quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A HISTÓRIA DOS DUENDES QUE ROUBARAM O COVEIRO PARTE IV


O duende escancarou a boca num riso ainda maior, ao perguntar: - Então, Gabriel, que acha disso?

O coveiro arquejou.

- Que acha disso, Gabriel? – insistiu o duende, atirando as pernas para o ar, de cada lado do túmulo, e olhando para as pontas reviradas dos sapatos, com a mesma complacência com que examinaria o par mais a la moda de botas Wellington em Bond Street.

-É ... é muito curiosos, senhor... – respondeu o coveiro, quase morto de medo - muito curioso e muito bonito, mas acho que vou acabar o meu serviço, se me der licença.

- Serviço? – tornou o duende – Que serviço?

- A cova, senhor; tenho de acabar a cova – tartamudeou o coveiro.

- Oh, a cova, não é? – volveu o duende – Quem é que faz covas quando todos os homens estão alegres e se divertem?

E as vozes misteriosas voltaram a repetir: - Gabriel Grub! Gabriel Grub!

- Receio que os meus amigos o estejam querendo, Gabriel – disse o duende, recolhendo a língua (e que língua espantosa, santo Deus!) – Receio que os meus amigos o estejam querendo, Gabriel – repetiu o duende.

- Com sua licença, senhor – replicou o aterrado coveiro – não creio que possam querer-me, senhor; não me conhecem; creio que nunca me viram, senhor.

- Ora, se o conhecem – replicou o duende – Nós conhecemos o homem de cara fechada e carrancuda, que desceu a rua, hoje à noite, deitando mau olhado às crianças, e segurando com força o cabo da pá. Conhecemos o homem que feriu o menino por maldade, porque o menino podia estar alegre e ele não podia. Nós o conhecemos, nós o conhecemos.

A essa altura o duende soltou uma gargalhada estridula, que o eco repetiu vinte vezes; e atirando as pernas para o ar, ficou de cabeça para baixo, ou melhor, na pontinha do chapéu afunilado, na estreita borda do túmulo; de onde, cambalhotando com extraordinária agilidade, foi cair exatamente aos pés do coveiro, na posição de um alfaiate entretido em seu oficio.

- Eu... eu... creio que vou deixá-lo, senhor – disse o coveiro, fazendo um esforço para mover-se.

- Deixar-nos! – tornou o duende – Gabriel Grub quer nos deixar. Ho! ho! ho!.

Enquanto se ria o duende, Gabriel Grub notou, por um instante, através das janelas da igreja, uma brilhante iluminação, como se estivessem acesas todas as luzes do edifício; logo se apagou a claridade, o orgão pôs-se a tocar uma melodia viva, e exércitos inteiros de duendes, em tudo semelhantes ao primeiro, inundaram o cemitério, e principiaram a saltarinhar sobre os túmulos; sem se deterem sequer por um segundo para tomarem fôlego, cabriolavam sobre os mais altos, um depois do outro, com maravilhosa destreza.

..

Continua.

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