quinta-feira, 5 de novembro de 2009

OS COMEDORES DE GENTE PARTE VII


Pouco a pouco, a influencia, o horror tomaram conta de mim. Logo estava feito criança em suas mãos. Andava por ali como que em transe. O cingalês notou a mudança e alertou-me com palavras enigmáticas, mas era como se falasse com as paredes em volta. Algum poder obscuro, imensuravelmente mais poderoso que o homem, apossara-se de mim, de corpo e alma. O latir dos cachorros tornara-se música para os meus ouvidos, e, curiosamente, eles já não se mostravam hostis, muito pelo contrário, até pulavam de alegria a altura do cercado quando eu aparecia, mostrando-me afeição, lambendo-me as mãos. Certa manhã, nublada e quente, impiedosamente tropical, com uma ameaça de tempestade, levantei-me com a mente mais entorpecida do que nunca. Percebi em mim o desejo de alguma coisa que não sabia descrever, uma ânsia horrível, uma fome violenta, que, no entanto, não era uma fome comum, pois o excelente café servido pelo cingalês permaneceu intocado, provocando-me somente náuseas. Como uma fera esfaimada, caminhava pela casa, a largas passadas, indo de uma janela a outra. Ah, o que era aquilo?! Os cachorros latiam ferozmente. Algo em mim, indescritivelmente incontrolável e selvagem, fez com que eu saltasse como um tigre ao ouvir os latidos. Olhei para a mata. Um homem em um traje de brim branco saía de lá, cambaleante, evidentemente no mesmo apuro em que me encontrara uns dez dias antes. Então, desapareceu de minha vista.

Corri para o último andar da torre, o melhor lugar para vigiá-lo, subindo aos saltos os gastos degraus de pedra, igual a uma pantera, dominado por um irrefreável desejo de sangue. Sentia na carne, a irresistível alegria do triunfo que as feras devem sentir à visão de suas presas.

Atrás de mim, gritava o cingalês: “Senhor, senhor, não suba”, ele insistia. “Há alguma coisa lá... alguma coisa maldita!”

O andar mais alto da torre consistia de dois quartos. Até então eu entrara apenas no do outro lado, cheio de livros, armas e equipamentos de caça. O que dava para a mata estava fechado. Bem, num verdadeiro frenesi atirei-me contra a porta. A velha fechadura partiu-se e lancei-me para dentro do lugar com uma força terrível. Tropeçando, fui para a janela, coberta de teias de aranha com os olhos arregalados, ofegando como um tigre na jaula. Ah, agora avistava a pequena forma branca outra vez!

Os cães... como latiam! Meu impulso foi descer e soltá-los, para caçar, capturar e... Mesmo agora, depois de muitos anos, fico enjoado e tonto à simples lembrança do horripilante desejo que me invadira com uma onda de ansiedade. Agarrar, despedaçar, morder... sim, morder, literalmente morder!

Algo caiu ao chão, fazendo um ruído lúgubre, daí virou e rolou sobre as tábuas apodrecidas. Baixei os olhos para ver o objeto ... um crânio humano girava lentamente sobre sua abóbada descarnada, bem junto aos meus pés!



Continua...

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