terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A HISTÓRIA DOS DUENDES QUE ROUBARAM O COVEIRO PARTE FINAL




Já rompera o dia quando Gabriel Grub despertou e se achou deitado sobre a laje lisa do cemitério, tendo ao seu lado, vazia, a garrafa de vime, e a casaca, a pá e a lanterna recobertas da geada alvacenta da véspera, espalhadas pelo chão. A pedra em que vira o duende sentado pela primeira vez erguia-se diante dele e a cova em que trabalhara não ficava muito longe. A principio começou por duvidar da realidade das suas aventuras, mas a dor aguda que sentiu nos ombros quando tentou levantar-se indicou-lhe que os pontapés não haviam, por certo, sido irreais. De novo lhe abalou o espírito a ausência de vestígios de passos na neve sobre a qual haviam pinoteado os duendes, mas explicou rapidamente a circunstância quando se lembrou de que, sendo espíritos, não deixariam impressões visíveis. Por conseguinte, ergueu-se em pé com pode, apesar da dor nas costas; e tirando a neve da casaca, vestiu-se e voltou o rosto para a cidade.
Mas ele era um homem mudado, e não podia suportar a ideia de regressar a um sitio em que seu arrependimento seria chacoteado, e a sua reformação posta em dúvida. Hesitou alguns momentos; e logo, voltou-se, decidido a buscar outro lugar em que pudesse ganhar o pão.
A lanterna, a pá e a garrafa de vime foram encontradas, nesse dia, no cemitério. De inicio, muito se falou sobre o destino do coveiro, mas logo ficou estabelecido que fora carregado pelos trasgos; e não faltaram testemunhas, muito dignas de fé, que o tinham visto distintamente transportado pelo ar no lombo de um cavalo castanho, cego de um olho, com os quartos traseiros de leão e a cauda de urso. Por fim, em tudo isso se acreditou piamente; e o novo coveiro costumava exibir aos curiosos, por uma gorjeta insignificante, um bom pedaço de catavento da igreja, acidentalmente derrubado pelo sobredito cavalo em sua fuga aérea, e por ele apanhado no cemitério, um ou dois anos depois.
Infelizmente, porém, foram essas histórias algo prejudicadas pela reaparição inesperada do próprio Gabriel Grub, uns dez anos depois, quando já era um velho esfarrapado, reumático, mas contente.Ele contou sua história ao vigário e também ao prefeito; e, com o tempo, começou ela a ser aceita, como fato histórico, forma em que continua a sê-lo até hoje. Percebendo os que haviam crido no conto do catavento que a sua boa fé fora iludida, protestaram não cair noutra; assumiram a expressão mais esperta que puderam, encolheram os ombros, bateram na testa e murmuraram qualquer coisa a respeito de haver Gabriel Grub bebido toda a genebra e, a seguir, adormecido sobre a lápide lisa; e fingiram explicar o que ele imaginava ter visto na caverna dos duendes, dizendo que percorrera o mundo e tomara mais juízo. Mas essa teoria, que não logrou popularizar-se, aos poucos se extinguiu; e, seja como for, visto haver Gabriel Grub sofrido de reumatismo até o fim de seus dias, essa história tem, pelo menos, uma moral, à falta de coisa melhor: quando um homem de mau gênio bebe sozinho na véspera do Natal, pode ter certeza de que não há de sentir-se melhor por causa disso, ainda que os espíritos do licor sejam menos fortes, ou melhor retificados, do que os que viu Gabriel Grub na caverna dos duendes.               

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