domingo, 20 de dezembro de 2009

OS SINOS


OS SINOS



Edgar Allan Poe

Tradução – Oscar Mendes

I



Escuta: nos trenós tilintam sinos argentinos

Ah! Que mundo de alegria o som cantante prenuncia!

Como tinem, lindo, lindo, no ar da noite fria e bela!

Vão tinindo e o céu inteiro se constela, florescente,

refulgindo com deleites cristalinos!

Dão ao Tempo uma cadência tão constante

como um único descante com os tintinabulares, pequeninos sons

bem finos que nascendo vão dos sinos

sim, dos sinos, sim, dos sinos.



II



Escuta: em núpcias vão cantando os sinos, áureos sinos!

Quantos mundos de ventura seu tanger nos prefigura!

No ar da noite, embalsamado, como entoam

seu enlevo abençoado!

Tons dourados, lentas notas, concordantes...

E tão límpido poema aí flutua para as rolas,

que o escutam, divagantes, vendo a lua!

Volumoso, vem das celas retumbantes todo um jorro

de euforia que se amplia! Que se amplia!

“O futuro é belo e bom!” – clama o som,

que arrebata, como em êxtases divinos,

no balanço repicante que lá soa, que tão bem, tão bem ecoa,

na vibrante voz dos sinos, sinos, sinos

carrilhões e sinos, sinos, no rimado, consoante

som dos sinos.



III



Escuta: em longo alarma bradam os sinos, brônzeos sinos!

Ah! que história de agonia, turbulenta, se anuncia!

Treme a noite, com pavor, quando os ouve

em seu bramido assustador! Tanto é o medo que,

incapazes de falar se limitam a gritar em tons frouxos,

desiguais, clamorosos, apelando por clemência ao surdo fogo,

contendendo loucamente com o frenesi do fogo,

que se lança bem mais alto, que em desejo audaz estua de,

no empenho resoluto de algum salto

(sim! agora ou nunca mais!), alcançar a fronte pálida da lua!

Oh! os sinos, sinos, sinos!

De que lenda pavorosa, de alarmar, falam tanto?

Clangorantes, ululantes, graves, finos, quanto espanto vertem

quanto, no fremente seio do ar!

E por eles bem a gente sabe – ouvindo seu tinido, seu bramido –

se o perigo é vindo ou findo.

Bem distintamente o ouvido reconhece pela luta, na disputa,

se o perigo morre ou cresce, pela ampliante ou decrescente

voz colérica dos sinos, badalante voz dos sinos

sim, dos sinos, sim, dos sinos,

carrilhões e sinos, sinos, no clamor e no clangor que vêm dos sinos!



IV



Escuta: dobram, lentamente, os sinos, férreos sinos!

Ah! que mundo de pensares tão solenes põem nos ares!

Na silente noite fria, quanto a alma se arrepia à ameaça desse canto

melancólico de espanto!

Pois em cada som saído da garganta enferrujada

há um gemido!

E os sineiros (ah! essa gente que, habitando o campanário solitário,

vai dobrando, badalando a redobrada voz monótona

e envolvente...), quão ufanos ficam eles, quando vão

tombar pedras sobre o humano coração!

Nem mulher nem homem são, nem são feras: nada mais

Do que seres fantasmais.

E é seu Rei quem assim tange, é quem tange, e dobra, e tange.

E reboa triunfal, do sino, a loa!

E seu peito de ventura se entumesce com os hinos funerários

lá dos sinos; dança, ulula e bem parece ter o Tempo

num compasso tão constante qual de rúnico descante

pelos hinos lá dos sinos! ha! dos sinos!

leva o Tempo num compasso tão constante

como em rúnico descante, pela pulsação dos sinos, a plangente

voz dos sinos, pelo soluçar dos sinos!

Leva o Tempo num compasso tão constante

que a dobrar se sente, ovante, bem feliz com esse rúnico descante

com o reboar que vem dos sinos, a gemente voz dos sinos

o clamor que sai dos sinos, alucinação dos sinos, o angustioso,

lamentoso, longo e lento som dos sinos!

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