sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A HISTÓRIA DOS DUENDES QUE ROUBARAM O COVEIRO



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Do livro As Aventuras do Sr. Pickwick, de Charles Dickens

Tradução: Otávio Mendes Cajado

Numa velha cidade abacial deste condado, há muito, muito tempo – há tanto tempo que a história deve ser verdadeira, pois nela acreditavam implicitamente os nossos bisavós – havia um tal de Gabriel Grub, que acumulava as funções de coveiro e sacristão. De ser um homem coveiro e viver constantemente cercado dos emblemas da morte, não segue, de maneira alguma, que tenha de ser uma criatura taciturna e melancólica; os agentes funerários são os sujeitos mais alegres do mundo; e eu já tive, de uma feita, a honra de privar com um deles, que era, em sua vida particular, e fora dos seus misteres, o mais engraçado e jovial dos indivíduos, capaz de cantar uma canção báquica, sem o menor tropeço de memória, ou de esvaziar o conteúdo de um bom copázio sem se deter para tomar fôlego. Mas, a despeito de todos esses precedentes, Gabriel Grub, pelo contrário, era um sujeito rabugento, de mau gênio, intratável – um homem taciturno e solitário, que não se dava com ninguém a não ser consigo mesmo e com uma velha garrafa de vime, acomodada num bolso grande do colete – e que olhava para todos os rostos alegres que passavam por ele com tão medonha carranca, maldosa e mal-humorada, que ninguém podia vê-la sem sentir arrepios.

Um pouco antes do crepúsculo, numa véspera de Natal, Gabriel pôs a pá sobre o ombro, acendeu a lanterna e dirigiu-se para o velho cemitério; pois tocava-lhe acabar uma cova para a manhã seguinte e, como estivesse muito abatido, imaginou que o trabalho poderia reanimá-lo, se a ele se metesse incontinenti. Ao seguir o seu caminho, pela velha rua, viu brilhar a alegre claridade dos lares crepitantes, através das janelas antigas, e ouviu risos e gritos de júbilo dos que se haviam reunido à volta deles; observou os ativos aprestos para a festa do dia seguinte, e sentiu muitos aromas saborosos que deles resultavam e se evolavam, em nuvens, pela janela das cozinhas. Tudo isto era fel e absinto para o coração de Gabriel Grub; e quando grupos de crianças saiam aos saltos das casas e, aos saltos, atravessavam as ruas, encontrando-se, antes de baterem à porta fronteira, com meia dúzia de marotinhos de cabelos encaracolados, agrupados em torno deles enquanto subiam para passar a noite em seus folguedos de Natal, Gabriel sorria sinistro, e segurava com mais força o cabo da pá ao pensar no sarampo, na difteria, na tosse comprida e em muitas outras fontes semelhantes de consolação. 

Neste feliz estado de espírito, pôs-se a caminhar, retribuindo com um grunhido breve e triste as bem-humoradas saudações dos vizinhos que, de vez em quando, encontrava, até penetrar a escura azinhaga que conduzia ao cemitério.




Continua...



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