domingo, 29 de novembro de 2009

O FAVORITO DO REI

Dois marroquinos sentados no campo
(Eugene Delacroix)


Agora que o sol se pôs, não quero namorar a lua. Vesti-me de azul e afrontei o mar. A arrogância rogou-me piedade, mas eu a calquei sob os pés, como São Jorge ao dragão. Um trapo de gente, que pensa ser o que não é; ser inacabado, desavisado, retirante do mundo. Há um não-lugar comum, invisível aos olhos, mas, não tão distante do coração, aonde o falcão favorito do rei costuma fazer seu ninho. De lá, ele sai, ao alvorecer, mal ouve o chamado do soberano, a pousar no seu pulso. O vento dança alegre, ao redor dos gentis companheiros e o medo se esvai, nas asas puras do amor e da liberdade. Sombras vêm e vão sobre esta terra, enquanto uma rosa procura o calor do sol em plena manhã de outono. Por que sempre me entristeço? Mesmo na felicidade sinto esse aperto no peito. Seria bom que uma chuva torrencial, vinda não sei de onde, molhasse o meu rosto, levando as lágrimas, desfazendo as sombras que me assombram, e, assim, me curasse o espírito, ou, então, seria bom que uma nuvem passageira me arrebatasse para outro espaço, outra dimensão. Dói falar e se expor demais. Às vezes a vontade é de calar e tudo abandonar; pois, às vezes, as palavras soam-me completamente inúteis, absurdamente vãs. Há muito escolhi o caminho do silêncio, mas ainda falo demais e por isso peço que me perdoem, uma vez que não desejo o sono de ninguém perturbar com meus discursos desordenados ou minhas estranhas e longas histórias; chegará o tempo em que deixarei de contá-las... Mas, por ora, não nos enganemos e despertemos o quanto antes das suaves, vis e belas mentiras, que, cotidianamente, pomos a nos contar; entendamos nós de uma vez, que, um dia, tudo o que agora nos enche o olhar, desaparecerá como um límpido/terrível/doce sonho. Mas, quando isso acontecer, certamente será primavera e tornaremos a despertar nos braços do amigo/esposo/amante, lá, no não-lugar comum, invisível aos olhos, mas não tão distante do coração e, perplexo, diante deste sol brilhante, perceberemos, finalmente, que éramos nós, tu e eu, os favoritos do rei.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

CALMARIA




As sombras do jardim entraram pela casa

A claridade luminosa do dia perdeu-se dentro da escuridão

Perderam-se também minhas ilusões, minhas canções, minhas paixões

Sobra-me agora apenas o tédio de uma longa espera


No começo da noite vou à procura de um refúgio

Estou sempre à procura de um refúgio

E desfruto as caricias do vento, os anseios do mar, tão longe

Mas não há tormentos, não há sonhos


De manhã, sabiá me chama pousado no varal de roupa

Depois voa, atrás de outros céus

Quisera eu também poder voar

Soletrar teu nome com pedaços de nuvem

domingo, 22 de novembro de 2009

VELHA CIDADE

Ruínas de uma velha cidade
Onde pairam os espíritos dos mortos
Sobre feias desgastadas sepulturas
Estendem-se ervas daninhas
Eu, único ser vivente dessa cidade fantasma
Procuro dentre os escombros algo que me valha
Algo que me devolva ao que sou
Dorme a essência no mais completo escuro
Aos pés de desajeitado muro da sombria urbe
Dói-me a solitária jornada por caminhos retos e ignorados
O cajado me sustenta
Meu abrigo é meu manto esfarrapado
Meu tesouro a cuia de mendigo
Vou em busca da fonte do jovem “Verdejante”
Lugar inalcançável onde o sol e a lua descansam








quarta-feira, 18 de novembro de 2009

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-SERINGAL MIRIM


SERINGAL MIRIM



Baseando-me na pesquisa de Robério Braga (*) sobre o Seringal Mirim, posto que a memória traiçoeira de alguns moradores daquele tempo, ainda vivos, não me permitiu levar tudo em consideração, fiz um resumo dos acontecimentos relevantes que culminaram, enfim, com o desaparecimento do lugar em questão.

De acordo com minhas próprias lembranças, o Seringal Mirim de minha infância já estava em franca decadência, sem o colorido festivo do boi bumbá Mina de Ouro, pouco restando das seringueiras que por um longo período foi a semente mágica enriquecedora que engrandeceu e enobreceu a cidade, elevando-a a categoria de Paris dos Trópicos no auge da Belle Epoque.

Assim como um segredo que não se sabe se deve ser espalhado, aberto a todos, o bairro de São Geraldo guarda em seu seio, como um conto de amor, a bonita história do Seringal Mirim, que juntamente com a Praça 14 e o Boulevard Amazonas, é considerado um dos primeiros redutos de escravos fujões, escravos estes que deram inicio de modo um tanto conturbado, devido ao percalço da vida de perseguidos a comunidade afro-brasileira na região, que trazia consigo, como bagagem, além da coragem, apenas seus santos, suas festas, suas brincadeiras e todas as suas mais diversas formas de manifestações. Oxossi, Senhor das matas, orixá da caça e da abundância, certamente sabia o que estava fazendo quando os encaminhara para cá com a promessa de segurança e bem-estar. No Amazonas, a compra e venda de escravos era um processo assaz esporádico.

Em 24 de Maio de 1884 foi feita uma declaração pública de Libertação dos Escravos em Manaus e no mesmo ano, em 10 de Julho, são declarados livres os escravos no estado do Amazonas.

Sabe-se que por um longo período de tempo, a base de nossa economia foi à extração e comercialização da borracha, assim todos os esforços possíveis eram empregados no sentido de promover e fortalecer cada vez mais nossa única fonte econômica.

Com este propósito, após um apurado estudo para o plantio da seringueira, promovido pela Associação Comercial do Amazonas, (fundada em 1871) sob o incentivo do então comendador José Cláudio Mesquita, foi criado o Campo Experimental do Seringal Mirim, em que foram plantados mais de cem pés de seringas. Ficou estipulado o dia 24 de Junho como o dia da seringueira e todo ano, nessa mesma data, se faria o plantio de uma muda.

Por essa época ainda não se cogitava a quebra total do mercado e nem o esvaziamento da cidade, fatos estes que se sucederam algum tempo depois. Mas, antes disso, o Seringal floresceu e permaneceu ativo por muitos anos, mesmo depois do falecimento do comendador Cláudio Mesquita (embora este fosse oriundo de terras lusitanas, foi um grande incentivador dos estudos e do plantio da hévea brasiliensis) ocorrido em 06 de Novembro de 1923.


Em 1937, o Seringal Mirim esbanjava beleza e exuberância e dois anos depois, em 1939, tentando obter a benção do Ministério da Cultura, o governo do Estado pensou em dele tomar posse.

Mas, saltemos alguns anos adiante e cheguemos logo em 1943, já na jurisdição de Álvaro Maia. Neste mesmo ano, em 19 de Abril, foi criada a Escola de Seringueiros José Cláudio Mesquita, passando esta, desde então, a integrar o Serviço de Fomento Agrícola do Estado, sob a direção do agrônomo Lourenço Faria de Mello, passando o Seringal a funcionar como uma Escola de experiência de látex.


As dificuldades, como sempre, acossavam os mais pobres e as lavadeiras e viúvas da região eram amparadas pela família do conhecido político Ruy Araújo, a saber, sua esposa Helena Cidade de Araújo, e seu irmão André Vidal de Araújo, assim não tardou que o governo acabasse por criar a Vila Assistencial da Praça Liberdade que não ficava exatamente no Seringal, mas sim em uma área vizinha.

Em 18 de Junho de 1979, via decreto 4590, graças a motivos apresentados pelo historiador Robério Braga a Comissão do Patrimônio Histórico, a área do Seringal foi transformada em reserva fundiária estadual e destinada à instalação do Museu do Seringueiro, infelizmente, tal projeto, que chegou a ser desenvolvido, sequer saiu do papel.

No ano seguinte, em 1980, o asfalto chegou à região, expulsando, de vez, através da exploração imobiliária o espírito do Seringal Mirim.

A avenida Djalma Batista, antiga Cláudio Mesquita, iniciada na administração do prefeito Jorge Teixeira, dividiu o Seringal, intensificando-se as invasões de terra.

Hoje, em lugar das árvores, há prédios, casas, praças, escolas, Bancos e a Central de Energia Elétrica que ainda, segundo Robério Braga, na época em que era vereador de Manaus (1989-1982) juntamente com outros parlamentares, tentou interditar a construção para que houvesse uma preservação da memória, porém, nada foi possível fazer devido à falta de documentação.

Do antigo Seringal Mirim resta-nos doce lembrança do cordão das lavadeiras e da presença marcante do “Batuque” Ilê de Santa Bárbara, como um coração vivo; pulsante, localizado à rua João Alfredo, seguindo duas linhas religiosas, primeiro o Candomblé e depois a Umbanda, dando, dessa maneira, maior ênfase ao sincretismo religioso que une a todos e que perdura até aos dias de hoje. Toda a cultura afro-brasileira, com seus cultos e folguedos, lá foram representados e reverenciados.

Há poucos anos atrás, os tradicionais festejos em honra aos orixás, identificados para proteção de sua religião com alguns santos do panteão Católico Apostólico Romano, como Santo Antonio, São Benedito, São João, São Cosme e São Damião, São Jorge, Santa Bárbara, Santa Luzia, eram comemorados com tamanha efusão que era quase impossível, não deixar de passar no terreiro, que, antes, estava sob os cuidados de Maria Estrela, mas, que depois passou as mãos de Joana Papagaio em seguida à mãe Margarida, e, por último, a Ribamar.

O Boi-Bumbá Mina de Ouro tinha o seu curral em frente à esquecida praça da Liberdade, em um terreno vizinho ao Seringal e a dança do Papagaio (muito tempo depois do bumbá) foram destaques nos festejos que aconteciam em plena rua.


(*) RB é historiador, ex-presidente da Academia Amazonense de Letras presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, Secretário de Estado da Cultura, Turismo e Desporto.



domingo, 15 de novembro de 2009

ANDORINHA



Andorinha de asa quebrada e coração partido

Bebe a água fria da fonte.

Chegou o tempo que parecia tão longe

De retornar ao cume além do monte

Logo esquecerás, andorinha,

O cansaço desta longa jornada

E a dor e a tristeza

Da despedida que te mata...

Segue, breve esquecerás o tormento dos homens...

E só ouvirás, andorinha,

A cantiga perdida da fonte

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-E A VIDA É ASSIM?



E A VIDA É ASSIM?




Nelinho ajeitou o cabelo, puxou a blusa, deixando-a meio dentro, meio fora da bermuda, calçou os chinelos, saiu do quarto, abriu a porta, e, mal respondendo a pergunta da mãe, dirigiu-se a casa em frente. Com cuidado, rodeou-a e entrou pela janela aberta.
Ela já estava à espera em cima da cama, metida numa lingerie sexy, vermelha como sangue e mal esperou que Nelinho tirasse a roupa. O prazer do proibido é tanto maior quanto maior o perigo.
Elisa era casada com um sujeito trabalhador e meio marrento, um empresário de sucesso no ramo dos livros. Não era infeliz, mas gostava de abusar de seus atributos físicos e mentais, pois além de bonita era inteligente e como quase toda pessoa inteligente e narcisista, subestimava a inteligência de quem supunha estar a enganar.
Os comentários do romance entre Nelinho e Elisa, correram soltos e acabaram por chegar aos ouvidos do marido, que era corno-manso não por vontade própria, mas apenas por nada saber... Bom, até aquele momento... Não era a primeira vez que ouvia sobre Elisa esse tipo de comentário, claro que nunca comprovados posto que jamais fizera caso, entretanto, desta vez, “uma pulga atrás da orelha” estava a importuná-lo. Se tudo fosse verdade, o caso estaria com os dias contados. Debaixo de suas fuças, Elisa, nem ninguém, nenhum sujeitinho de m... iria fazê-lo de trouxa.
Pensando em dar o flagra, fez o que todo marido enganado costuma fazer. Disse que ia passar o dia todo fora e só voltaria ao anoitecer. Em vez disso, esperou na esquina, fingindo tomar um café. Quem o via ali, muito desconfiava o que estava prestes a acontecer e ficavam por perto, ressabiados, prontos para a consumação dos fatos.

Elisa foi que nem desconfiou de nada. Notara a mudança de humor e os olhares sombrios do marido, mas nada que abalasse sua fatal confiança em si mesma. Geraldo era assim de nascença. Conhecia-o bem. Cego de espírito, por isso tinha aquele jeito de olhar carregado, esquisito. Desde que o caso com Nelinho começara desdobrara-se em carinhos e cuidados com o marido, mas nada de consciência pesada, agia dessa maneira justamente pra não levantar suspeitas.

Bom, quanto aos buchichos da vizinhança (estava ciente deles) nada poderia fazer e depois ninguém podia provar nada. Caso chegasse aos ouvidos de Geraldo e ele viesse lhe perguntar, sorriria daquele jeito só seu e diria que era inveja, já que, por aquelas bandas nenhum homem tinha mulher mais bonita que a dele. Acontecera isso antes e Geraldo, graças a Deus, engolira a mentira e além do mais, não era homem de dar ouvidos aos boatos. O dito “onde há fumaça há fogo” só se aplicava aos negócios, nunca à vida prática.

Pensando assim, Elisa largou-se sem preocupações a enfeitar a cabeça do marido. Nelinho, seu jovem amante, não era pra qualquer uma. Era um deus grego. Forte, alto, saudável, louro... enfim, um deus. Quem, em sã consciência, e amadurecimento sexual, deixaria um cara como esse escapar...

Elisa possuía um furor que Geraldo não era mais capaz de conter. Elisa precisava algo mais do que amor. Elisa precisava de satisfação, com alguém satisfeito é mais fácil de se conviver, satisfação gera felicidade; felicidade pra ela, pra Geraldo e pra quem mais estivesse ao redor. Ser/estar feliz era a sua meta, a sua ambição e ser/estar feliz viria da satisfação. A vida era muito curta, então ela curtia a vida pra valer. Não queria o fim de seu casamento, queria apenas satisfação, estando satisfeita, Geraldo ficaria satisfeito também e tudo estaria sempre bem.
Nelinho por sua vez, oportunista nato, era o herói da turma por esta última façanha, Elisa era mulher troféu de deixar qualquer um com água na boca, precisando de babador. Nelinho enredou-se na aventura, mas pelo gosto de proibido, pra se mostrar pros amigos, do que propriamente pela paixão ou os atributos físicos de Elisa. Era bom pegar o que era de outro, claro, sem o outro saber... um cleptomaníaco de emoções e sentimentos humanos. Outros dariam nomes menos românticos, como, por exemplo, traição.

Nelinho e Elisa deleitavam-se nos prazeres da carne, entre gemidos e gritos que, Geraldo, do canto em que estava podia ouvir. Era vergonhoso demais.
Sem mais esperar, saiu do bar feito um louco e rumou para casa onde meteu o pé na porta, rapidamente dirigindo-se ao quarto.
Nelinho e Elisa assustaram-se com a súbita interrupção e olharam para Geraldo que, de arma em punho tencionava “lavar a honra com sangue” e foi o que fez. Disparou tiros, que foram, pelo menos dois, certeiros em Elisa, os outros perderam-se na intenção de matar Nelinho.
Nelinho, sem questionar a sorte de plantão, pegou a blusa e correu, nem tendo tempo de pegar a bermuda que ficara jogada em cima do criado mudo. Correu, mas não encontrava saída. Foi para a cozinha, onde uma cancela de madeira era a única barreira a separá-lo da liberdade.
Geraldo correu também, atrás do jovem e alcançou-o... largando a arma, que estava sem balas, pegou a faca peixeira do faqueiro em cima da pia e antes que Nelinho pudesse pular ou abrir a cancela, acertou- lhe uma facada nas costas. Nelinho caiu, enfraquecido pelo golpe, com o peito exposto, Geraldo desferiu-lhe mais uma facada, direto no coração.
Assim morreu o jovem deus grego, que era uma lenda entre os seus. Morreu aos 18 anos, por um capricho, nu, da cintura para baixo, no soalho da cozinha de um marido traído.

Elisa não morreu. Ficou paralítica da cintura pra baixo.
Geraldo foi levado a julgamento, mas absolvido pela alegação de que “matara em legitima defesa da honra”. Naquele tempo ainda se usava, e se aceitava, tal alegação.

Pouco tempo depois, Geraldo e Elisa tornaram a voltar, tornaram a viver juntos, outra vez como marido e mulher.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

OS COMEDORES DE GENTE PARTE FINAL

Revolta, horror e abominação caíram sobre mim como uma inundação devastadora, extinguindo as chamas do insidioso ardor que sentia. Ajoelhei-me junto àquela sinistra relíquia com o rosto afundado nas mãos, tremendo de vergonha e aversão por mim mesmo, como um espírito recém-liberto de um terrível poço e limbo de maldade no qual havia me deixado ficar por dias de abandono semi-consciente. Em que havia quase me transformado? Com um grito, olhei em volta. O quarto estava literalmente amontoado de ossos humanos, os horrendos troféus que Kreimer, o homem-demônio, o canibal, havia cumulado ali como recordação de suas macabras orgias.

Ainda muito abalado, desci correndo as escadas; atravessei o terreno e fui em direção à figura que agora estava caída na beira da mata. Corri tão rápido como quando fui perseguido pelos cães infernais no dia da execrável morte de Kreimer. O cingalês seguiu-me. Erguemos o homem caído, mas ele já estava morto.

Dois dias mais tarde eu estava a caminho da civilização acompanhado pelo cingalês. Antes de ir-me, porém, carreguei todos os rifles e revólveres da torre, entrei no canil e ali fiz o que devia fazer, rápido e sem piedade. Quando o último dos cães infernais soltou seu derradeiro ganido, voltei à torre. O cingalês e eu juntamos toda madeira seca que pudemos encontrar, e, após empilhá-las no primeiro andar, ateei fogo. Em poucas horas nada sobrara do castelo a não ser as paredes enegrecidas.

Quando voltei para Colombo, fiz algumas investigações e descobri, em linhas gerais, a história do lugar. Havia sido construído por um inglês rico e excêntrico nas primeiras décadas do século dezenove. Era astrólogo, e retirara-se para essa região remota a fim de poder se dedicar melhor ao estudo de sua misteriosa arte, livre de perturbação e interferência. Por pelo menos uma geração ficara abandonado e praticamente destruído, até que, uns dois anos antes do começo de minha história; foi encontrado e reforçado por Kreimer. O misterioso desaparecimento de exploradores numa região como essa não provocara nenhum estranhamento dos moradores da região, uma vez que se pensava que haviam morrido na mata vizinha, que tinha uma fama particularmente má de ser um lugar selvagem onde as pessoas se perdiam com facilidade. No entanto, parece curioso que o número considerável de pessoas desaparecidas nesse lugar, em particular durante o período em que Kreimer ocupou a torre amaldiçoada não tivesse lançado suspeitas.

***

Quando Charlie terminou de contar sua história, senti que não poderia dormir. Até as ondas do oceano pareciam estar cheias de cachorros ganindo e latindo. Mas ele dormiu imediatamente. Precisava mais que eu.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

OS COMEDORES DE GENTE PARTE VII


Pouco a pouco, a influencia, o horror tomaram conta de mim. Logo estava feito criança em suas mãos. Andava por ali como que em transe. O cingalês notou a mudança e alertou-me com palavras enigmáticas, mas era como se falasse com as paredes em volta. Algum poder obscuro, imensuravelmente mais poderoso que o homem, apossara-se de mim, de corpo e alma. O latir dos cachorros tornara-se música para os meus ouvidos, e, curiosamente, eles já não se mostravam hostis, muito pelo contrário, até pulavam de alegria a altura do cercado quando eu aparecia, mostrando-me afeição, lambendo-me as mãos. Certa manhã, nublada e quente, impiedosamente tropical, com uma ameaça de tempestade, levantei-me com a mente mais entorpecida do que nunca. Percebi em mim o desejo de alguma coisa que não sabia descrever, uma ânsia horrível, uma fome violenta, que, no entanto, não era uma fome comum, pois o excelente café servido pelo cingalês permaneceu intocado, provocando-me somente náuseas. Como uma fera esfaimada, caminhava pela casa, a largas passadas, indo de uma janela a outra. Ah, o que era aquilo?! Os cachorros latiam ferozmente. Algo em mim, indescritivelmente incontrolável e selvagem, fez com que eu saltasse como um tigre ao ouvir os latidos. Olhei para a mata. Um homem em um traje de brim branco saía de lá, cambaleante, evidentemente no mesmo apuro em que me encontrara uns dez dias antes. Então, desapareceu de minha vista.

Corri para o último andar da torre, o melhor lugar para vigiá-lo, subindo aos saltos os gastos degraus de pedra, igual a uma pantera, dominado por um irrefreável desejo de sangue. Sentia na carne, a irresistível alegria do triunfo que as feras devem sentir à visão de suas presas.

Atrás de mim, gritava o cingalês: “Senhor, senhor, não suba”, ele insistia. “Há alguma coisa lá... alguma coisa maldita!”

O andar mais alto da torre consistia de dois quartos. Até então eu entrara apenas no do outro lado, cheio de livros, armas e equipamentos de caça. O que dava para a mata estava fechado. Bem, num verdadeiro frenesi atirei-me contra a porta. A velha fechadura partiu-se e lancei-me para dentro do lugar com uma força terrível. Tropeçando, fui para a janela, coberta de teias de aranha com os olhos arregalados, ofegando como um tigre na jaula. Ah, agora avistava a pequena forma branca outra vez!

Os cães... como latiam! Meu impulso foi descer e soltá-los, para caçar, capturar e... Mesmo agora, depois de muitos anos, fico enjoado e tonto à simples lembrança do horripilante desejo que me invadira com uma onda de ansiedade. Agarrar, despedaçar, morder... sim, morder, literalmente morder!

Algo caiu ao chão, fazendo um ruído lúgubre, daí virou e rolou sobre as tábuas apodrecidas. Baixei os olhos para ver o objeto ... um crânio humano girava lentamente sobre sua abóbada descarnada, bem junto aos meus pés!



Continua...