sábado, 19 de dezembro de 2009

A HISTÓRIA DOS DUENDES QUE ROUBARAM O COVEIRO PARTE VI


- Mostrem-lhe novos quadros – ordenou o rei dos duendes.

A essas palavras, dissipou-se a nuvem e à sua vista se apresentou formoso e rico panorama – o mesmo que se vê, até hoje, a meia milha da velha cidade abacial. Brilhava o sol no céu azul, muito claro, refulgia as água debaixo dos seus raios, e as arvores pareciam mais verdes, e as flores mais alegres, sob sua benéfica influência. Marulhavam as águas, com agradável murmúrio; as folhas se agitavam à suave brisa que sussurrava entre elas; cantavam os pássaros nos ramos; e a cotovia saudava, alegre, o romper da manhã. Sim, era de manhã; uma brilhante e balsâmica manhã de verão; na menor das folhas, na mais delicada haste de relva, sentiam-se estos de vida. Saia a formiga para o seu cotidiano labor, a borboleta esvoaçava e se aquecia aos quentes raios do sol; miríades de insetos estendiam as asas transparentes, e gozavam da existência breve, mas feliz.

O homem caminhava enlevado, pela cena; e tudo era esplendor e harmonia.

- Você! Miserável criatura! – disse o rei dos duendes, em tom ainda mais desdenhoso. E voltou a agitar a perna; e esta volveu a descer sobre os ombros do coveiro; e tornaram os outros duendes a imitar-lhe o exemplo.

Muitas e muitas vezes tornou e passou a nuvem, ensinando muitas lições a Gabriel Grub, que, embora tivesse os ombros doloridos pelas freqüentes aplicações dos pontapés, olhava para tudo com um interesse que nada poderia diminuir. Viu que os homens que trabalhavam muito e obtinham a custo o seu escasso pão eram alegres e felizes; e que até para o mais ignorante era o aspecto meigo da natureza fonte inesgotável de prazeres e alegria. Viu os que tinham sido criados com mimos e crescido entre carinhos, contentes a despeito das privações, e superiores ao sofrimento que teria esmagado outros mais fortes, porque traziam dentro de si os germes da conformação e da paz. Viu que as mulheres, as mais delicadas e frágeis de todas as criaturas de Deus, eram, o mais das vezes, superiores à tristeza, à adversidade e à desgraça; e compreendeu que o motivo residia em trazerem nos corações uma fonte inexorável de afeto e dedicação. Viu, sobretudo, que homens como ele próprio, que remoqueavam a jovialidade e a alegria dos outros, eram as piores ervas más que se encontravam na bela superfície da terra; e, comparando todos os bens do mundo com todos os seus males, chegou à conclusão de que, afinal de contas, era um mundo assaz decente e respeitável. Assim que chegou a essa conclusão, a nuvem que se fechara sobre o último quadro pareceu envolver-lhe os sentidos e convidá-lo ao repouso. Um por um, desvaneceram-se os duendes; e quando o último desapareceu, caiu num sono profundo.


Continua...

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