seu olhar e pularam na cama e as labaredas não demoraram a tomar conta do quarto e do corpo de Pedro. Subitamente,  a casa inteira, ardia, num fogo crescente e destruidor.

Pedro, em seus últimos momentos, não soube distinguir o sonho da realidade... achou que sonhava e enquanto era devorado pelas chamas, pensava em sua branquinha e em sua nova vida e V. iria entender...

No clamor que se seguiu do lado de fora, apenas Valmira. permanecia insensível, com o filho nos braços. Sem lágrimas, viu a casa de sua família desaparecer para sempre, levando com ela o seu grande e único amor... “que descuidado.... imagina, dormir segurando um cigarro... aceso, ainda por cima... Oxalá, meu pai... Pedro pensou o quê?; pensou que seria fácil assim? iria me deixar assim, sem mais?... Tudo o que Deus faz é bem-feito... muito bem-feito... não existe ditado mais justo”.

Pedro realmente mudou de vida, mas não de acordo com suas expectativas. E o dinheiro guardado no banco serviu apenas para lhe financiar as despesas... as despesas que tiveram de fazer para o seu enterro.

Ironicamente, Pedro, morreu como viveu; vestido de fantasia, coberto de confete e purpurina, perdido entre os limites da realidade e do sonho... mas, o fogo, vermelho, violento e brilhante, não deixou que ninguém o percebesse.    

O INFERNO POR HERANÇA ÀS NOSSAS CRIANÇAS


Por vezes meu coração oscila entre a intranqüilidade e a desesperança. Doem as lembranças. Descrença. Como ser feliz e são num mundo corrompido, entristecido, onde jogamos às feras nossos filhos, sem qualquer cuidado ou emoção, sem direção, abandonando-os à própria sorte, desde o nascimento até a morte. Só vejo um lado das questões? Acho que não... Nos olhos da criança humilhada, ultrajada, o pavor, a perda da inocência espalhada, espelhada nos sentimentos indizíveis, intraduzíveis para o entendimento do mundo. Tremem as mãos... teme-se a ação... vacila a intenção... Os danos e perdas são terríveis, irreparáveis, mas, que fazer? A culpa há de ser do próprio ser, vasto território desconhecido, difícil de percorrer... Sobre-viver... esquecer... impossível reter o fugaz tão necessário para um instante de compreensão... migalhas de pão... melhor ter nada a dizer... calar então... O paraíso lhes parece tão distante, que só lhes cabe o inferno de chamas brilhantes... otimistamente pessimista sou... quem sou? tento apenas entender o porquê do sofrer, que, tantas vezes, nos acontece de forma tão brutal, banal, surreal... seja por que lá sei o quê... basta um segundo de descanso e vão-se todas as chances... Se tivéssemos clareza no pensar, no sentir, no agir não seriamos assim, presas fáceis de espécies abomináveis... O paraíso realmente nos parece tão distante que só nos cabe o inferno de chamas brilhantes. Varia a intensidade e o nível do amor que não é amor, mas sim puro veneno, quando não bem dosado ou nivelado, e sempre há engano nesse caso na mente do amante ou do amado objeto desejado, apego apegado desequilibrado, descontrolado. Ajuda respirar profunda e serenamente, pondo-se a frente, em silêncio preenchendo o vazio, aquecendo o frio. Existe um caminho claro e reto por onde sigo, juntando estrelas que do céu caem ao chão... Ahh... o clarão... o clarão do luar guia os barcos à deriva no mar...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A Felicidade



Felicidade

Tom Jobim and Vinício de Moraes

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
e tudo se acabar na quarta feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Prá que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O ENGRAÇADO ARREPENDIDO PARTE FINAL




A anedota correu capciosa pelos fios naturais até ás proximidades do desfecho, narrada com arte de mestre, segura e firme, num andamento estrategico em que havia gênio. Do meio para o fim a maranha empolgou de tal forma o pobre velho que o pôs suspenso, de boca entreaberta, uma azeitona no garfo detida a meio caminho. Um ar de riso – riso parado, riso estopim, que não era senão o armar bote da gargalhada, iluminou-lhe o rosto.

Pontes vacilou. Pressentiu o estouro da arteria. Por uns instantes a consciencia brecou-lhe a lingua, mas Pontes deu-lhe um pontapé e com voz firme puxou o gatilho.

O major Antonio Pereira da Silva Bentes desferiu a primeira gargalhada da sua vida, franca, estrondosa, de ouvir-se no fim da rua, gargalhada igual á de Teufeldsdrock diante de João Paulo Richter. Primeira e ultima, entretanto, porque no meio dela os convivas, atônitos, viram-no cair de borco sobre o prato, ao tempo que uma onda de sangue avermelhava a tolha.

O assassino ergue-se alucinado; aproveitando a confusão, esgueirou-se para a rua, qual outro Caim. Escondeu-se em casa, trancou-se no quarto, bateu dentes a noite inteira, suou gelado. Os menores rumores retransiam-no de pavor. Policia?

Semanas depois é que entrou a declinar aquele transtorno que toda a gente leva á conta de magua pela morte do amigo. Não obstante, trazia sempre nos olhos a mesma visão: o coletor de bruços no prato, golfando sangue, enquanto no ar vibravam os ecos da sua derradeira gargalhada.
E foi nesse deploravel estado que recebeu a carta do parente do Rio. Entre outras coisas dizia o az: “Como não me avisaste a tempo, conforme o combinado, só pelas folhas vim a saber da morte do Bentes. Fui ao ministro mas era tarde, já estava lavrada a nomeação do sucessor. A tua leviandade fez-te perder a melhor ocasião da vida. Guarda para teu governo este latim: tarde vinientibus ossa quem chega tarde só encontra os ossos – e sê mais esperto para o futuro.”

Um mês depois descobriram-no pendente duma trave, com a lingua de fora, rigido.

Enforcara-se numa perna de ceroula.

Quando a noticia deu volta pela cidade, toda gente achou graça no caso. O galego do armazém comentou para os caixeiros:

- Vejam que criatura! Até morrendo fez chalaça... Enforcar-se na ceroula! Esta só mesmo do Pontes...

E reeditaram em côro meia dúzia de “quás” – unico epitáfio que lhe deu a sociedade.

1916.                  


    



O ENGRAÇADO ARREPENDIDO PARTE V I


Um trabalho sistematico de observação, com a metodica exclusão dos generos já provados ineficientes, levou Pontes a descobrir a frraqueza do rude adversário: o major lambia as unhas por casos de ingleses e frades. Era preciso, porém, que viessem juntos. Separados, negavam fogo. Exquisitices do velho. Em surgindo bifes vermelhos, de capacete de cortiça, roupa enxadrezada, sapatões formidolosos e cachimbo, juntamente com frades redondos, namorados da pipa e da polpa feminina, lá abria o major a boca e interrompia o serviço de mastigação, como criança a quem acenam com cocada. E quando o lance cômico chegava, ele ria com gosto, abertamente, embora sem exagero capaz de lhe destruir o equilíbrio sanguineo.

Quando o caso era longo, porque o narrador o floria no intento de esconder o desfecho e realçar o efeito o velho interessava-se vivamente, e nas pausas manhosas pedia esclarecimento ou continuação.

- “E o raio do bife?” “E daí” “Mister John apitou”

Embora tardasse a gargalhada fatal, o futuro coletor não desesperava, confiando no apologo da bilha que de tanto ir á fonte lá ficou. Não era mau o calculo. Tinha a psicologia por si – e teve também por si a quaresma.

Certa vez, findo o Carnaval, reuniu o major amigos em torno a uma enorme piabanha recheada, presente dum colega. O entrudo desmazorrara a alma dos comensais e a do anfitrião, que estava naquele dia contente de si e do mundo, como se houvera enxergado o passarinho verde. O cheiro vindo da cozinha, valendo por todos os aperitivos de garrafaria, punha nas caras um enternecimento estomacal.

Quando o peixe entrou, cintilaram os olhos do major. Pescado fino era com ele, inda mais cozido pela Gertrudes. E naquele bródio primara a Gertrudes num tempero que excedia ás raias da culinaria e se guindava ao mais puro lirismo. Que peixe! Vatel o assinaria com a pena da impotencia molhada na tinta da inveja, disse o escrevente, sujeito lido em Brillat-Savarin e outros praxistas do paladar.

Entre goles de rica vinhaça ia a piabanha sendo introduzida nos estomagos com religiosa unção. Ninguem se atrevia a quebrar o silencio da bromatologica batitude.

Pontes pressentiu oportuno o momento do golpe. Trazia engatilhado o caso dum inglês, sua mulher e dois frades barbadinhos, anedota que elaborara á custa da melhor matéria cinzenta de seu cerebro, aperfeiçoando-a em longas noites de insonia. Já de dias a tinha de tocaia, só aguardando o momento em que tudo concorresse para leva-la a produzir o efeito Maximo.

Era a derradeira esperança do facinora, seu ultimo cartucho. Negasse fogo e, estava resolvido, metia duas balas nos miolos. Reconhecia impossível manipular-se torpedo mai engenhoso. Se o aneurisma lhe resiste ao embate, então é que o aneurisma era uma potoca, a aorta uma ficção, o Chernoviz um palavrorio, a medicina uma miseria, o doutor Iodureto uma cavalgadura e ele, Pontes, o mais chapado sensaborão ainda aquecido pelo sol – indigno, portanto de viver.

Matutava assim o Pontes, negaceando com os olhos da psicologia a pobre vitima, quando o major veiu ao seu encontro: piscou o olho esquerdo – sinal de predisposição para ouvir.

- É agora! pensou  o bandido – e com infinita naturalidade, pegando como por acaso uma garrafinha de molho, pôs-se a ler o rotulo..

- Perrins; Lea and Perrins.  Será parente daquele lorde Perrins que bigodeou os dois frades barbadinhos?

Inebriado pelo amavio do peixe, o major alumiou um olho concupiscente, guloso de chulice.

- Dois barbadinhos e um lorde! A patifaria deve ser marca X.P.T.O. Conta lá, serelepe.

E, mastigando maquinalmente, absorveu-se no caso fatal.


Continua...  


    



sábado, 13 de fevereiro de 2010

O ENGRAÇADO ARREPENDIDO PARTE V


 



Como era de prever, a serpente venceu, e Pontes ressurgiu para o mundo um tanto mais magro, de olheiras cavadas, porém com um estranho brilho de resolução vitoriosa nos olhos. Também notaria nele o nervoso dos modos de quem o observasse com argucia – mas a argucia não era virtude sobeja entre seus conterraneos, alem de que estados d’alma do Pontes eram coisas de somenos porque o Pontes...

- Ora o Pontes...

O futuro funcionario forjicou, então, meticulosos planos de campanha. Em primeiro era mister aproximar-se do major, homem recolhido consigo e pouco amigo de lérias; insinuar-se-lhe na intimidade; estudar suas venetas e cachacinhas até descobrir em que zonas do corpo tinha ele o calcanhar d’Aquiles.

Começou frequentando com assiduidade a coletoria, sob pretextos vários, ora para selos, ora para informações sobre impostos, que tudo era ensejo de um parolar manhoso, habilíssimo, calculado para com balir a rispidez do velho.

Tambem ia a negocios alheios, pagar cisas, extrair guias, coisinhas; fizera-se muito serviçal para os amigos que traziam negócios com a fazenda.

O major estranhou tanta assiduidade e disse-lho, mas Pontes, escamoteou-se à interpelação montado numa pilheria de truz, e perseverou num bem calculado dar tempo ao tempo que fosse debastando as arestas agressivas do cardiaco.   

Dentro de dois meses já se habituara Bentes áquele serelepe. Como lhe chamava, o qual, em fim de contas, lhe parecia um bom moço, sincero, amigo de servir e sobretudo inofensivo... Daí a lá em dia d’acumulo de serviço pedir-lhe um obsequio, e depois outro, e terceiro, e te-lo afinal como especie de adido á repatição, foi um passo. Para certas comissões não havia outro. Que diligencia! Que finura! Que tacto! Advertindo certa vez o escrevente, o major puxou aquela diplomacia como lembrete.

- Grande pasmado! Aprenda com o Pontes, que tem jeito para tudo e ainda por cima tem graça.

Nesse dia convidou-o para jantar. Grande exultação na alma do Pontes! A fortaleza abria-lhe as portas.

Aquele jantar foi o inicio de duma serie em que o serelepe, agora factotum indispensavel, teve campo de primeira ordem para evoluções tácticas.

O major Bentes entretanto possuia uma invulnerabilidade: não ria, limitava suas expansões hilares a sorrisos ironicos. Pilheria que levava outros comensais a erguerem-se da mesa atabafando a boca nos guardanapos, encrespava apenas os seus lábios. E se a graça não era de superfina agudeza, ele desmontava sem piedade o contador.

- Isso é velho, Pontes, já num almanaque Laemmerte de 1850 me lembra de o ter lido.

Pontes sorria com ar vencido; mas lá por dentro consolava-se, dizendo, dos figados para os rins, que se não pegara daquela doutra pegaria..

Toda a sua sagacidade enfocava no fito de descobrir o fraco do major. Cada homem tem predileção por um certo genero de humorismo ou chalaça. Este morre por pilherias fesceninas de frades bojudos. Aquele péla-se pelo chiste bonacheirão da chacota germânica. Aquel’outro dá a vida pela pimenta gaulesa. O brasileiro adora a chalaça onde se põe a nú a burrice tamancuda de galegos e ilheus.

Mas o major? Por que não ria á inglesa, nem á alemã, nem á francesa, nem á brasileira? Qual o seu genero?


Continua...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O ENGRAÇADO ARREPENDIDO PARTE IV


Monteiro Lobato
 
 Urgia, entretanto, mudar de tecla, e Pontes volveu as vistas para o Estado, patrão comodo e unico possivel nas circunstancias, porque abstrato, porque não sabe rir nem conhece de perto as celulas que o compõem. Esse patrão, só ele, o tomaria a serio – o caminho da salvação, pois, embicava por ali.

Estudou a possibilidade da agencia do correio, dos tabelionatos, das coletorias e do resto. Bem poderados os prós e contras, os trunfos e naipes, fixou a escolha na coletoria federal, cujo ocupante, major Bentes, por avelhantado e cardíaco, era de crer não durasse muito. Seu aneurisma andava na berra publica, com rebentamento esperado para qualquer hora.

O az de Pontes era um parente do Rio, sujeito de posses, em via de influenciar a política no caso da realização de certa reviravolta no governo. Lá correu atrás dele e tantas fez para move-lo á sua pretensão que o parente o despediu com promessa formal.

- Vai sossegando, que, em coisa arrebentando por cá e o teu coletor rebentando por lá, ninguem mais ha de rir-se de ti. Vai, e avisa-me da morte do homem sem esperar que esfrie o corpo.

Pontes voltou radioso de esperança e pacientemente aguardou a sucessão dos fatos, com um olho na política e outro no aneurisma salvador.

A crise afinal, veiu; caíram ministros, subiram outros e entre estes um politicão negocista, socio do tal parente. Meio caminho já era andado. Restava apenas a segunda parte.

Infelizmente, a saude do major encruara, sem sinais patentes de declinio rapido. Seu aneurisma, na opinião dos medicos que matavam pela alopatia, era coisa grave, de estourar ao menor esforço; mas o precavido velho não tinha pressa de ir-se para melhor, deixando uma vida onde os fados lhe conchegavam tão fofo ninho, e lá engambelava a doença com um regime ultra-metodico. Se o mataria um esforço violento, sossegassem, ele não faria tal esforço.

Ora, Pontes, mentalmente dono daquela sinecura, impacientava-se com o equilibrio desequilibrador dos seus cálculos. Como desembaraçar o caminho daquela travanca? Leu no Chernoviz o capitulo dos aneurismas, decorou-o; andou em indagações de tudo quanto se dizia ou se escreveu a respeito; chegou a entender da materia mais que o doutor Iodureto, medico da terra, o qual, seja dito aqui á puridade, não entendia de coisa nenhuma desta vida.

O pomo da ciencia, assim comido, induziu-o á tentação de matar o homem, forçando-o a estourar. Um esforço o mataria? Pois bem, Souza Pontes o levaria a este esforço!

- A gargalhada é um esforço, filosofava satanicamente de si para si. A gargalhada, portanto, mata. Ora, eu sei fazer rir...

Longos dias passou Pontes alheio ao mundo, em dialogo mental com a serpente.

- Crime? Não! Em que código fazer é crime? Se disso morresse o homem, culpa era de sua má aorta.

A cabeça do maroto virou picadeiro de luta onde o “plano” se batia em duelo contra todas as objeções mandadas ao encontro pela consciencia. Servia de juiz a sua ambição amarga e Deus sabe quantas vezes tal juiz prevaricou, levado de escandalosa parcialidade por um dos contendores.

Continua...    

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O ENGRAÇADO ARREPENDIDO PARTE III





Um dia, bem maturados os planos, resolveu mudar de vida. Foi a um negociante amigo e sinceramente lhe expôs os propositos regeneradores, pedindo por fim um lugar na casa, de varredor que fosse. Mal acabou a exposição, o galego e os que espiavam de longe á espera do desfecho torceram-se em estrondoso gargalhar, como sob cocegas. 

- Esta é boa! É de primeirissima! Quá! quá! quá! Com que então... Quá! quá! quá! Você me arruína os fígados, homem! Se é pela continha dos cigarros, vá embora que me dou por bem pago! Este Pontes tem cada uma...

E a caixeirada, os fregueses, os sapos de balcão e até passantes que pararam na calçada para “aproveitar o espirito”, desbocaram-se em quás de matraca até lhe doerem os diafragmas.

Atarantado e seriissimo, Pontes tentou desfazer o engano.

- Falo sério e o senhor não tem o direito de rir-se. Pelo amor de Deus não zombe de um pobre homem que pede trabalho e não gargalhadas.

O negociante desabotoou o cós da calça.

- Fala sério, pff! Quá! quá! quá! Olha Pontes, você...

Pontes largou-o em meio da frase, e se foi com a alma atenazada entre o desespero e a colera. Era demais. A sociedade o repelia, então? Impunha-lhe uma comicidade eterna?

Correu outros balcões, explicou-se como melhor pôde, implorou. Mas por voz unânime o caso foi julgado como uma das melhores pilherias do “incorrigivel” e muita gente comentou com a observação do costume:

- Não se emenda o raio do rapaz! E olhem que já não é criança...

Barrado no comercio, voltou-se para a lavoura. Procurou um velho fazendeiro que despedira o feitor e expôs-lhe o seu caso.

Depois de ouvir-lhe atentamente as alegações, conclusas com o pedido do lugar de capataz, o coronel explodiu num ataque de hilaridade.

- O Pontes capataz! Ih! Ih! Ih!

- Mas...

- Deixe-me rir, homem, que cá na roça isto é raro. Ih! Ih! Ih! É muito boa! Eu sempre digo: graça como o Pontes, ninguem!

E berrando para dentro:

- Maricota, venha ouvir esta do Pontes. Ih! Ih! Ih!

Nesse dia o infeliz engraçado chorou. Compreendeu que não se desfaz do pé p’r’a mão o que levou anos a cristalizar-se. A sua reputação de pandego, de impagavel, de monumental, de homem do chifre furado ou da pele, estava construída com muito boa cal e rijo cimento para que assim esboroasse de chofre.       

Continua...