quarta-feira, 11 de novembro de 2009

OS COMEDORES DE GENTE PARTE FINAL

Revolta, horror e abominação caíram sobre mim como uma inundação devastadora, extinguindo as chamas do insidioso ardor que sentia. Ajoelhei-me junto àquela sinistra relíquia com o rosto afundado nas mãos, tremendo de vergonha e aversão por mim mesmo, como um espírito recém-liberto de um terrível poço e limbo de maldade no qual havia me deixado ficar por dias de abandono semi-consciente. Em que havia quase me transformado? Com um grito, olhei em volta. O quarto estava literalmente amontoado de ossos humanos, os horrendos troféus que Kreimer, o homem-demônio, o canibal, havia cumulado ali como recordação de suas macabras orgias.

Ainda muito abalado, desci correndo as escadas; atravessei o terreno e fui em direção à figura que agora estava caída na beira da mata. Corri tão rápido como quando fui perseguido pelos cães infernais no dia da execrável morte de Kreimer. O cingalês seguiu-me. Erguemos o homem caído, mas ele já estava morto.

Dois dias mais tarde eu estava a caminho da civilização acompanhado pelo cingalês. Antes de ir-me, porém, carreguei todos os rifles e revólveres da torre, entrei no canil e ali fiz o que devia fazer, rápido e sem piedade. Quando o último dos cães infernais soltou seu derradeiro ganido, voltei à torre. O cingalês e eu juntamos toda madeira seca que pudemos encontrar, e, após empilhá-las no primeiro andar, ateei fogo. Em poucas horas nada sobrara do castelo a não ser as paredes enegrecidas.

Quando voltei para Colombo, fiz algumas investigações e descobri, em linhas gerais, a história do lugar. Havia sido construído por um inglês rico e excêntrico nas primeiras décadas do século dezenove. Era astrólogo, e retirara-se para essa região remota a fim de poder se dedicar melhor ao estudo de sua misteriosa arte, livre de perturbação e interferência. Por pelo menos uma geração ficara abandonado e praticamente destruído, até que, uns dois anos antes do começo de minha história; foi encontrado e reforçado por Kreimer. O misterioso desaparecimento de exploradores numa região como essa não provocara nenhum estranhamento dos moradores da região, uma vez que se pensava que haviam morrido na mata vizinha, que tinha uma fama particularmente má de ser um lugar selvagem onde as pessoas se perdiam com facilidade. No entanto, parece curioso que o número considerável de pessoas desaparecidas nesse lugar, em particular durante o período em que Kreimer ocupou a torre amaldiçoada não tivesse lançado suspeitas.

***

Quando Charlie terminou de contar sua história, senti que não poderia dormir. Até as ondas do oceano pareciam estar cheias de cachorros ganindo e latindo. Mas ele dormiu imediatamente. Precisava mais que eu.

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