sábado, 12 de dezembro de 2009

A HISTÓRIA DOS DUENDES QUE ROUBARAM O COVEIRO PARTE V


O primeiro duende era um saltador extraordinário e nenhum podia competir com ele; e até no auge de seu terror, o coveiro não pode menos de observar que, enquanto os companheiros se contentavam em transpor os túmulos de tamanho comum, o primeiro piruetava sobre os jazigos de família, com grades de ferro e tudo, com a mesma facilidade com que o faria se fossem meros marcos de estrada.

Afinal, a brincadeira chegou ao ponto culminante; o órgão tocava cada vez mais depressa; e os duendes cabritavam com rapidez cada vez maior, encolhendo-se no ar, dando cambalhotas pelo chão, e saltando sobre as campas como bolas de futebol. O cérebro do coveiro girava com a rapidez do movimento que ele contemplava, e as pernas vergavam debaixo dele, à proporção que os espíritos passavam diante dos seus olhos, quando o rei dos duendes, atirando-se de repente sobre ele, agarrou-o pela gola da casaca e arrastou-o consigo para as profundezas da terra.

Quando Gabriel Grub teve tempo para recobrar o fôlego, que a velocidade da descida lhe tirara por instantes, achou-se no que lhe pareceu enorme caverna, cercado de todos os lados por multidões de duendes, sinistros e feios; no centro da sala, num assento elevado, estava o seu amigo do cemitério; e bem perto dele, se achava o próprio Gabriel Grub, sem poder mexer-se.

- Está frio hoje à noite – disse o rei dos duendes – muito frio. Tragam-me alguma coisa quente para beber!

A essa ordem, meia dúzia de duendes oficiosos, com um sorriso perpetuo nos lábios, que Gabriel Grub imaginou serem cortesãos, por causa disso, desvaneceram-se de improviso e, daí a pouco, voltavam com uma taça de fogo liquido, que apresentaram ao rei.

- Ah! – exclamou o duende, cujas faces e cuja garganta se tornaram transparentes ao engolir a chama. – Isso, de fato, esquenta a gente. Tragam uma caneca para o Sr. Grub.

Foi em vão que o infortunado coveiro protestou que não tinha o habito de tomar nada quente à noite; um dos duendes segurou-o, ao passo que outro lhe vertia o liquido ardente pela garganta abaixo; a assembléia toda se fartava de rir ao vê-lo tossir e engasgar-se e enxugar as lágrimas que lhe assomaram, copiosas, aos olhos, depois de tomar a bebida candente.

- E agora – disse o rei, enfiando a ponta do chapéu afunilado nos olhos do coveiro e provocando-lhe, assim uma dor agudíssima – e agora, mostrem ao homem da desgraça e da tristeza alguns quadros do nosso grande museu!

Quando o duende disse isso, uma nuvem grossa, que obscurecia o canto mais remoto da caverna, aos poucos se dissipou, mostrando, a uma distância aparentemente grande, um pequeno aposento mal mobiliado, mas limpo e arrumado. Uma porção de criancinhas apinhavam-se à volta de um lume brilhante, agarradas às saias da mãe, saltaricando-lhe ao redor da cadeira. A mãe levantava-se de vez em quando e afastava a cortina da janela, como se estivesse à espera de alguém; um repasto frugal estava disposto sobre a mesa; e uma poltrona fora colocada aos pés da lareira. Ouviu-se uma pancada à porta; a mãe abriu-a e as crianças reuniram-se-lhe à roda, batendo as mãos de alegria, à entrada do pai. Este chegou molhado e cansado, e sacudiu a neve das roupas, quando as crianças o rodearam, e tomando-lhe a capa, o chapéu, a bengala e as luvas, levaram tudo, azafamadas, para fora da sala. Depois, sentou-se diante de seu prato ao pé do fogo, os filhos treparam-lhe nos joelhos, e a esposa acomodou-se-lhe ao lado, e tudo parecia felicidade e alegria.


Continua...

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