terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A HISTÓRIA DOS DUENDES QUE ROUBARAM O COVEIRO PARTE III




O frio lençol de geada rebrilhava sobre as lápides e cintilava como enfiadas de jóias entre os entalhes de pedra da velha igreja, Crespa e dura estendia-se a neve sobre o chão; e desdobrava sobre os montículos de terra um tapete tão branco e liso que parecia que lá se achavam os cadáveres, cobertos apenas de suas mortalhas. Nem o mais leve rumor quebrava a profunda tranqüilidade da cena. O próprio som parecia gelado, tão frio e tão quieto era tudo.

- Foram os ecos – disse Gabriel Grub, erguendo novamente a garrafa à altura dos lábios.

- Não foram – contestou uma voz cavernosa.


Gabriel deu um pulo e quedou pregado ao chão, de assombro e terror, pois os olhos pasmaram-se-lhe numa forma que lhe gelou o sangue.

Sentada numa campa mais alta, à beira dele, via-se uma figura estranha e fantasmagórica, que Gabriel de pronto percebeu não pertencer a este mundo. As pernas longas e fantásticas, poderiam chegar ao solo, mas tinha-as encolhidas e cruzadas de forma espantosa e rara; trazia nus os braços nervosos; e as mãos pousavam-lhe sobre os joelhos. O corpo redondo e curto era envolvido por vestes apertadas e golpeadas; uma capinha pendia-lhe das costas; a gola recortada em bicos fazia-lhe às vezes de gravata, ou golilha; os sapatos terminavam em pontas compridas e viradas. Na cabeça trazia um chapéu em forma de pão de açúcar, com abas largas, encimado por uma única pena. O chapéu estava coberto de geada branca; e o duende dava a impressão de estar confortavelmente sentado naquele túmulo havia duzentos ou trezentos anos. Absolutamente imóvel, deitava a língua de fora, com ar escarninho; e olhava para Gabriel Grub com uma cara que só um duende poderia arranjar.

- Não foram os ecos – repetiu o duende.

Gabriel Grub, paralisado, não pode responder.

- Que é que você está fazendo aqui na véspera de Natal? – perguntou, severo, o duende.

- Vim cavar uma cova, senhor – balbuciou Gabriel Grub.

- Quem é que anda no meio de túmulos e cemitérios numa noite como esta? – gritou o duende.

- Gabriel Grub! Gabriel Grub! – respondeu um coro fantástico de vozes, que parecia encher o cemitério. Gabriel Grub olhou, terrificado, à sua volta, mas não viu coisa alguma.

- Que é que você tem nessa garrafa? – perguntou o duende.

- Genebra, senhor – replicou o coveiro, tremendo cada vez mais; pois comprara-a dos contrabandistas, e julgou que o seu interlocutor poderia ser, talvez, funcionário do fisco dos duendes.

- Quem é que toma genebra sozinho, num cemitério, numa noite como essa? – perguntou o duende. - Gabriel Grub! Gabriel Grub! – exclamaram outra vez as vozes fantásticas.

O duende olhou , malicioso, para o coveiro espavorido e, alteando a voz, exclamou: - E quem, então é a nossa boa e legitima presa?

A essa pergunta o coro invisível replicou numa melodia que soava como as vozes de muitos meninos cantando acompanhados dos solenes acordes do velho órgão da igreja – uma melodia que, aos ouvidos do coveiro, parecia transportada por um vento selvagem, e morria, distante à proporção que passava; mas o estribilho era o mesmo: “Gabriel Grub! Gabriel Grub!”

Continua...
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